O itinerário da correlação de forças entre os países tem um fio condutor. Primeiro veio o comando da situação pela força bruta. Depois veio o domínio pelas ferramentas — também conhecidas como armas — e pela tecnologia. Com elas, impôs-se a força pela inteligência. Uma palavra com diversos significados.

Flávio Bolsonaro topava qualquer negócio por uma foto com Donald Trump
Produzir inteligência é a receita da dominação. Espionagem, contraespionagem, infiltração e a infinita coleção de truques para submeter pessoas e países para extrair riquezas e, objetivo legítimo, garantir o bem-estar do seu povo. Deles, claro.
Durante quase dois séculos, usou-se a inteligência para descobrir os pontos fracos do inimigo (ou concorrentes) e sufocá-los na base da força bruta, transformando-o em colônia. Ficaram famosos “serviços” como CIA, MI5, MI6, Mossad, KGB (hoje FSB) e, no Brasil, o SNI — que se tornou a inutilidade chamada Abin.
Visados demais por sua truculência, crimes e exposição — o que contrariava o conceito de “serviço secreto” —, os órgãos de inteligência disfarçaram-se. Nasceu, então, o truque das “propriedades”. Para não depender da fórmula surrada do “agente de campo” (o 007, lembra?), os agentes tornaram-se protagonistas.
Salvando o planeta
Criaram jornais que não eram jornais, lojas que não eram lojas, indústrias que não eram indústrias e, principalmente, falsas “ONGs”. O funcionamento padrão é e era simples demais. Suponha que um país cliente ameace uma potência de tornar-se concorrente, a ponto de roubar sua freguesia.
Imagine que esse país, por suas características, torne-se o maior fornecedor de comida do mundo — um ativo que tem mais futuro do que o iphone. Não hesite: diga que esse país está destruindo a natureza, violando direitos humanos ou matando criancinhas.
Para “proteger a humanidade”, cria-se um bloqueio comercial. Diga que a produção deriva do desmatamento, da ameaça de extinção do mico leão dourado ou qualquer lorota de apelo popular. Outra boa ideia é criar as falsas “ONGs”. Todas, coincidentemente, dentro da agenda de crescimento das metrópoles e submissão das colônias.
Pode-se até mesmo inventar uma “ONG” chamada de “transparência internacional”. Crie um falso “índice de percepção da corrupção” e convença os ingênuos de que neutralizar o sistema produtivo desse país é algo necessário para o seu próprio bem. A família Bolsonaro poderia sugerir a Trump que investigue como o fantoche Bruno Brandão gasta o dinheiro do Departamento de Estado e da agência de cooperação internacional (Usaid) dos EUA. Sim, senhores a falsa ONG tem financiamento do governo americano. Mais “transparência”, impossível.
Ficção criminal
No frigir dos ovos, quem precisa da CIA se você tem fantoches, como a família Bolsonaro, dispostos a enriquecer países alheios e empobrecer o seu? Isso é o que se chama de propriedade ideal.
Invente uma narrativa verossímil, como a de que um suposto grupo chamado PCC ou CV é terrorista. Depois de plantar a lorota, abre-se a porta para intervenções, tarifas, cotas, embargos e sanções. Admita-se: conseguir desmoralizar até mesmo o terrorismo não é para qualquer um.
Fácil demais. Afinal, quem vai duvidar que um bando de marginais e delinquentes analfabetos tem sob seu controle milhares de prefeitos, postos de gasolina, fintechs, tribunais, um ministério da previdência para sustentar familiares de presos?
Exagere à vontade. A ignorância comporta todo tipo de bobagem. Pregue que esse grupo domina o Estado brasileiro, o Congresso, as forças armadas e a Faria Lima. Diga que eles, num lance de genialidade insólita, montaram uma estrutura internacional com dezenas de milhares de bandidos nos cinco continentes.
Nas horas vagas, essa quadrilha intergaláctica diverte-se dando injeções de metanol em garrafas de 51 para ganhar 25 centavos por litro. Nas férias, controla o tráfico mundial, opera portos no Uruguai, na Bolívia, no Equador e no Panamá.
A família Bolsonaro poderia, sim, dar uma contribuição importante no combate ao crime organizado. Bastaria explicar suas conexões com as milícias do Rio de Janeiro e as alianças com os grupos criminosos, associados a Cláudio de Castro. O Senado, que Flávio não costuma frequentar, já aprovou projeto que equipara atos de grupos criminosos organizados e milícias a terrorismo. As práticas dessa grande quadrilha, já foram provadas e comprovadas — algo que Trump e seus pets amestrados não fizeram.
PCC acelera a rotação do planeta
As fantasias de Trump não nasceram do nada. Elas são provas da criatividade da imprensa. A próxima reportagem do Estadão, por exemplo, poderá descobrir que os batedores de carteira da Vila Matilde estão acelerando o movimento de rotação e translação do planeta. Esses espantalhos fazem o maior sucesso junto ao público que gosta de ser enganado e que acredita nas boas intenções dos Estados Unidos.
A lógica é digna de roteiristas do Monty Python. Abuse da pimenta. Fale que tudo isso é dirigido por um tal Marcola, que se encontra incomunicável há dez anos, sem celular, em prisão de segurança máxima, sem qualquer contato com o mundo exterior. Claro, com a assessoria da blogueira Deolane e do dono da única refinaria privada brasileira, Ricardo Magro. Provas? Não precisa. Basta dizer que é assim. Acredite quem quiser.
No centro do picadeiro desse circo, um bufão chamado Lincoln Gakiya, mentiroso contumaz e compulsivo. Ele alerta todos os brasileiros para que, antes de dormir, verifiquem sob sua cama se não tem um PCC, um CV ou um bicho-papão à espreita. Pronto pra devorá-lo.
Faz dois anos que o governo americano busca no Ministério da Justiça, na Polícia Federal e nas Secretarias de Segurança do Brasil todo alguém que respalde a trolagem do fantasioso terrorismo. Não conseguiram.
Aposta na ignorância
Até que, no desespero para ser recebido pelo agente laranja, Flávio Bolsonaro e seu irmão, um deficiente mental, topasse a barganha: dizer que as siglas idiotas são terroristas. Ohhhhh. Depois de dizerem que vacina mata e que Daniel Vorcaro é um santo, vieram com essa. Os vigaristas apostam na ignorância nacional. Roubaram da dupla Pinky e Cérebro o seu plano maligno de dominar o planeta.
Claro que ajuda ter o respaldo técnico do Datafolha, do AtlasIntel, do Casseta e Planeta e do Porta dos Fundos para sustentar que o problema do Brasil é o Supremo Tribunal Federal. Se alguém perguntar se existe ao menos uma decisão do STF que tenha beneficiado o Banco Master, desconverse. Diga que Vorcaro promoveu uma degustação de uísque em Londres e pronto. Afinal, para quem quer pretexto, qualquer pretexto serve.
A pantomima segue em frente. O grande problema do Brasil, segundo Folha, Estadão e Globo, é que as expressões máximas do Judiciário, do Executivo e do Legislativo reúnam-se em Lisboa para debater as prioridades do país. Um vexame transcendental. Vergonha que perseguirá a imprensa brasileira pelo pouco tempo de vida que lhe resta.
Insista-se. Donald Trump querer inviabilizar o Brasil para melhorar as condições econômicas dos americanos é mais do que legítimo. A perversidade está na constatação de que brasileiros estão desistindo de seu progresso econômico e sua independência para cair nesse conto do vigário. Cheios de orgulho.
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