Opinião

Open AI e a corrida do ouro no mercado de M&A

Não é mais novidade a relevância crescente do mercado de inteligência artificial (IA) para todo o mundo. Base para máquinas, carros e desenvolvimento de softwares, a IA impulsionou uma corrida global por liderança tecnológica, criando um movimento que transformou a inteligência artificial de um laboratório de pesquisa em uma das classes de ativos mais disputadas no capital de risco global.

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O que antes era tratado como uma promessa passou a se consolidar como uma força econômica real, desencadeando uma verdadeira corrida envolvendo empresas, fundos especializados e até mesmo governos em busca de infraestrutura e talentos capazes de gerar vantagens competitivas.

De acordo o M&A Alerts publicado pela MAAdvisor, até meados de outubro de 2025 foi identificado um crescimento de 123% nas transações globais envolvendo empresas de inteligência artificial [1].

Em 2025, o mercado de IA alcançou oficialmente novos patamares após a OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, anunciar uma rodada de investimentos de US$ 40 bilhões, liderada pela gigante japonesa SoftBank [2].

O aporte não apenas também redefiniu o espectro competitivo e estratégico do setor de IA, como também se consolidou como a maior captação de capital privado já registrada na história da tecnologia até aquele.

Posteriormente outras empresas se viram forçadas a acompanhar o movimento do mercado e foram responsáveis por rodadas relevantes, tais como a rodada levantada pela xAI (inteligência artificial criada por Elon Musk) no valor de US$ 20 bilhões em janeiro de 2026 [3] e, posteriormente, a captação de US$ 30 bilhões pela Anthropic (desenvolvedora do Claude AI) [4] em fevereiro do mesmo ano.

Ao que parece, o boom global de fusões e aquisições que definiu 2025 permanece em 2026, à medida que as empresas reavaliam seus portfólios e a demanda impulsionada pela inteligência artificial alimenta transações em larga escala, representando uma clara corrida do ouro na busca por protagonismo no setor.

Essa tese se confirma nos números do mercado

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De acordo com o site da Pitchbook, o valor total das transações globais aumentou quase 40%, atingindo um recorde de US$ 4.9 trilhões em 2025 [5].

Em linha com esta afirmação, no dia 27 de fevereiro de 2026, a Open AI comunicou uma nova rodada de investimento que alcançou o valor de US$ 110 bilhões, com uma avaliação pré-money (isto é, valor da empresa antes mesmo do aporte recebido) de aproximadamente US$ 730 bilhões. A rodada contou com US$ 30 bilhões da SoftBank, US$ 30 bilhões da Nvidia e US$ 50 bi da Amazon [6].

Além do volume expressivo de capital, com base no comunicado oficial, a Open AI ainda desenvolverá projetos estratégicos em conjunto com Amazon e Nvidia, reforçando a importância de acordos de infraestrutura tecnológica e cooperação estratégica.

Esses aportes multimilionários demonstram que o setor de IA, mesmo concentrado em alguns líderes globais, continua dinâmico e competitivo. Isto se aplica tanto a startups emergentes, capitaneadas tanto por ex-executivos de grandes empresas na busca por capital, quanto para big techs que disputam o acesso à tecnologias inovadoras.

Ainda, em outras ocasiões, buscam-se estratégias até mesmo pela aquisição de talentos através do que chamamos de “acqui-hiring”, visando profissionais de ponta em inteligência artificial.

Como exemplo emblemático, o episódio marcante envolvendo o CEO da OpenAI ilustra bem a importância estratégica desses profissionais. Em novembro de 2023, Sam Altman, figura central na ascensão da OpenAI, foi destituído pelo conselho da companhia. A decisão gerou tumulto interno.

A Microsoft, parceira estratégica e investidora significativa da OpenAI, anunciou a contratação de Altman para liderar uma nova equipe de pesquisa avançada em IA dentro de suas operações, destacando a importância do executivo para o setor.

