Nova suspeita de venda de sentença traz velhos conhecidos da PGR

Há cinco anos o Ministério Público Federal investiga um mercado de venda de sentenças em Brasília onde a especialidade dos negociadores é não entregar nada e embolsar o dinheiro. Nesta semana, o assunto voltou à pauta, com reportagem da revista Veja com mensagens trocadas entre uma advogada e o diretor jurídico da JBS.

Segundo a reportagem, as mensagens do celular de Renata Gerusa Prado de Araújo revelam um “mercado paralelo de tribunais” no qual a advogada aumentava os próprios honorários para dividir o dinheiro com ministros do Superior Tribunal de Justiça. Mas desde 2012 a Polícia Federal e o MPF suspeitam que Renata se especializou em vender fumaça a peso de ouro.

STJ

Venda de fumaça coloca suspeita sobre ministro que sequer conhecia o esquema, segundo a própria PGR.

As imagens mostram Renata e Francisco de Assis e Silva, da JBS, conversando sobre três casos, um de relatoria do ministro Mauro Campbell Marques, um do ministro João Otávio de Noronha e outro do ministro Napoleão Nunes Maia Filho. Em todos, ela negocia a própria remuneração usando nomes dos ministros. O mais interessante é que em nenhum dos casos a JBS ganhou. 

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, inclusive, pediu que a Polícia Federal abra investigação para apurar “graves ilações” sobre suposta compra de decisões em tribunais superiores

No caso do ministro Mauro Cambpell, Renata diz conhecê-lo “muuuuito bem” e conta que ele pediu R$ 500 mil para decidir uma medida cautelar em favor da JBS e R$ 1 milhão no mérito do recurso especial. Não se sabe se ela recebeu ou não o dinheiro, mas a JBS não teve o pedido atendido pelo ministro.

Com Noronha, Renata sugere a contratação de Ninna, filha do ministro, e diz que ela tem de ganhar pró-labore de R$ 100 mil mais 1,3% do valor da causa, que era de R$ 33 milhões. Era uma disputa com o Banco Santos, que o banco ganhou. Já no caso de Napoleão não houve decisão, apenas Renata dizendo que ele “quer participação nos honorários. Vai por mim”.

O papo é sempre o mesmo: o ministro quer milhares ou milhões para decidir a favor do cliente, mas ele não sabe e nem pode saber que o cliente foi informado sobre a participação dele. Então é preciso pagar como se fossem honorários para a advogada, que repassaria o dinheiro.

Outro ministro, mesmo esquema
Em 2012, essa conversa transformou o ministro Sebastião Reis Jr, do STJ, em investigado. Cinco anos depois, o inquérito continua aberto, mas em março de 2016 a própria Procuradoria-Geral da República concluiu que não havia indícios da participação do ministro no esquema. Sobrou a suspeita de que a mesma Renata Araújo vendeu uma influência que não tinha — e achou quem comprasse.

De acordo com o inquérito, Renata vendeu proximidade com o ministro para a advogada Kárita Peixoto Pouso Alto Renaud Frazão, que trabalhava para um acusado de chefiar organização criminosa especializada em roubo de carga. O réu estava preso e queria um Habeas Corpus do STJ, que havia sido negado pelo ministro Sebastião. Segundo as investigações da PF, Kárita se queixava de “não ter ninguém” em Brasília, mas comemorou ter conhecido uma pessoa na casa de uma “pessoa muito poderosa”, que poderia ajudá-la com outra.

Essa pessoa, segundo a PF, era Renata. Ela é irmã da também advogada Lenisa Prado de Araújo, hoje conselheira do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda (Carf) por indicação da Confederação Nacional do Comércio (CNC), e na época era assessora do gabinete de Sebastião. Ambas são filhas da desembargadora Maria do Carmo, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que já foi convocada ao STJ.

Segundo a PF, foi numa festa na casa de Maria do Carmo que Renata e Kárita se aproximaram, apresentadas pelo juiz federal Charles Renaud Frazão, marido de Kárita e réu por receptação num esquema de fraude envolvendo a Associação de Juízes Federais da 1ª Região (Ajufer), entidade que presidiu.

Renata e Kárita dizem que conversaram na festa sobre problemas de saúde em comum dos maridos, mas não mantiveram contato. A PF diz que houve mais de 70 ligações telefônicas entre elas nos dias seguintes à festa. E afirma que as duas e Lenisa montaram um esquema triangular: Kárita pagaria Renata, que seria a intermediária com Lenisa, que influenciaria o ministro. Todas negam.

