
A transformação de indivíduos aparentemente pacíficos em agentes de desordem coletiva é um fenômeno que desafia a compreensão da natureza humana. Este artigo propõe uma analogia entre o curta-metragem de 1950 Motor Mania, da Disney — no qual o Pateta alterna entre a personalidade cordial de “Sr. Walker” e a agressividade de “Sr. Wheeler” ao dirigir seu veículo automotor — e os eventos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, quando cidadãos comuns, muitos deles rotulados (e até porque são mesmo!) como “homens e mulheres de família e patriotas”, invadiram e vandalizaram as instituições públicas, como o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.
Com efeito, a partir da obra Psicologia das Massas, de Gustave Le Bon, exploramos como a dinâmica coletiva pode corroer a individualidade moral e desencadear ações irracionais.
Pateta e a dualidade do ‘bom cidadão’
No aludido desenho animado, o personagem Pateta é retratado como um cidadão gentil e educado (“Sr. Walker”) até entrar em um carro. Ao volante, transforma-se em “Sr. Wheeler”, tornando-se egoísta, impulsivo e violento. O veículo automotor, nesse contexto, simboliza um espaço de anonimato e despersonalização, onde as normas sociais são completamente abandonadas. A estrada funciona como um microcosmo da multidão: o indivíduo dissolve-se na massa, e seus atos são guiados por impulsos primários; não pela razão.
Gustave Le Bon e a alma coletiva
Em Psicologia das Massas, de 1895, Le Bon argumenta que, ao integrar uma multidão, o indivíduo perde sua identidade crítica e é dominado por um “inconsciente coletivo”. A massa é emocional, sugestionável e propensa a ações extremas, pois a responsabilidade individual se dilui. Além disso, ela é facilmente manipulada por líderes ou narrativas que alimentam sentimentos de injustiça ou revolta. Para autor, mesmo pessoas “de bem” podem adotar comportamentos criminosos quando imersas nesse contexto.
8 de Janeiro
No indizível episódio de Brasília, milhares de manifestantes — muitos deles pais, mães e trabalhadores e devotos à família — invadiram e depredaram o Congresso, o Palácio do Planalto e o STF. Apesar de se autointitularem “patriotas”, seus atos incluíram vandalismo, depredação e confrontos violentíssimos com a polícia. Não sendo, portanto, como bem disse o ministro Alexandre de Moraes, a quando o recebimento da denúncia em face do Núcleo 1 da Pet 12.100/DF: um domingo no parque.
De fato, como explicar que pessoas que, em outras circunstâncias, sozinhas, condenariam a ilegalidade, tenham participado de tais ações? A resposta está na psicologia das massas descrita por Le Bon. Diz ele:
“Várias causas determinam o aparecimento de características especiais nas massas. A primeira é que o indivíduo numa massa adquire, apenas pelo fator número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, certamente refrearia. Quanto mais anónima for a massa, e consequentemente irresponsável, maior será a cedência voluntária doo sentimento de responsabilidade, que sempre acaba por travar os indivíduos, e que aqui desaparece completamente.
Uma segunda causa, o contágio mental, também intervém nas massas e, ao mesmo tempo, a sua orientação. O contágio é um fenômeno fácil de constatar, mas que ainda não explicado e que é preciso ligar aos fenómenos de ordem hipnótica que também iremos abordar. Numa massa, todos os sentimentos, todos os actos são contagiosos, a ponto de levar o indivíduo a sacrificar muito facilmente o interesse pessoal ao interesse colectivo. Esta é uma atitude contrária à sua natureza, que o homem não é capaz de tomar a não ser quando faz parte de uma massa.
Uma terceira causa, e de longe a mais importante, determina as características especiais dos indivíduos numa massa, por vezes claramente opostas às do indivíduo isolado. Falo da sugestibilidade, da qual o contágio mencionado anteriormente não constitui senão um efeito” [1].
Analogia: do volante às ruas de Brasília

Assim como o carro transforma o “Sr. Walker” em “Sr. Wheeler”, a multidão em Brasília no fatídico dia 08 de janeiro de 2023 converteu cidadãos comuns em atores de caos. Em ambos os casos, há:
1. A despersonalização: O indivíduo deixa de ser “ele mesmo” e adota uma identidade grupal (seja à do “motorista agressivo”, caso do “Sr. Wheeler”, ou do “manifestante revolucionário e patriota”, caso do 8 de Janeiro).
2. Redução da autocrítica: A racionalidade é substituída por lemas simplistas (“o trânsito é uma guerra” ou “o sistema é corrupto”, “intervenção militar democrática já”, “fora FGTS” e etc.).
3. Violência como catarse: A destruição de símbolos (seja buzinar freneticamente ou quebrar mobília pública, arrastar cadeiras para o meio da praça dos Três Poderes, defecar na mesa do ministro Alexandre de Moraes e etc.) torna-se uma válvula de escape para frustrações acumuladas.
O indivíduo, portanto, que faz parte de uma massa, já não tem consciência dos seus atos, já não é ele próprio, mas sim um autômato, cuja vontade se tornou incapaz de guiar. No ponto, Le Bon explica que,
“Só pelo facto de fazer parte de uma massa, o homem desce vários degraus na escala da civilização. Isolado é talvez um indivíduo culto, inserido numa massa é um instintivo, consequentemente um bárbaro. Tem a espontaneidade, a violência, a ferocidade e também os entusiasmos e os heroísmos dos seres primitivos. Ainda se aproxima mais deles pela facilidade com que se deixa impressionar por palavras e imagens e se deixa conduzir a actos que lesam os seus interesses mais evidentes. O indivíduo numa massa é um grão de areia no meio de outros grãos de areia que o vento ergue a seu bel-prazer.
(…) a massa é sempre intectualmente inferior ao homem isolado” [2].
Como evitar, portanto, que o ‘Sr. Walker’ vire o ‘Sr. Wheeler’?
Os trágicos eventos de Brasília e a metáfora do Pateta revelam uma lição tão necessária quanto incômoda: A civilidade é fragílima. Le Bon já alertava que a era das massas seria marcada por volatilidade e irracionalidade. Para evitar que crises semelhantes se repitam, é essencial que se:
1) fortaleça a educação crítica, pois indivíduos capazes de analisar discursos demagógicos são menos vulneráveis ao contágio emocional;
2) promova o diálogo com as massas sociais, já que espaços para debate reduzem a polarização que alimenta histerias coletivas;
3) haja responsabilização individual, como — a tempo e modo — está fazendo o Supremo Tribunal Federal ao julgar a Pet 12.100/DF, notada e especialmente porque devemos lembrar que, mesmo em multidões, cada um é responsável por seus próprios atos, inclusive a cabeleireira Débora, mãe e esposa exemplar, que pichou com baton a estátua da Justiça, embora este articulista não concorde com a altíssima pena imposta a ela.
O desafio, tanto nas estradas quanto nas praças públicas, é reconhecer que a linha entre o cidadão exemplar e o agente do caos é tênue. Como o Pateta, todos carregamos um “Sr. Wheeler” potencial — mas cabe a nós decidir se entregamos a ele o volante ou não.
[1] LE BON, Gustave. Psicologia das Massas. 1ª ed. maio de 2005. Tradução: Rosário Morais da Silva. Editora: Ésquilo, p. 45.
[2] LE BON, Gustave. Psicologia das Massas. 1ª ed. maio de 2005. Tradução: Rosário Morais da Silva. Editora: Ésquilo, p. 46/47.
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