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Opinião

Nos EUA, despesa com pet pode ser abatida do imposto de renda?

Diferentes sistemas jurídicos

Reprodução

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Antes de mergulharmos no tratamento tributário dos pets americanos, é essencial compreender a distinção fundamental entre o Direito Civil Brasileiro e o Common Law Anglo-Saxão adotado pelos Estados Unidos. Enquanto o Brasil opera sob um sistema codificado, onde leis escritas são a principal fonte do direito, o sistema americano se baseia fortemente em precedentes judiciais.

Isso significa que, nos EUA, decisões de tribunais, especialmente do Tax Court, moldam a aplicação prática das normas fiscais tanto quanto o próprio Código Tributário Americano — Internal Revenue Code (IRC). Por isso, a análise de case law não é mero enriquecimento acadêmico: é a ferramenta essencial para compreender como o IRS (Receita Federal Americana) interpreta e aplica a lei e os regulamentos na vida real, pois case law também é lei.

Status tributário dos pets

A cada dia o mundo tem mais pets, por isso a questão é economicamente relevante. Nos Estados Unidos a discussão fiscal é pragmática e restritiva: na vasta maioria dos casos, despesas com animais de estimação são despesas pessoais não dedutíveis. ¹

O Internal Revenue Service (IRS) não reconhece animais como dependentes. A dedutibilidade só é permitida quando o animal assume um papel funcional que se enquadra em categorias específicas dos precedentes e do Código Tributário Americano, o IRC. ² E aqui está o primeiro obstáculo: essas deduções exigem compreensão de três conceitos chave do sistema tributário americano.

1. Contexto fiscal: AGI e a escolha do tipo de declaração

O Imposto de Renda Federal americano começa com o Adjusted Gross Income (AGI), que é a renda tributável/base de cálculo ajustada do IR, ou seja, a renda bruta total menos certas deduções permitidas pela case law e pela legislação. ³ O AGI funciona como um índice de elegibilidade para várias deduções; não há um paralelo direto na legislação brasileira, então uma breve explicação se faz necessária.

De forma simples o AGI pega toda a renda bruta (salários, juros, ganhos de capital etc.) e subtrai deduções específicas chamadas de “acima da linha” numa tradução literal, como contribuições para planos de aposentadoria, juros de empréstimos estudantis ou despesas de saúde para autônomos, chegando então a uma renda ajustada, AGI. O AGI será a renda a ser declarada, como fazemos no Brasil, aí então, com o AGI em mãos, o contribuinte optará pela declaração completa ou simples do IR.

Spacca

Spacca

No Brasil, o Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) é mais direto e não tem um conceito exatamente igual ao AGI: a base de cálculo é formada pelos rendimentos tributáveis (como salários, aluguéis, pró-labore etc.), menos as deduções permitidas diretamente, como contribuições ao INSS, valor fixo por dependentes, pensão alimentícia, despesas médicas (sem limite) e educação (com limite por pessoa), no modelo completo. No modelo simplificado, aplica-se um desconto padrão sobre esses rendimentos, sem precisar comprovar despesas. Assim, a principal diferença é que o sistema brasileiro vai direto à base sobre a qual incide a tabela progressiva do imposto, sem aquele “filtro” intermediário do AGI.

Aspecto Estados Unidos (AGI) Brasil (Base de Cálculo do IRPF)
Conceito Valor intermediário: renda bruta menos deduções permitidas para se chegar ao AGI. Sem valor intermediário: BC vem direto dos rendimentos tributáveis menos deduções.
Deduções iniciais Chamadas de Above-the-line (IRA, HSA, juros estudantis etc.). INSS, dependentes, pensão, despesas de saúde, educação (limitada) etc.
Modelo de dedução Standard deduction (declaração simples) ou itemized (declaração completa). Completo (despesas reais) ou Simplificado (desconto padrão 20%).
Passo seguinte Do AGI subtrai standard/itemized deduction para se chegar a renda tributável. Aplicação da tabela progressiva diretamente na base de cálculo.

