As redes sociais transformaram-se em importante espaço de controle social sobre os representantes eleitos. Quanto maior o número de pessoas (apoiadores ou detratores) que um mandatário alcança por meio de sua comunicação digital, mais intensa tende a ser a participação popular na formulação e fiscalização de suas políticas públicas.

Os apoiadores reagem positivamente, reforçando determinada mensagem política; os críticos, por sua vez, a contestam e reinterpretam, ampliando o alcance da discussão para além da “bolha” em que o representante está inserido. Em ambos os casos, a publicidade das ações cumpre importante função democrática: permitir o controle social dos atos e das propostas de quem exerce mandato eletivo.
Assim, quanto mais transparente e comunicativo é o agente público nas redes, maior o escrutínio público sobre sua atuação. Esse fenômeno se acentua no contexto das comissões parlamentares de inquérito (CPIs), transformadas em verdadeiros palcos digitais de exibição política.
Como noticiou o Estadão, a CPMI do INSS “virou palco para ‘cortes’ de internet e estratégia eleitoral para 2026”. Segundo a reportagem, deputados e senadores têm calibrado discursos inflamados, gestos performáticos e encenações planejadas para gerar trechos curtos e impactantes — o que também chamo aqui de CPIs: “Cortes para Instagram” — destinados às suas redes sociais.
A atuação performática nos trabalhos legislativos, no entanto, não se limita à esfera federal. Na Câmara Municipal de São Paulo, a CPI dos Pancadões tornou-se um caso emblemático desse tipo de engajamento político-midiático.
O vereador presidente da Comissão, Rubinho Nunes, é frequentemente acusado de provocar os depoentes (funkeiros, MCs, influenciadores e pesquisadores da cultura periférica) com perguntas retóricas para gerar conteúdo para suas redes. Curiosamente, a crítica se dissolve na prática: seus opositores e até os próprios depoentes recorrem ao mesmo expediente, publicando seus próprios cortes das sessões.
A vereadora Luna Zarattini (PT) e depoentes como Chavoso da USP, Salvador da Rima e Thiagson também reproduzem trechos de suas performances na CPI dos Pancadões, alcançando audiência massiva. Os cortes gerados apenas por esses personagens superam a marca de 100 milhões de visualizações.

Em um caso emblemático, um corte editado e publicado por Chavoso da USP em seu perfil do Instagram atingiu mais de 10 milhões de visualizações, alcançando, portanto, público maior que o colégio eleitoral da cidade de São Paulo – composto por 9,3 milhões de eleitores. O resultado é um ciclo de visibilidade mútua que transcende o plenário e projeta o debate legislativo para a arena digital em larga escala.
A eventual espetacularização dos trabalhos legislativos não representa, por si só, uma distorção midiática do papel fiscalizador do Parlamento. Ao contrário, a ampla repercussão alcançada pode ser compreendida como expressão contemporânea da própria lógica representativa. Se o poder emana do povo e é por ele exercido por meio de representantes eleitos, é natural que esses representantes busquem preservar uma conexão comunicativa e simbólica com aqueles que os legitimam.
Ao abrir-se ao olhar público — ainda que virtual —, o Legislativo reafirma a essência da representação: o poder que se mostra é o poder que se submete. As redes sociais, nesse contexto, cumprem papel análogo ao das antigas ágoras: são o espaço em que o mandatário se apresenta, explica, justifica e performa suas ações à vista do público.
A ampla exposição dos atos parlamentares em tempo real, mesmo quando guiada por estratégias de visibilidade ou disputa narrativa, amplia o controle social sobre o exercício dos mandatos. É nesse cruzamento entre representação política e comunicação digital que se delineia uma nova forma de accountability democrática, mediada não apenas pelos meios tradicionais de imprensa ou pelos órgãos de controle, mas também pela audiência conectada.
Robert Dahl, ao formular o conceito de poliarquia, destacou que uma das garantias institucionais indispensáveis à democracia é a existência de fontes alternativas de informação, canais plurais e independentes que permitam à população formar juízos próprios sobre a atuação de seus representantes.
Exposição e escrutínio
A multiplicação dos cortes de CPIs, longe de ser apenas um fenômeno de autopromoção parlamentar, pode ser lida como a materialização contemporânea da pluralidade informacional descrita por Dahl. Uma arena em que diferentes narrativas competem pela atenção pública e pela legitimidade política, fazendo da própria visibilidade um mecanismo de responsabilização democrática.
O fortalecimento desse controle social sobre os mandatários encontra respaldo empírico em recentes levantamentos. O Correio Braziliense revelou que, segundo estudo da PUC-Rio, em 74% dos estados brasileiros há correlação direta entre o desempenho digital dos candidatos (medido por engajamento e alcance nas redes sociais) e o número de votos obtidos nas últimas eleições para deputado federal.
O relatório indica, ainda, que o Instagram se consolidou como principal plataforma eleitoral do país e que a tendência para 2026 é de profissionalização do uso de anúncios digitais, com maior integração entre investimento, estratégia e performance comunicacional. Para parlamentares engajados em CPIs — comissões parlamentares de inquérito e/ou “Cortes para Instagram” —, a lógica das redes adquire significado eleitoral estratégico.
Diferente de comprometer a necessária seriedade do Parlamento, a exposição digital impõe uma nova camada de responsabilidade democrática, na qual a accountability não é apenas institucional, mas também comunicacional. A transparência que antes se limitava às atas de sessão, notas taquigráficas e diários oficiais agora se estende à arena pública das redes sociais, consolidando a função fiscalizadora do cidadão como parte ativa da democracia representativa.
O conteúdo legislativo, ainda que recortado, agora alcança milhões de usuários-eleitores que reagem e participam ativamente da fiscalização das ações de seus representantes. A comunicação pública, assim, cumpre sua função essencial de permitir à cidadania acompanhar, avaliar e influenciar o processo político, ampliando a transparência e a legitimidade dos atos parlamentares. Da mesma forma, a disposição crescente dos parlamentares em expor seus atos e propostas nas redes sociais materializa o princípio da publicidade que deve reger toda a administração pública.
Como observa o professor Victor Marcel Pinheiro (em sua obra Devido Processo Legislativo, Editora GZ, 2024, pp. 144 e 154), a publicidade é elemento estruturante da representação política. Ainda que a Constituição não estabeleça regra geral sobre o tema, o Supremo Tribunal Federal reconhece nela um princípio basilar da atividade legislativa, justamente por possibilitar o controle e a fiscalização dos cidadãos sobre seus representantes. Segundo o autor, “a representação como atividade política exige que os representados tenham informações suficientes para poder constantemente renovar esse vínculo e participar da construção coletiva do debate sobre assuntos políticos. Há aqui uma relação umbilical entre publicidade e participação social”.
Assim, quanto maior a exposição dos mandatários e de suas iniciativas, mais rigoroso se torna o escrutínio público que os acompanha. Segundos de fala podem se transformar em milhões de olhares, e cada gesto capturado converte-se em elemento de instantânea fiscalização cidadã.
A espetacularização da atuação parlamentar, ainda que fragmentada em cortes, não enfraquece o controle social: ao contrário, o multiplica. Em uma democracia conectada, nenhum segundo passa despercebido. Todo controle vale a pena quando o Parlamento não é pequeno.
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