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Andréia Alvarenga: Bansky e o debate sobre violência doméstica

Dia de São Valentim, em 14 de fevereiro, é o Dia dos Namorados na maioria dos países. No Brasil, como sabemos, a data comemorativa do amor cai no dia 12 de junho.

Embora o Valentine's Day seja para a celebração do amor como sentimento — no norte global, por exemplo, as crianças mandam cartões uma para as outras na escola, como sinal de amizade —, no Brasil a data se reporta apenas ao amor sexual de namorados e casados.

A data foi escolhida por Bansky para seu mais novo trabalho, denominado Máscara dos Namorados [1].

Se você não sabe quem é Banksy, não se sinta mal por isso, porque ninguém sabe quem ele (ou ela) é. O que sabemos é que é um artista plástico, supostamente de Bristol, Inglaterra, e suas obras de rua têm grande apelo popular, comercial e sociológico, de forma que se pode afirmar que Bansky é um artista do nosso tempo, e o exclusivo mercado de obras de arte reconhece isso, porque suas telas são vendidas por verdadeiras fortunas.

No mural Máscara dos Namorados, feito na cidade de Margate, Inglaterra, podemos ver no grafite uma jovem mulher, vestida à anos 1950, com vestido xadrez, avental e luvas amarelas, com um sorriso no rosto. Porém, sua face está machucada, com hematoma e olho inchado, e o sorriso deixa transparecer que perdeu um dente.

Reprodução/Instagram

O mural Máscara de São Valentim, do artista plástico Banksy
Reprodução/Instagram

O artista, aproveitando um freezer vertical abandonado no local, desenhou, na parede externa, no lado diametralmente oposto ao da jovem, os pés e parte inferior das pernas de um homem, para cima, em sapatos e calças formais (possivelmente de terno), de forma que o observador tem a impressão, em 3D, de que a jovem mulher está se livrando do seu agressor, colocando o corpo no freezer.

Malgrado alguma autoridade de baixo escalão da comunidade local tenha mandado retirar o freezer imediatamente, o artista já tinha postado a foto da obra completa em sua conta do Instagram. E pronto: a imagem ganhou o mundo no seu formato original.

Dentro da obviedade do tema, a primeira coisa que podemos observar é a crítica à data comercial do Dia dos Namorados, diante da condição feminina atual. Até que ponto a compra de um presente pode fazer desaparecer um convívio eivado de toxicidade? Até que ponto a imposição de uma "data perfeita para amar" torna a data psicologicamente opressora? Precisamos amar "outra pessoa" para sermos felizes? Precisamos tornar público o afeto? E essas reflexões valem tanto para homens quanto para mulheres. A imposição comercial de ser feliz naquele dia, de o homem ter que performar sexualmente naquela data, de a mulher estar sexualmente pronta naquela hora, tudo isso parece muito opressor a ambos os sexos. A magia é esmagada pela opressão. Não há romantismo que resista a uma imposição.

Fica ainda mais interessante no mural de Bansky o uso da estética dos anos 1950 nos personagens, com aspecto que remonta aos EUA dos Wasp (white, anglo-saxon, protestant, branco, anglo-saxão e protestante), da dona de casa perfeita e do marido provedor perfeito, justamente uma família dos anos dourados do capitalismo do pós-Segunda Guerra Mundial.

Essa família perfeita de "papai-mamãe-filhinhos" ainda permeia o imaginário de muita gente. Devemos nos perguntar se quem defende a família "tradicional" está, na verdade, defendendo um modelo de família norte-americana branca dos anos 1950. Hoje sabemos que as famílias não são mais dessa forma. O modelo de família monoparental, chefiada por mulheres, vem aumentando consideravelmente [2]. Mas essa nostalgia inautêntica, que nem é brasileira, traduz uma romantização de segmentos sociais conservadores, muito difundida nas redes sociais.

Noutro ponto, a suposta morte do agressor retratada na obra também suscita discussões. Evidente que uma obra de arte não tem o condão de fomentar a vingança de todas as mulheres espancadas contra seus agressores, quiçá um levante social das mulheres oprimidas. Esse pensamento é muito simplório diante da mensagem que a arte deseja passar. Na verdade, Máscara dos Namorados é um alerta e um lembrete.

