O senador Delegado Alessandro (PPS-ES) conseguiu 27 assinaturas para instaurar uma “CPI dos Tribunais Superiores”. A intenção é pressionar as cortes, em especial o Supremo Tribunal Federal (embora ele não seja um tribunal superior), a se “adequar” às vontades de alguns setores dos órgãos de persecução penal. Na justificativa, o senador diz que quer "investigar condutas que extrapolem o exercício irregular" das competências do Judiciário pelos ministros.

Agência Senado
Em tese, o número de assinaturas já é suficiente para a instauração da CPI. A Constituição exige o apoio de um terço dos membros da Casa para a criação de uma comissão de inquérito. No entanto, estudiosos da matéria consideram os regimentos internos da Câmara e do Senado vagos sobre assunto, deixando margem à interpretação de que o presidente tem de levar o requerimento a votação em Plenário, depois das 27 assinaturas.
Quem conhece o assunto e o andamento das coisas no Congresso não tem levado as intenções do senador muito a sério. Alguns apontam a falta de fato determinado para investigação. Outros, a jurisprudência do Supremo, segundo a qual o Congresso só pode instaurar CPIs para investigar fatos que possam ser objetos de suas atribuições, como decidiu, por exemplo, o ministro Luiz Edson Fachin num mandado de segurança sobre a CPI do Futebol. E nenhuma lei pode restringir a procura pelo Judiciário, conforme diz o inciso XXXV do artigo 5º da Constituição.
Caso dê certo, será um passo mais drástico no jogo de pressão de alguns setores do Congresso, especialmente do Senado, contra o Supremo. Alguns parlamentares já vinham ameaçando com projetos de lei ou fazendo chegar ao Senado pedidos de impeachment de ministros, sempre sumariamente arquivados – o novo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), já disse que dará andamento às denúncias.
No requerimento para instauração da CPI, o Delegado Alessandro cita fala do ministro Dias Toffoli, presidente do STF, segundo a qual os juízes estão condicionados à lei e por isso estão legitimados a "ocupar a posição estratégica de moderadora dos conflitos entre as pessoas, os poderes e os entes da Federação". Para o senador, isso coloca o Judiciário na condição de Poder Moderador.
Para o senador, transformar o Judiciário em Moderador acabaria "isentando os tribunais dos freios e contrapesos aos quais estão submetidos os demais poderes".
O delegado tenta apontar para as decisões monocráticas, alvo de críticas até de alguns ministros, mas acaba emulando o discurso de alguns procuradores da República: “A diferença abissal do lapso de tramitação de pedidos, a depender do interessado e participação de ministros em atividades econômicas incompatíveis com a Lei Orgânica da Magistratura”. Frase muito parecida está numa exceção de suspeição apresentada pela Procuradoria-Geral da República a pedido dos procuradores da “lava jato” no Rio de Janeiro contra o ministro Gilmar Mendes.
Há ecos de outras falas dos setores de apoio à submissão do Judiciário ao MPF: "Os problemas perpassam ministros e colegiados, consistindo em disfunções estruturais do sistema judicial brasileiro, violando os Princípios da Isonomia, da Legalidade e o respeito ao devido processo legal. Um exemplo adicional é o uso político do tempo de tramitação das decisões. Isso se dá por diversos mecanismos entre os quais os pedidos de vista em violação dos prazos de devolução e a aceitação seletiva de recursos de modo a postergar julgamentos".
A CPI já tem sido chamada de “Lava Toga” no Congresso pelo grupo de apoio aos setores corporativos do Ministério Público, que a imprensa se acostumou a chamar de “bancada da lava jato”.

Investigação no Brasil virou forma de punição..." se me investigar, eu te investigo também"...
Ótima iniciativa. Em repúblicas ninguém está acima da lei, nem mesmo ministros do Supremo.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login