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Embargos Culturais

Sobre uma teoria desconstrutiva do destino em José Saramago

Em Cadernos de Lanzarote II, espécie de diário de José Saramago, há um excerto que sugere uma teoria do destino no pensamento desse ilustre autor português. A entrada é datada de 12 de fevereiro de 1994. O excerto suscita reflexão desconstrutiva sobre o modo tradicional como compreendemos o destino, inimigo implacável do livre-arbítrio. Tem-se a impressão de que, para o laureado autor português, o destino não se revela como um percurso linear, previsível, traçado de antemão.

Spacca

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Em Saramago, o destino parece um conjunto de hesitações, desvios e incertezas: randomicamente molda nossas histórias. Saramago exemplificou seu raciocínio com a trajetória do poeta francês Artur Rimbaud (1854-1891). Sigo a mesma linha, porém com poeta nosso, ainda que nascido em Portugal: Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). 

Uma das críticas que Saramago fez ao senso comum do entendimento de destino é nosso hábito de explicarmos os acontecimentos a partir de miragem retrospectiva. Buscamos uma narrativa linear que conecte os pontos da vida como se todos os eventos se direcionassem inevitavelmente para resultado predeterminado. Um grande engano, na percepção de Saramago. Simplificamos a realidade, que é incerta, complexa, inexplicável. Ignoramos desvios, dúvidas, incertezas. 

Consideremos Tomás Antônio Gonzaga. Poeta consagrado no Brasil e figura central da Inconfidência Mineira, Gonzaga foi preso e degredado para a África, morreu em Moçambique. Retrospectivamente, pode-se traçar uma linha reta de sua vida de poeta a seu envolvimento na revolta, sua prisão, e finalmente sua vida como comerciante enriquecido pelo tráfico de escravos. 

No entanto, essa interpretação linear esconde a complexidade de uma trajetória conturbada. Sua metamorfose de poeta romântico em negociante de escravos não seguiu uma lógica predeterminada. Resultou de contingências históricas e pessoais, reforçando a tese de Saramago de que o destino “não conhece a linha reta”.

O destino é indeciso e vacilante. Demora para decidir. Saramago ilustra essa fluidez e instabilidade com a vida de Arthur Rimbaud, ainda que não mencione o escândalo que à época foi a relação de Rimbaud com Paul Verlaine (1844-1896). O poeta francês, após brilhante (e breve) carreira literária em Paris, abandonou a França e tornou-se um próspero traficante de armas e marfim na África. 

De acordo com o escritor português, a trajetória de Rimbaud não pode ser compreendida como uma flecha disparada em direção a um alvo fixo. Sua transformação de poeta em comerciante foi marcada por incertezas e mudanças abruptas. O destino, intui-se em Saramago, não é uma força unidirecional.

No caso de Gonzaga, a mesma lógica pode ser aplicada. Sua vida, de início voltada à literatura e ao romantismo revolucionário, altera-se drasticamente após sua prisão e exílio. Assim como Rimbaud, Gonzaga viveu mudança radical de função e de lugar no mundo. Sua riqueza e sucesso como comerciante na África decorreram de circunstâncias imprevisíveis e, de certo modo, acidentais. 

Ao analisarmos essas vidas sob o prisma da teoria do destino de Saramago, percebemos que não há lógica ou predeterminação; pelo contrário, são pautadas por incertezas e oportunidades inesperadas que desafiam a concepção convencional de destino. 

Há uma inerente contradição na concepção de alvo fixo. Saramago critica a noção de que o destino se assemelha a uma flecha apontada para um fim pré-determinado. Argumentou que o destino, longe de ser um caminho pré-traçado em direção a um objetivo, é incerto e moldado por múltiplas forças em constante transformação. 

A crítica pode ser ilustrada pela vida de Gonzaga, que, como mencionado, não seguiu um caminho previsível ou contínuo. O poeta, que supostamente sonhava com a liberdade no Brasil, tornou-se comerciante de escravos na África; um desfecho inesperado e, à primeira vista, contraditório com sua fase anterior.

O mesmo dilema se aplica à trajetória de Rimbaud. Após explosão criativa em Paris, Rimbaud frustrou a expectativa dos que apostavam na continuidade de sua poesia perturbadora. No entanto, o “alvo” de seu destino se moveu. Como? 

Rimbaud se reinventou: o poeta tornou-se um comerciante. O destino, assim, mantida essa lógica, não é estativo, à espera da flecha chamada história. A flecha acompanha as mudanças pelas quais passamos. 

Assim, parece-me, a teoria do destino implícita na reflexão de Saramago desafia a compreensão tradicional e linear da vida humana. O destino é errático, cheio de dúvidas e desvios. Não segue linha reta rumo a um resultado fixo e conhecido. 

As vidas de Tomás Antônio Gonzaga e de Arthur Rimbaud exemplificam essa concepção: transformações radicais, impulsionadas por circunstâncias imprevisíveis e contingências inesperadas, mostram que o destino não é algo previamente fixado. É uma construção dinâmica e fluida. 

Refletindo sobre o destino, Saramago sugere que abandonemos a ideia de um alvo fixo e reconheçamos a incerteza e a complexidade que caracterizam nossas trajetórias. Nesse sentido, parece-me, Saramago refletia sobre a própria vida, o menino da aldeia de Azinhaga que se tornou escritor emblemático de nossa língua.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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