O aumento de investigações e operações de combate à corrupção costuma produzir uma impressão imediata. A de que o problema cresceu. Diante de casos que ganham visibilidade e números expressivos, essa percepção é compreensível. Para muitos cidadãos, a corrupção parece onipresente. Não necessariamente como um fato concreto do dia a dia, mas como a ideia de um sistema corroído.

Esse sentimento não surge do nada. Ele se alimenta de episódios reais, erros graves e escândalos que marcam a vida pública. Também foi reforçado, ao longo do tempo, por uma desconfiança generalizada que muitas vezes não distingue responsabilidades nem reconhece diferenças entre instituições, agentes e contextos.
Quando tudo parece igualmente contaminado, nada parece digno de confiança. É nesse ponto que o debate precisa ser qualificado. O que muitas vezes aumenta não é a corrupção em si, mas a capacidade de identificá-la e combatê-la. Quando instituições funcionam, se coordenam e atuam com autonomia e responsabilidade, mais irregularidades são publicizadas. Não porque surgiram naquele momento, mas porque deixaram de passar despercebidas.
Se analisarmos três operações de bastante destaque como a “sem desconto”, sobre fraudes no INSS, a “carbono oculto” e a “compliance zero”, sobre o sistema financeiro, identificaremos alguns padrões. O primeiro é justamente o fato de serem esquemas gestados há alguns anos, alimentados por um profundo desprezo do governo anterior pelos mecanismos de regulação e fiscalização. E aqui o segundo padrão toma corpo.
A ideia completamente anacrônica de que liberdade econômica significa ausência de regras e, portanto, de controles. Essa crença abriu caminho para irregularidades, fraudes e até para a atuação de organizações criminosas em áreas formais da economia. Ou seja, confundiram liberdade de empreender com libertinagem econômica e concorrência com predação.
Nosso desafio, a partir de 2023, foi mobilizar novamente o aparato de fiscalização, controle e regulação. Esse é o momento que o Brasil atravessa. Enfrentamos esse quadro de forma direta. Investigamos, expusemos e interrompemos esquemas que vinham operando nos últimos anos.
Reverter esse cenário exige decisão política
Hoje, o país tem um presidente da República que não interfere em investigações, não protege irregularidades e estimula a atuação coordenada entre órgãos de controle, investigação e responsabilização. Combate-se a corrupção com rigor, sem transformá-la em instrumento político e sem seletividade.
Os números ajudam a entender essa mudança. Em 2025, a Controladoria-Geral da União participou de 76 operações com a Polícia Federal, que identificaram mais de R$ 13,6 bilhões em prejuízos potenciais, um volume mais de 5.000% superior ao de 2022. É disposição para investigar, dar transparência e enfrentar estruturas criminosas consolidadas ao longo do tempo e que foram enfrentadas neste governo.
Auditorias em programas sociais identificaram pagamentos indevidos em larga escala nos anos anteriores, envolvendo o Cadastro Único, Farmácia Popular, o Auxílio Brasil e benefícios emergenciais como o Auxílio Taxista e o Auxílio Caminhoneiro, com distorções que, somadas, superavam R$ 30 bilhões. A revisão de bases, o aperfeiçoamento de critérios e o cruzamento de dados permitiram corrigir falhas, proteger recursos públicos e garantir que políticas sociais chegassem a quem realmente precisa.
A retomada da agenda de transparência cumpriu o seu papel. Foi um pedido de acesso à informação que permitiu à CGU identificar a falsificação do cartão de vacinação do ex-presidente Jair Bolsonaro e desencadear investigações que avançaram para outras irregularidades graves, chegando à tentativa de golpe de Estado. Instrumentos institucionais, quando respeitados, produzem resultados.
Também houve mudança na forma como o acesso à informação é tratado. O chamado “sigilo de cem anos”, que havia se tornado prática recorrente no governo anterior, deixou de ser regra. A partir de 2024, uma portaria da CGU passou a estabelecer prazos mais curtos e critérios objetivos para a proteção de dados pessoais, reservando o prazo máximo apenas para situações excepcionais e devidamente justificadas.
Com a nova orientação, em 2025, apenas 0,06% dos pedidos de acesso à informação foram protegidos por esse tipo de sigilo.
Combater corrupção não é somente investigar depois que o problema aparece
É também prevenir. Nesse campo, o país avançou de forma significativa.
O uso de tecnologia e inteligência de dados permite identificar riscos antes que se transformem em irregularidades. A ferramenta Alice, desenvolvida pela CGU, é um exemplo. Ela aponta indícios de inconsistência em processos de contratação ainda em fase inicial. São alertas de risco, não irregularidades.
Na maior parte dos casos, esses alertas levam a ajustes, correções e aperfeiçoamentos administrativos. Não há desvio, não há dano ao erário. Há prevenção. Foi assim que se geraram economias bilionárias (R$ 5,3 bilhões entre 2023 e 2025, mais de cinco vezes o volume registrado entre 2020 e 2022, de R$ 980 milhões) e se evitaram problemas antes que se materializassem.
Esse conjunto de ações se conecta a uma transformação mais ampla. Hoje, a atuação pública não se limita a reagir a casos isolados. Ela tem sido decisiva para identificar, desarticular e impedir a infiltração de estruturas ilícitas na administração pública e em setores formais da economia.
Somente em 2025, a Polícia Federal realizou 3.864 operações e efetuou quase 26 mil prisões, resultando na identificação de mais de R$ 9,5 bilhões em prejuízos relacionados à corrupção e ao crime organizado. São ações que atingem estruturas complexas e revelam a atuação de redes criminosas dentro e fora da administração pública.
A inteligência financeira completa esse quadro ao permitir seguir o fluxo de recursos que sustenta essas redes. No mesmo período, o Coaf produziu mais de 20,5 mil relatórios de inteligência financeira, a partir de uma base com mais de 65 milhões de comunicações de operações. O trabalho levou à instauração de 786 processos sancionadores e à aplicação de R$ 96,9 milhões em multas.
A atuação integrada do governo brasileiro permite acompanhar o caminho do dinheiro, revelar conexões, identificar padrões e dar suporte a investigações complexas contra esses esquemas.
Nada disso elimina a possibilidade de corrupção. Mas muda a forma como o país lida com ela.
É importante deixar claro que os casos que aparecem hoje não são sinal de um país mais corrupto. São sinal de um Estado que voltou a cumprir suas tarefas.
O que antes ficava escondido, agora aparece. O que antes não era enfrentado, agora é interrompido. E é assim, com instituições funcionando, com prevenção, inteligência e transparência, que se constrói confiança e se fortalece a democracia.
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