A suspeita da PGR se deu pelo fato de o ministro, que já havia negado um HC ao réu, ter reconsiderado sua decisão e dado a ordem de ofício. De acordo com as investigações, o suborno fora combinado numa audiência em maio de 2012 entre Sebastião e o juiz federal Charles Renaud Frazão no gabinete do ministro, no STJ, em Brasília.

Mas havia buracos na história. No dia indicado pela PF, Sebastião estava em Belo Horizonte, onde deu palestra e recebeu uma homenagem do Atlético Mineiro, time do qual é torcedor fanático. Havia mais precedentes pela concessão de ofício do HC do que pela não concessão no STJ, mas o pedido fora negado porque a petição não se atentava para a principal ilegalidade do caso: a ordem de prisão não tinha fundamentação individualizada para cada réu, o que atenta diretamente contra jurisprudência mais do que reiterada do STJ.

Atualização às 19h33: a defesa do juiz Charles Renaud Frazão afirma não esteve no STJ nas datas apontadas inicialmente pelos investigadores e que o inquérito sobre receptação no caso da Ajufer foi arquivado. Clique aqui para ler a nota dos advogados.

Um andamento importante do inquérito foi que sua existência só ficou conhecida no início de 2016, por meio de reportagem do site Jota. Durante quatro anos, a PGR e a PF trataram o ministro como suspeito. Depois que ele tomou conhecimento de que era investigado e apresentou defesa prévia aos investigadores, o inquérito foi arquivado por falta de indícios mínimos de autoria e materialidade.

No dia 5 de setembro deste ano, a 1ª Turma do Supremo negou pedido para que as investigações continuem lá. Não há mais ninguém com foro no STF sendo investigado. Mas, como há um juiz federal citado no inquérito, é o Tribunal Regional Federal da 1ª Região quem tocará o resto das apurações.

Hoje, o inquérito está limitado a Lenisa, Renata, Kárita, os advogados do investigado por roubo de cargo e o juiz Charles Renaud Frazão. “Independentemente de qualquer esforço de raciocínio, a percepção da contundência dos elementos de provas do evento criminoso investigado decorrem das conjunturas que envolvem a aproximação da advogada Kárita Frazão, provavelmente por intermédio de seu esposo, junto a pessoas que possuiriam certa influência no STJ, notadamente as irmãs Lenisa Prado e Renata Prado”, conclui o relatório da Polícia Federal.

Pedro Canário

é jornalista.

André disse:
12 de setembro de 2017 às 14:17

E continuam, placidamente, advogando e lesando, mentindo e corrompendo, sem que sejam incomodadas pela OAB. Já não eram para ter perdido o registro profissional?

Observador70 disse:
12 de setembro de 2017 às 17:52

É muito interessante esse tipo de atuação dos pseudo "adevogados". O golpista vende um fetiche ao corruptor: "o ideal de que se é possível comprar/influenciar decisões judiciais." Na verdade o golpista, desprovido de aptidões jurídicas básicas para o exercício digno da profissão de advogado "blefa"! Tudo não passa de um jogo com probabilidades favoráveis de 50%. Aposta que a decisão será favorável aos interesses do corruptor, e se acertar, diz que foi por conta de sua valiosa intervenção, e daí cobra vultuosos honorários. Caso não saia como o previsto (só falta combinar com os Russos), demonstra indignação, "algo não saiu como previsto", casos em que cobra tão somente um percentual pela atuação. Devemos admitir: é genial pensar que pessoas fazem fortunas com isso! O que mais impressiona é o despreparo, ingenuidade, tolice, dos "diretores jurídicos" de gigantes como a JBS caírem nessa bizarrice. Não duvidamos da existência de magistrados (juízes, desembargadores, ministros) que são corrompíveis, é da humanidade. Não duvidamos que Poder Judiciário (plus Ministério Público), a exemplo do Executivo e Legislativo possuem "segredos escusos" a serem revelados. Porém da forma com que foi noticiado, o modus operandi dos envolvidos beira a infantilidade.

O IDEÓLOGO disse:
12 de setembro de 2017 às 21:21

O pai do Francisco Buarque de Holanda, Sérgio Buarque de Holanda, disse que o brasileiro era o "Homem Cordial".
A expressão “homem cordial”, a propósito, fora cunhada anos antes, por Rui Ribeiro Couto, que julgou ser esse tributo, uma contribuição, latina à humanidade.
O problema surge quando a cordialidade se manifesta na esfera pública. Isso porque o tipo cordial – uma herança portuguesa reforçada por traços das culturas negra e indígena – é individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao paternalismo e ao compadrio, ou seja, não se trata de um perfil adequado para a vida civilizada numa sociedade democrática(http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_jeitinho_do_homem_cordial.html).
Mas, não é somente a cordialidade que marca esse homem.
Ele também é "corrumpere".

