O novo romance da escritora paulistana Mariana Salomão Carrara, previsto para estar nas livrarias em maio, pela Todavia (já em pré-venda no site da editora), dissolve o fronteiriço dilema entre a vida e a ficção. No palco do Judiciário, a autora descortina a cênica dos casos e de seus atores — juízes, promotores e defensores que, ao vestirem suas togas e máscaras institucionais, acabam inundados pelas tragédias alheias, sem que suas próprias jornadas lhes deem alguma trégua.

A trama acompanha um jovem magistrado que, obrigado a apresentar uma defesa prévia ao corregedor de seu tribunal por excesso de prazo, revisita os anos iniciais de sua carreira. Se para o público leigo as situações narradas podem soar como um realismo fantástico do absurdo, para quem conhece os meandros forenses do Brasil profundo — que se dá não apenas em Mato Grosso do enredo, mas encontra lugar também no interior de São Paulo ou de qualquer outro estado —, a verossimilhança é palpável. Carrara captura com precisão o insólito que acontece até na fila do banheiro de uma festa rural, quando um rapaz aborda o juiz da comarca para perguntar, com toda a seriedade, se ele “faria bem em fugir com uma moça para se casarem” — cena que poderia estar nas linhas da obra, mas restou apenas para os anais da realidade.
Cláudia Vera Feliz Natal — título que enfileira as comarcas percorridas pelo protagonista — passa longe de um anedotário jurídico. O cenário forense é o terreno fértil onde a autora planta sua verdadeira investigação: as relações humanas. Nesse sentido, está aí o que também esteve, de outras formas, nos romances anteriores de Mariana.
Vínculos de amizade e laços familiares
O livro é, em essência, uma reflexão sobre como nos vinculamos uns aos outros, seja na amizade improvisada entre colegas de trabalho, seja nos complexos laços familiares que se desfazem e refazem diante do tribunal. E se o surpreendente ocorre entre os que se sentam ao redor da mesa de audiência, na vida daquele que busca desesperadamente o acordo — para não ter que decidir sobre as relações dos outros — há vínculos e ausências que ressoam incessantemente.
Deslocado de sua origem e lançado como figura arquetípica em cidades pequenas, o narrador compõe uma ópera burocrática com seus pares: o promotor de justiça (os vários “Dúzios” e as efêmeras “Dúzias”), o defensor público “heroico e sôfrego”, a oficial de justiça que não contém sua verve literária no exercício do labor, a psicóloga forense — definitiva esperança de um guia seguro — e os funcionários do cartório. O ponto alto da crítica social reside na análise dessas conexões passageiras: o narrador descreve a si e aos colegas como “amigos de hotel” em uma colônia de férias interminável, unidos não por afinidade, mas pelo isolamento e pela contingência de serem “alienígenas” naquele habitat.
Escolhas da vida e do destino alheio
É nesse contexto que o protagonista se confronta com o peso de suas escolhas — e a inércia de ver sua vida acontecer como numa tomada aérea de cinema. Casar ou não casar, ter filhos ou não, investir em promessas de amizades — das bifurcações mais significativas da existência às mais cotidianas (para onde viajar nas férias, que piso colocar na casa nova), a vida não poupa o magistrado de arbitrar sua própria jornada. Essa demanda incessante, somada ao ofício de carregar o destino dos outros na ponta da caneta, culmina no que se desenha como uma estafa de decidir. Ou ela sempre esteve lá e o recomendado nunca teria sido se colocar no exercício da judicatura?
Do anti-herói togado, espera-se uma conduta que dignifique a função, mas o que encontramos é um homem despreparado para a vida que tenta ordenar a existência alheia. Cláudia Vera Feliz Natal nos lembra que, para refletir sobre famílias, temos sempre as nossas e as dos outros — e para quem atua no Judiciário, a dos outros é um espectro infinito de possibilidades que acaba por iluminar as suas próprias questões. O veredicto final sobre a autenticidade desse juiz, e sobre a própria literatura de Carrara, a leitora descobrirá nas entrelinhas da defesa apresentada à Corregedoria.
Mesmo após um notável bicampeonato nos últimos Prêmios São Paulo de Literatura, Mariana Salomão Carrara parece não perder nem um pouco de seu fôlego criativo. Com Cláudia Vera Feliz Natal, a autora lança mais um desafio aos jurados e se coloca, com vigor e sensibilidade, no páreo para uma inédita sequência de três láureas.
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