Jus ad Bellum – Direito de fazer a guerra, e o Jus in Bello – o Direito na guerra em tradução literal, ou Direito Humanitário em uma tradução mais livre; sempre foram dois institutos fascinantes sobre o ponto de vista sociológico e jurídico. Eles carregam em só o significado que a atitude menos humana de todas — a Guerra — ainda poderia ser regulada e trazer certos parâmetros que conferiam ao combate armado um certo verniz de civilidade. Isso até o surgimento da guerra total, atribuído por muitos à Adolph Hitler, especialmente na segunda guerra mundial, no qual não há mais limites para se vencer uma guerra, priorizando todos os gastos com os esforços de batalha, e os combatentes aos não combatentes. Esse era o significado de guerra total, pelo menos até agora.
A invasão da Ucrânia, sem entrar nos meandros geopolíticos, foi a primeira guerra transmitida em tempo real para o mundo todo. Google Maps mostrando tanques obstruindo vias na evacuação dos civis, Elon Musk atendendo a um pedido feito pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky via Twitter de ajuda com internet para os ucranianos, que filmaram em tempo real diversos atos dos soldados russos, que até por isso se controlaram em tais atos, comuns ao cenário de batalha. O grande irmão de Orwell não poderia estar mais orgulhoso.
Essa característica única desse confronto, em tempo real, provocou reações igualmente imediatas. As empresas multinacionais presentes na Rússia foram fechando as portas e dando adeus ao país beligerante: petroleiras, montadoras, eletroeletrônicos, fabricantes de aeronaves, administradoras de cartões, indústria alimentícia e tantas outras foram se inspirando umas nas outras e isolando comercialmente a maior nação do leste europeu. As linhas de crédito russas no cenário internacional foram cortadas e um banimento quase total aconteceu no sistema Swift. O Espaço Aéreo se fechou ao redor dos russos, ao menos do lado ocidental. O famoso grupo hacker Anonymous se mobilizou para lutar ciberneticamente ao lado dos ucranianos. As mídias sociais em uníssono limitaram as informações do governo russo. E até os serviços artísticos, por meio de streaming e salas de projeções, se recusaram a lançar novas produções no país continental, pelo menos até um cessar fogo. Times e atletas russos foram banidos de competições internacionais. E tudo isso enquanto fortunas e bens de oligarcas russos são apreendidos mundo afora. Isso para não falar do que mais parece uma piada, que é o banimento de vodca por bares americanos, que rebatizaram um famoso drink de Kiev Mule. Essa resposta, imediata e global, cria um cenário até então inédito no mundo: o cancelamento de uma nação.
A cultura do cancelamento, marca dessa nova década, é uma forma moderna de ostracismo, muito presente no ambiente virtual, no qual determinado indivíduo ou grupo de indivíduos são banidos ou "abandonados" por seguidores, patrocinadores e apoiadores por conta de manifestações ou outras ações julgadas moralmente questionáveis. O cancelamento não é novidade na história. Basta lembrar a infame letra escarlate. Contudo, até então nunca se tinha realizado um cancelamento de um país. Curiosamente o Brasil ensaiou tal movimento em 2001, deixando de tocar músicas canadenses e jogando fora produtos do país após uma disputa comercial prejudicial. E ainda pode ser citado o estranhamento com cidadãos e a própria nação da China por conta da pandemia que assola o mundo. Mas nunca se chegou a esse patamar.
Assim, em pouco mais de uma semana desde que a invasão armada começou, o mundo isolou a Rússia comercialmente, politicamente, desportivamente, financeiramente, ciberneticamente, virtualmente, diplomaticamente e artisticamente. Quase se pode dizer totalmente. E ainda que esta tenha seus apoiadores, declarados e ocultos, dificilmente Putin deve ter conseguido avaliar o custo da invasão em tantas esferas diferentes, com tantos campos de batalhas simultâneos, em uma nova definição de guerra total. E diante da inação das Nações Unidas, na qual a liberdade morre com um estrondoso aplauso em sessões de repúdio teórico, todo o resto da sociedade civil organizada parece adotar uma postura de efetivo confronto, cada um em sua esfera, com o cancelamento da Rússia e de Vladmir Putin, que passou a ocupar o cargo vago há quase um século de inimigo do mundo por iniciar uma invasão que, embora deva ser bem sucedida, também significa na perda da Guerra de uma forma muito mais brutal para seu país e seu povo.
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