Um alerta, porque a violência doméstica tornou-se uma epidemia. Só no Brasil, em 2021, foram 1.319 casos de feminicídio, o final trágico inevitável de uma via crúcis dentro da violência doméstica, ou seja, uma morte de mulher pelo fato de ser mulher a cada sete horas [3]. Os dados de 2022 não arrefeceram [4] e, ao que parece, no ano de 2023, a violência doméstica posta em números também será alarmante. Das notícias abjetas vistas nas redes sociais e na grande mídia, sabemos intuitivamente que a violência doméstica é um mal que deve ser combatido.

O mural de Bansky também é um lembrete, sobretudo para as novas gerações de mulheres, para que denunciem e não caiam na armadilha social de pensar que a mulher tem que achar um homem que a faça feliz para ser feliz. O correto é ensinar nossos filhos e filhas a serem felizes, e não a depender de uma outra pessoa como um cajado para a felicidade. Essa assimetria de gênero não permeia apenas a busca da felicidade, metaprincípio humano, mas se encontra arraigada em todas as relações sociais [5].

Como Angela Davis [6] nos lembra, não estamos livres da proliferação da discriminação sexista manifestada, atualmente, nos discursos de ódio na Internet, uma verdadeira propaganda sexista orquestrada que alimenta esse círculo vicioso de violência.

Mas a ativista alerta que a conscientização não ocorre automaticamente, mas com intervenções conscientes [7]. Ouso acrescentar que a conscientização é impossível sem educação. Educação para a liberdade, não para as amarras sociais.

No mesmo sentido, bell hooks chama nosso olhar para o fato de que pais e mães devem aprender a paternagem e a maternagem não violentas, enfatizando que "homens não são as únicas pessoas que aceitam, perdoam e perpetuam a violência, que criam essa cultura de violência" [8]. O trabalho de educar as novas gerações é, portanto, uma obrigação de todos nós, enquanto sociedade.

Afastar o homem, ou desqualificá-lo eticamente por ser um agressor em potencial, empobrece o debate tão necessário para que tenhamos políticas públicas de impacto social para minimizar a violência doméstica. Nesse sentido, a morte do agressor na obra de Bansky é a morte moral, a morte do homem dos anos passados, o que não deixa de ser um chamamento ao "novo homem", o homem dos anos 2020 em diante, pois, no dizer de Simone de Beauvoir [9], "a humanidade não é uma espécie animal: é uma realidade histórica", ao mesmo tempo em que a consciência que a mulher adquire de si mesma não é definida unicamente na sexualidade, devemos refletir a consciência do homem no seu papel, saindo de um pedestal protagônico para atuar ao lado da mulher no século XXI.

Da mesma forma, é inaceitável o discurso de ódio contra a mulher, mascarado de uma certa propriedade técnica que liga o feminismo ao nazismo, uma falácia sexista, além do argumento míope de agressividade das mulheres ou aquele que afirma que a mulher se conduz como ser humano imitando o homem.

De tudo, o que podemos afirmar, por ora, é que a obra de Bansky atingiu seu objetivo: nós já começamos a debater sobre violência doméstica.

 


[3] Qual o ranking do Brasil em relação ao feminicídio? O Brasil é o 5º no ranking mundial de feminicídios. Em 2021, foram 1.319 casos, uma morte a cada sete horas. No universo geral de homicídios de mulheres, 66% das vítimas são negras. Fonte: www.brasildefato.org

[5] DAVIS, Angela. Mulheres, Cultura e Política. São Paulo: Boitempo, 2017.

[6] Op. cit.

[7] DAVIS, Angela. A Liberdade É Uma Luta Constante. São Paulo: Boitempo, 2018.

[8] HOOKS, bell. O Feminismo É Para Todo Mundo – Políticas Arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos. 3ed., 2019.

[9] BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 5ed., 2019.

Andréia Alvarenga de Moura Meneses

é mestranda em Direito e Políticas Públicas na UniRio e servidora pública federal.

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