 

Depois, o contribuinte escolhe entre:

1 Dedução padrão (Standard deduction): Valor fixo (US$ 29,2 mil para casados declarando conjuntamente em 2024 e US$ 31,5 mil em 2025) usado pela maioria dos americanos por simplicidade. No Brasil é a declaração simples de IR.
2 Deduções pormenorizadas (Itemized deductions): O contribuinte lista despesas específicas (médicas, caridade, impostos estaduais). Só vale a pena se a soma exceder a Dedução Padrão da declaração simplificada. No Brasil é a declaração completa de IR.

A relevância disso para donos de pets é direta: a maioria das deduções relacionadas a animais exige declaração completa, tornando-as inacessíveis para o contribuinte que optar pela declaração simplificada de IR. A dedução de praticamente US$ 30 mil na declaração simplificada de um casal (metade para solteiros) é um limite alto, mesmo para os padrões americanos, tanto é que aproximadamente 90% dos americanos fazem a declaração simples de IR.

2. Três exceções para dedução de despesas com pets

A. Animais de serviço (Schedule A – dedução médica)

Se o animal for um Animal de Serviço Certificado, devidamente treinado para auxiliar uma pessoa com deficiência, as despesas relacionadas podem ser deduzidas como despesa médica na declaração completa. O IRS equipara o animal a equipamento médico necessário.

Despesas qualificadas incluem aquisição, treinamento, alimentação, cuidados gerais e veterinário. Mas há uma trava: o total das despesas médicas (incluindo o animal) deve exceder 7,5% do AGI para que o excedente seja dedutível, ou seja, todo o gasto até 7,5% do AGI não é dedutível, só é dedutível o que superar esse montante. Abaixo um quadro para melhor ilustrar:

Cenário: Pessoa Solteira (Single Filer) – Ano Fiscal 2025 Valor (US$)
Adjusted Gross Income (AGI) 100 mil
Standard Deduction (padrão para solteiro) 15,7 mil
Itemized Deductions (detalhadas):
– Impostos estaduais e locais (SALT – limitado a $10 mil) 8 mil
– Juros de hipoteca 3 mil
– Doações para caridade 2 mil
– Despesas médicas qualificadas (total $6 mil)  Limite: 7,5% do AGI = $7,5 mil
Parte dedutível: $6 mil − $7,5 mil = $0
0
Total Itemized Deductions 13 mil
Conclusão – Não faz sentido a declaração completa, pois o valor a abater do AGI seria zero. Total itemized ($13 mil) < Standard ($15,7 mil)

 

Exemplos práticos de animais de serviço

Os casos mais comuns envolvem cães-guia para pessoas com deficiência visual, cães de alerta para diabéticos (treinados para detectar hipoglicemia), cães de mobilidade para cadeirantes, e cães de alerta para epilepsia. Cada um desses animais passa por treinamento especializado de 18 a 24 meses, custando entre US$ 15 mil e US$ 50 mil.

Um exemplo concreto: uma pessoa com diabetes tipo 1 que adquire um cão de alerta, devidamente certificado, pelo valor de US$ 25 mil, com custos anuais de manutenção de US$ 3 mil. Se o AGI do contribuinte for US$ 100 mil, o limiar de 7,5% explicado acima é US$ 7,5 mil. Supondo que o contribuinte tenha US$ 5 mil em outras despesas médicas, o total seria US$ 33 mil no primeiro ano (US$ 28 mil de aquisição + US$ 5 mil outras). O valor dedutível seria US$ 25,5 mil (US$ 33 mil – US$ 7,5 mil).

Distinção crítica: Service Animal vs. ESA

É fundamental diferenciar Animais de Serviço de Emotional Support Animals (ESAs). ESAs não têm direito à dedução fiscal porque não são treinados para executar tarefas específicas relacionadas a uma deficiência, eles apenas proporcionam conforto emocional. O IRS é inflexível nessa distinção.

Jurisprudência é cristalina

Em Lair v. Commissioner (1983), o Tax Court confirmou a dedutibilidade de despesas com cães-guia (alimentação e cuidados médicos), mas apenas porque o contribuinte era legalmente cego. O caso estabeleceu que a dedução está ligada à necessidade médica comprovada, não ao conforto emocional. O cão é um ‘artigo’ de auxílio médico, não um pet.

