O rei dos Jardins

AME Jardins é tomada de assalto por presidente que ataca morador

Como ocorre todos os dias do ano, está em cartaz mais um golpe para explorar incautos. Não incautos quaisquer, mas moradores privilegiados de condomínios e bairros famosos por suas mansões.

Stan/Divulgação

bairro jardins são paulo

Associação de moradores dos Jardins tem mais de 500 associados, mas apenas 12 participaram da eleição de seu presidente

O truque é simples: “convoca-se” assembleia de uma associação de bairro, por exemplo, sem maiores cuidados para divulgá-la, nem para esclarecer que decisões heterodoxas poderiam ser adotadas.

Das centenas de moradores, apenas 12 comparecem. Os integrantes do pequeno grupo, a partir daí, se tornam algo como senhores feudais que passam a defender “interesses coletivos” só deles.

Foi o que aconteceu com a Associação de Moradores dos Jardins (América, Europa, Paulista e Paulistano), ou AME Jardins — provavelmente a mais rica de São Paulo —, que se apresentava como organização sem fins lucrativos. E era, até então.

Presidente de aluguel

Um negociante da área da comunicação, que se apresenta como jornalista, Fernando de Sampaio Barros, elegeu-se com o voto dele próprio e de outros 11 sócios. A diretoria da AME tem dúvidas sobre o número de associados. Ora a informação é de que são mais de 500, ora “mais de 700” ou, como informa o site, “mais de 2.500”.

Seu primeiro ato foi definir uma remuneração para si próprio, com bonificações anuais. Quanto mais a associação faturar, mais o primeiro presidente remunerado em causa própria vai enriquecer.

Com essa espécie exótica de mandato artificial, o presidente investiu contra um morador do bairro — ao qual atribuiu infrações — pretendendo sanções confiscatórias no valor de R$ 34,9 milhões. O motivo alegado: uma edícula aumentaria a sombra em uma das três piscinas do outro vizinho. Para isso, moveu uma ação civil pública contra o morador.

Não está clara a motivação sobre a escolha do presidente bonificado entre os dois associados vizinhos: o protegido dele enfrenta denúncia mais grave sobre o mais alto rooftop dos Jardins, erguido dentro de um terreno árido, com um bloco de concreto de três pisos irregulares no meio. A denúncia “dorme” há meses nas gavetas da honrada burocracia pública e o presidente bonificado não se interessa pelos “interesses difusos” desse caso.

Conto do vigário

O fato é que a região dos Jardins é antiga, com casas construídas antes das normas em vigor: poucas residências se enquadram nas leis posteriores. A edícula, no caso, foi reformada — situação em que as regras são mais flexíveis. Sem contar que o tombamento dos Jardins é singular e só protege o bairro, e não as casas. O fato é que Sampaio Barros, com multas absurdas, poderá confiscar a propriedade de qualquer dos associados da AME, que ele deveria proteger.

A farsa de Sampaio Barros ganhou tração com a sua reeleição. A assembleia foi em abril de 2024, mas só foi registrada em agosto de 2025. Com um pequeno detalhe que pode invalidar a reunião e, por consequência, todos os atos da diretoria.

Além de só ser oficializada mais de um ano depois, a ata informa que a assembleia começou às 12h. Por ser em segunda chamada, dada a falta de quórum, os trabalhos só poderiam ter começado meia hora depois, como atesta o vídeo da reunião. A retificação feita quando do registro — alterando o horário da reunião — só expõe a tramoia.

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