Juíza se irrita com advogado e responde às perguntas no lugar da testemunha

Era para ser uma audiência como todas as outras. Primeiro, a acusação interroga a testemunha. Depois, o advogado assume o papel de questionador. Os juízes assistem, fazem anotações e, quem sabe, tiram dúvidas. Num tribunal em Lisboa, no entanto, a ordem se subverteu. A juíza-presidente, impaciente, resolveu assumir o papel da testemunha e responder ela mesma às perguntas do advogado de defesa. E outro juiz, mais irritado, entendeu que o advogado já tinha falado demais e mandou que ele calasse a boca.

O áudio da sessão de julgamento foi divulgado pela Ordem dos Advogados de Portugal (clique aqui para ouvir). Na gravação, é possível notar a postura tranquila e cooperativa da juíza enquanto a testemunha é interrogada pela promotora e a impaciência da magistrada quando chega a vez do advogado falar. Não foi divulgado o nome de nenhum dos envolvidos.

Logo no início da gravação, a testemunha chamada a depor começa a responder aos questionamentos da promotora. Trata-se de uma quadrilha que praticava roubos. A Promotoria gasta 15 minutos, mais ou menos, fazendo suas perguntas e ouvindo a versão da testemunha. Nesse tempo, a juíza-presidente do colegiado procura tirar dúvidas surgidas durante o depoimento e, em nenhum momento, interrompe a promotora.

A partir do minuto 15:39 do áudio, quem assume o papel de questionador da testemunha é o advogado. Logo na sua primeira pergunta, a juíza se irrita. “Pronto, mas isso já disse, já disse”, reclama a magistrada, que pede para o defensor passar para a próxima pergunta. Na próxima, o advogado quer saber quais são as convicções da testemunha de que seu cliente participou do crime. Quem responde é a juíza. “Não é convicção. São elementos de prova”, diz.

A tentativa do advogado de interrogar a testemunha não chega a durar 10 minutos. Depois de deixar claro a sua impaciência e soltar frases do tipo “já explicou” diante dos questionamentos, a juíza resolve acelerar o andamento da audiência. Ela assume o lugar da testemunha e começa, sem pudor, a responder ela própria às perguntas da defesa.

O defensor, então, reclama que “assim não dá”. É nessa hora que um dos juízes que fazia parte do colegiado resolve interferir de maneira nada amistosa. “Tenha lá um bocadinho de respeito pelo tribunal. Oh doutor, tenha respeito, cale-se um bocadinho”, diz. O advogado argumenta que mandar alguém calar a boca não é apropriado numa sala de audiência. A resposta vem do juiz: “Então faça silêncio”.

A partir daí, as falas do advogado são pouco audíveis. Ele não levanta a voz, mas continua reclamando, o que deixa o juiz ainda mais irritado. “Quantas vezes eu preciso dizer pro senhor fazer silêncio?”, questiona, seguido de um: “O senhor não vai me ensinar nada, já chega”. O grand finale do bate-boca fica a cargo do juiz, que, diante da reclamação do advogado de que nunca alguém lhe mandou calar a boca em um tribunal, ensina: “Há sempre uma primeira vez”.

A juíza-presidente não interrompeu o julgamento depois do atrito. Para acalmar os ânimos do advogado, ela prometeu que, ao final da audiência, deixaria que ele registrasse toda a sua insatisfação na ata de julgamento.

Clique aqui para ouvir a gravação da audiência.

Aline Pinheiro

é correspondente da revista Consultor Jurídico na Europa.

anrubar disse:
28 de outubro de 2013 às 18:03

Eu não imaginava que o judiciário brasileiro tinha herdado dos nossos colonizadores a tão falada DITADURA JUDICIAL.

Marcos Alves Pintar disse:
28 de outubro de 2013 às 20:15

O caso valeu para lembrar que na Europa TODOS OS JUÍZOS SÃO COLEGIADOS. De qualquer forma, Portugal é o país mais atrasado da Europa, e não seria mesmo de esperar outra coisa.

junior disse:
28 de outubro de 2013 às 21:16

Tal fato não é novidade no Brasil, já aconteceu muitas vezes comigo, seja na seara criminal, previdenciária ou cível.
.
Juízes totalmente parciais, seja em favor do MP, Procurador do INSS ou amigo do advogado da parte contrária.
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Muito feio, constrangedor e imoral.

Observador.. disse:
29 de outubro de 2013 às 01:13

Sua última frase diz tudo. Onde quer que fato assim aconteça, será sempre "Muito feio, constrangedor e imoral."
O senhor dstá certo.

Zé Machado disse:
29 de outubro de 2013 às 07:18

A TPM ás vezes é uma bomba!

Grasi_FP disse:
29 de outubro de 2013 às 08:52

Cade a imparcialidade, agora me diz se ele não foi condenado.

João B. G. dos Santos disse:
29 de outubro de 2013 às 09:35

Não precisa ir tão longe para se deparar com situações como a retratada. Basta advogar no Fórum Criminal da Barra Funda.

Alexandre F Costa disse:
29 de outubro de 2013 às 10:24

Não vai demorar muito pra ficar igual por aqui.
Acho que os artigos de lei menos lidos no meio jurídico são aqueles do estatuto da advocacia que falam sobre a inexistência de hierarquia entre juízes, MP e advogados; sobre a inviolabilidade do advogado pelas suas manifestações no exercício da profissão; e sobre a necessidade de consideração e respeito mútuos entre, advogados, juízes e promotores. Enquanto isso, os representantes da OAB estão preocupados em se promover politicamente e soltar vagabundos que foram presos fazendo baderna e promovendo quebra-quebra.

Bellbird disse:
29 de outubro de 2013 às 10:36

Como dizem, há varias versões, mas apenas uma verdade.
Muitos advogados mal educados que só querem tumultuar e entram num tribunal e se fazem de vítimas para tentar anular os julgamentos.

Bellbird disse:
29 de outubro de 2013 às 10:36

Como dizem, há varias versões, mas apenas uma verdade.
Muitos advogados mal educados que só querem tumultuar e entram num tribunal e se fazem de vítimas para tentar anular os julgamentos.

LBeraldo disse:
29 de outubro de 2013 às 11:40

Quando os advogados perderem o medo de denunciar as arbitrariedades cometidas aqui, quem sabe seremos mais respeitados.

Edevaldo de Medeiros disse:
29 de outubro de 2013 às 14:00

Exercer a defesa em processo criminal é uma tarefa muito árdua. Quando advoguei, vi coisas bem piores no Brasil, sem nenhuma repercussão.

Observador.. disse:
29 de outubro de 2013 às 15:24

A forma como o senhor se expressou, não deixando o sentimento de classe se impor sobre o que o senhor já vivenciou, só demonstra a sorte que cidadãos brasileiros terão, caso alguma demanda que os envolvem judicialmente, caia em suas mãos.
Ficou muito claro o senso de justiça que guia suas atitudes. Não deixa de ser um alento saber que há magistrados como o senhor Brasil afora.

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