O contraste aparece em Espinoza v. Commissioner (1995). O contribuinte tentou deduzir despesas com cães adquiridos para ‘proteção e dissuasão’ após sofrer um ataque. O tribunal negou: os cães não tinham treinamento individual para mitigar deficiência física ou mental específica. A mensagem: dedução exige função de serviço documentada, não segurança geral ou apoio emocional.

B. Animais de trabalho (Schedule C – Despesa de negócios)

Quando o animal desempenha função ordinária e necessária para o negócio, suas despesas podem ser deduzidas no Schedule C como custo operacional.O teste é rigoroso: o IRS exige prova de que o animal não é primariamente um pet, mas um ativo comercial.

Exemplos de negócios que qualificam

A gama de situações é mais ampla do que muitos imaginam:

1 Agricultura e pecuária: Cães pastores em fazendas de ovelhas, cães de caça para controle de javalis em propriedades rurais, e gatos para controle de roedores em celeiros. Estes são os casos mais claros de dedutibilidade.
2 Segurança comercial: Cães de guarda treinados para proteção de depósitos, ferros-velhos, e instalações industriais. A chave é o treinamento formal e a documentação do uso exclusivamente comercial.
3 Entretenimento e mídia: Animais atores em produções cinematográficas, modelos para campanhas publicitárias, animais de performance em circos. Aqui, o animal literalmente gera a receita.
4 Serviços profissionais: Cães de terapia certificados usados por terapeutas licenciados em sessões de tratamento (animal-assisted therapy), cavalos de equoterapia, até mesmo cães de apoio em ambientes corporativos sob programas formais de bem-estar.
5 Criação e competição: Criadores profissionais de raças específicas que documentam intenção de lucro consistente, treinadores profissionais que preparam animais para competições remuneradas.

Um exemplo numérico: um fotógrafo profissional de pets que usa seus próprios três cães como modelos em 40% de suas sessões comerciais pode deduzir 40% das despesas desses animais. Mas precisa de documentação meticulosa: contratos, faturas, registros fotográficos, e planilhas de rateio.

Rateio entre uso comercial e pessoal

Balkus v. Commissioner (1984) estabeleceu o princípio: mesmo que o cão proteja a propriedade comercial, o contribuinte deve ratear a despesa. ¹⁰ O tribunal permitiu dedução proporcional ao tempo de guarda do negócio, mas excluiu custos atribuíveis ao convívio familiar. O ônus da prova do uso comercial primário é sempre do contribuinte.

Em Putman v. Commissioner (1975), a linha foi reforçada. ¹¹ Um casal tentou deduzir despesas alegando que o cão guardava imóvel alugado. O tribunal negou: o animal não tinha treinamento específico e a razão principal era companheirismo. Quando o benefício pessoal se sobrepõe à necessidade comercial, não há dedução.

Armadilha do hobby

Kammerer v. Commissioner (1984) mostra outra cilada. ¹² O contribuinte criava cães de competição com perdas consistentes. O tribunal classificou como hobby sob a hobby loss rule, negando deduções. Sem expectativa razoável de lucro, não há negócio, apenas paixão pessoal disfarçada.

O IRS aplica um teste de nove fatores para distinguir hobby de negócio: (1) maneira profissional de condução, (2) expertise do contribuinte, (3) tempo e esforço dedicados, (4) expectativa de valorização de ativos, (5) histórico de lucros, (6) histórico de lucros ou perdas, (7) lucros ocasionais, (8) situação financeira do contribuinte, e (9) elemento de prazer pessoal. A presença de lucro em 3 dos últimos 5 anos cria uma presunção de atividade comercial.

Quando funciona?

Vest v. Commissioner (1981) mostra o contrário. ¹³ O proprietário de ferro-velho deduziu despesas com gatos para controle de pragas. O tribunal aceitou porque provou que os animais eram ordinary and necessary para a operação. A lição: a natureza da despesa importa mais que o tipo de animal.