O IDEÓLOGO disse:
12 de setembro de 2017 às 21:41

O General Hermes da Fonseca foi eleito em 1 de março de 1910 para a Presidência do Brasil. Venceu ao candidato Rui Barbosa, apoiados pelas elites dos Estados de São Paulo e Bahia, porque a política do café com leite não atingiu consenso.
Foi durante as eleições que os partidários de Rui Barbosa, representante da candidatura civilista, foram chamados de casacas. Os apoiadores de Hermes da Fonseca falavam: -
Os casacas não são corruptos; são, extremamente corruptos.

O IDEÓLOGO disse:
12 de setembro de 2017 às 21:45

Os militares que encamparam o movimento que destituiu o presidente da República João Goulart em 1964 nutriam, em geral, um sentimento de desprezo pelos “casacas”, os políticos identificados sobretudo com corrupção e trocas de favores. Nos primeiros anos da ditadura militar, um dos objetivos mais prementes do regime era MORALIZAR A MÁQUINA PÚBLICA, o que não era fácil, como vários oficiais logo perceberam.
Um exemplo desse sentimento de decepção para com os políticos pode ser percebido na carta do general João Costa, comandante da 6a Região Militar, com jurisdição sobre o estado da Bahia. A carta foi datilografada pelo próprio Costa em 2 de outubro de 1965 e enviada a seu amigo general Ernesto Geisel, então ministro-chefe do Gabinete Militar no governo Castello Branco.
Queixando-se da situação das finanças públicas na Bahia, o general Costa atacou fortemente os políticos: “Com a Revolução ou sem ela os políticos não se corrigem; apoiam-na, aderem, toleram-na, etc., mas continuam a praticar a sua democracia; a democracia do pouco trabalho, das grandes descomposturas, do privilégio de ganhar bem, excessivamente bem com correção monetária etc., de ter casa de graça, transporte de graça e também o direito de ser canalha, porque com tudo isso esse direito deveria ser-lhes cancelado...”
João Costa avisou a Geisel que este receberia a visita do prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães. Descrito como um “integralista de velha cepa” e “homem de passado honesto”, Magalhães viria a Geisel pedir dinheiro para a prefeitura. “Se o governo quiser amparar a turma do Plínio Salgado, é só conceder”, escreveu o general Costa, que já tivera desentendimentos com ACM" (http://arquivosdaditadura.com.br/documento/galeria/os-militares-contra-os-casacas).

O IDEÓLOGO disse:
12 de setembro de 2017 às 21:47

O escritor José Martiniano dos Santos na obra "1942" , Atentado ao Brasil", reproduz o pensamento de Hitler: "Os brasileiros são uma raça de mestiços corruptos e que a democracia dificilmente funcionará na América do Sul. Sua ideia era esperar alguns anos e ajudar a nos livrarmos do sonho democrático" .

José Jorge Ribeiro disse:
13 de setembro de 2017 às 08:47

Duas situações são lamentáveis nessas es(his)tórias. Primeira o fato de advogados "venderem" os julgadores, tornando-os em corruptos perante a sociedade, quando na verdade se tratam de advogados sem qualquer formação ética e moral.
Segunda o fato de o Ministério Público e Polícia Federal manteve um magistrado sob investigação, durante quatro anos, sem qualquer comunicação ao Tribunal a que pertence e sem dar ciência ao investigado para que possa, ao menos, explicar o ocorrido e exercer seus direitos constitucionais.
Em um e em outo caso, lamentam-se as condutas das instituições (OAB, Ministério Público e Polícia Federal) em permitir em seus quadros pessoas com essas condutas, que tanto mal causam ao Poder Judiciário.

Observador.. disse:
13 de setembro de 2017 às 13:28

Lendo os comentários de dois magistrados, nutro esperança de que saiamos desta crise como um país completamente diferente.
As corporações de estado devem ter orgulho não de serem inatingíveis, pois isso só traz distorções a tudo o que é humano.
Sim, orgulho de purgar dos seus quadros todos aqueles que esquecem que seu poder deriva do povo e em seu nome deve ser exercido.
Orgulho de bem servir, de - em seu universo de atuação - fazer o melhor que for possível para o pleno desenvolvimento de nossa nação.
Concurso, por mais difícil que seja, não torna alguém ungido. É apenas um mecanismo para escolher boas cabeças que queiram, com denodo e honra, bem servir sua pátria.
Nada mais.
Parabéns por todos os comentários publicados neste espaço.
Força e honra para todos!

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