No entanto, diante da pressão conjunta de investidores, o conselho acabou revertendo sua decisão, reinstalando Altman como CEO apenas cinco dias depois de sua saída.

Em uma perspectiva mais próxima do mercado brasileiro, o setor de inteligência artificial no Brasil possui uma expectativa de crescimento relevante, especialmente impulsionada pelo avanço do mercado de data center no país.

Um data center é uma infraestrutura física que abriga servidores, sistemas de armazenamento e redes responsáveis por processar grandes volumes de dados, sendo considerados essenciais para o funcionamento e expansão das aplicações de inteligência artificial.

Atualmente, o Brasil é líder de mercado na América Latina, concentrando metade do mercado na região, com previsão de investimentos que podem alcançar US$ 3 trilhões nos próximos cinco anos [7].

Como forma de incentivo, o governo federal considerou um projeto de lei que criaria incentivos fiscais para estimular a instalação de data centers no Brasil, instituindo o chamado Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). No entanto, o tema não foi inserido na pauta do Senado e perdeu sua validade às 23h59 do dia 25 de fevereiro de 2026 [8].

Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma fronteira tecnológica para se consolidar como um dos principais vetores de transformação econômica global. As rodadas bilionárias envolvendo empresas como OpenAI, xAI e Anthropic não apenas revelam o apetite dos investidores, mas também indicam uma mudança estrutural na forma como o capital está sendo alocado no setor de tecnologia.

No mercado de M&A, essa movimentação tende a se intensificar

À medida que empresas tradicionais buscam incorporar capacidades tecnológicas e que grandes plataformas disputam liderança em infraestrutura e modelos de IA, a tendência é que transações estratégicas, seja por aquisição de empresas, investimentos minoritários ou até mesmo aquisição de talentos, se tornem cada vez mais frequentes.

Mais do que uma corrida por tecnologia, trata-se de uma corrida por posicionamento estratégico em um mercado que pode redefinir setores inteiros da economia. A inteligência artificial, nesse contexto, passa a ocupar papel semelhante ao que a internet representou nas décadas anteriores, isto é, uma infraestrutura essencial sobre a qual novos negócios, serviços e modelos econômicos serão construídos.

Para países como o Brasil, o avanço da infraestrutura digital, especialmente com a expansão de data centers, pode representar uma oportunidade relevante de inserção nessa nova economia tecnológica. Contudo, essa oportunidade dependerá não apenas da disponibilidade de capital, mas também de políticas públicas capazes de estimular investimentos, reduzir entraves regulatórios e atrair projetos de grande escala.

Se há uma conclusão possível diante dos números e movimentos recentes do mercado, é que a inteligência artificial inaugurou uma nova corrida global por valor. E, como em toda corrida do ouro, aqueles que conseguirem combinar capital, infraestrutura, talento e estratégia provavelmente estarão melhor posicionados para capturar os ganhos dessa nova era tecnológica.

 


[1] Aqui.

[2] OpenAI capta US$ 40 bilhões e fecha maior investimento privado da história da tecnologia. Disponível aqui.

[3] Elon Musk levanta US$ 20B para a xAI em rodada Série E. Disponível aqui.

[4] Anthropic levanta US$ 30 bilhões e salta para valuation de US$ 380 bilhões. Disponível aqui.

[5] The global M&A boom is rolling into 2026 as AI sparks deal frenzy — but cash is getting tight. Disponível aqui.

[6] Scaling AI for everyone. Disponível aqui.

[7] Data centers devem receber US$ 3 trilhões em investimentos e Brasil desponta na América Latina. Disponível aqui.

[8] Senado não pauta incentivo a datacenters e MP perde validade; entenda. Disponível aqui.

Gabriel Magalhães Comegno

é pós-graduado em Direito de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), co-autor de livros e diversos artigos jurídicos e advogado especializado em Direito Empresarial com foco em atuação em Societário, M&A e Venture Capital.

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