C. Pets em adoção temporária (Schedule A – Contribuição de caridade)

Se o contribuinte oferece lar temporário (foster) a um pet para uma organização sem fins lucrativos, chamada no EUA de 501(c)(3) Non-Profit, os custos não reembolsados podem ser deduzidos como contribuição de caridade na declaração completa. ¹⁴

Como funciona na prática?

Este é o caminho mais acessível para dedução, mas exige disciplina na documentação. O tutor temporário deve:

1 Manter registros detalhados: Recibos de alimentação, suprimentos (camas, coleiras, tigelas), contas veterinárias, medicamentos, e até mesmo fotos datadas do animal em sua casa.
2 Documentar a quilometragem: Viagens para o veterinário, para a organização de resgate, para eventos de adoção. A taxa de caridade do IRS para 2024 é de 14 centavos por milha.
3 Obter carta da organização: A non-profit deve confirmar por escrito que o contribuinte atuou como tutor temporário, incluindo as datas e o nome do animal.

Exemplo real de dedução

Um tutor temporário cuida de um cão resgatado por 6 meses antes da adoção final. Custos não reembolsados:

Alimentação: US$ 300
Suprimentos (cama, brinquedos, coleira): US$ 150
Veterinário (vacinas, castração): US$ 400
Quilometragem (500 milhas × US$ 0,14): US$ 70

Total dedutível: US$ 920 (reportado no Schedule A sob contribuições de caridade).

O que não é dedutível?

O valor do tempo dedicado ao animal não pode ser deduzido. Se o tutor gasta 10 horas por semana cuidando do pet, esse ‘serviço voluntário’ não tem valor fiscal. Apenas despesas out-of-pocket qualificam.

Além disso, se a organização reembolsar qualquer custo, esse valor deve ser subtraído da dedução. Se a nonprofit paga US$ 200 pelos custos veterinários no exemplo acima, a dedução cai para US$ 720. ¹⁵

3. Conclusão: o mapa fiscal

Tipo de Animal Categoria Schedule Restrição-Chave
Pet Pessoal Nenhuma N/A Despesa pessoal
Animal de Serviço Despesa Médica Schedule A Declaração completa e exceder 7,5% do AGI
Animal de Trabalho Despesa Empresarial Schedule C Ordinária e necessária para o negócio
Pet em Foster Caridade Schedule A Para non-profit 501(c)(3) qualificada

 

A dedução de despesas com animais nos EUA é exceção regida por regras estritas e documentação rigorosa, refletindo a visão do IRS de que o animal deve ter finalidade funcional, não afetiva, para impactar a obrigação fiscal do contribuinte.

 


Notas de Rodapé

  1. IRS Publication 17, Your Federal Income Tax (For Individuals).
  2. Seções § 213 (Médica), § 162 (Negócios) e § 170 (Caridade) do Internal Revenue Code (IRC).
  3. IRS Publication 502, Medical and Dental Expenses.
  4. Idem.
  5. Idem. O animal deve ser treinado individualmente para benefício de indivíduo com deficiência, excluindo ESAs.
  6. 26 U.S.C. § 213(a). Taxa de 7,5% aplicável em 2024.
  7. Lair v. Commissioner, T.C. Memo. 1983-302.
  8. Espinoza v. Commissioner, T.C. Memo. 1995-231.
  9. 26 U.S.C. § 162(a). Despesas ‘ordinárias e necessárias’ para comércio ou negócio.
  10. Balkus v. Commissioner, T.C. Memo. 1984-377.
  11. Putman v. Commissioner, T.C. Memo. 1975-257.
  12. Kammerer v. Commissioner, T.C. Memo. 1984-123.
  13. Vest v. Commissioner, T.C. Memo. 1981-64.
  14. IRS Publication 526, Charitable Contributions.
  15. Idem. Dedução limitada a despesas out-of-pocket não compensadas, exige declaração completa no Schedule A.

André Pinelli

é advogado empresarial do escritório Pinelli Partners PLLC, nos Estados Unidos, pós-graduado em Direito de Empresa pela PUC-MG e com LLM na Duke University School of Law.

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