“Pode-se dizer ainda algo de novo sobre Kafka?”. É com essa pergunta irrespondível que Michael Löwy (pensador brasileiro radicado na França) inicia um dos mais instigantes estudos sobre Franz Kafka, O sonhador insubmisso. Ceio que não há nada novo que possa ser escrito sobre Kafka ao mesmo tempo em que penso que há muita coisa a se dizer sobre o leitor de Kafka. É essa impressão, em forma de postulado, que me anima a escrever sobre O Veredicto, um intrigante pequeno texto que insiste em um tema fundamental nas obras de Kafka: o conflito do filho com seu pai.

Em O Veredicto lemos a estória de um jovem comerciante (Georg Bendemann) que toca o comércio do pai. Kafka menciona um misterioso amigo de Georg. O amigo vive na Rússia, em São Petersburgo, onde também se estabeleceu como comerciante. Georg está redigindo uma carta para o amigo. Hesita. Quer comunicar sobre seu noivado. Está em dúvidas se deve fazê-lo.
O leitor tem a impressão de que Georg tem receio de desagradar ao amigo. Não percebo nenhuma insinuação que os aproximasse de um modo distinto do que a experiência de uma amizade desinteressada. O receio de Georg é curioso. Tem-se a impressão de que ele precisa da autorização do amigo para que possa levar adiante o noivado. Procurava não preocupar o amigo com seus problemas e por isso escrevia coisas mais insignificantes.
Georg reflete sobre a situação do amigo na Rússia, atentando com a situação política local, o que nos remete às revoluções de 1905 e de 1917, ainda que o texto date de 1913. No posfácio o tradutor nos revela que Kafka escreveu o texto de um jato, em uma noite. Em seu diário (entrada de 11 de fevereiro de 1913), Kafka registrou que a estória saíra dele “como um verdadeiro parto, coberta de sujeira e muco” e que somente ele tinha “a não capaz de alcançar o corpo e vontade de fazê-lo”.
O pai surge na estória. Georg vai procurá-lo e aproveita para contar sobre o noivado. O pai está lendo um jornal, num quarto escuro, no qual há os restos do café da manhã que acabara de tomar. Possesso com a notícia, o pai desqualifica o filho. Afirma que, entre os dois, acabava sendo, de longe, o mais forte.
O pai trata o filho com arrogância. Aproveita e menciona o amigo que está na Rússia, e que diz ser uma invenção de Georg. O filho fica transtornado porque recorda que apresentou o amigo ao pai, que o tratou muito bem. O pai condenou o filho ao afogamento. É uma sentença sem sentido, porém o sentido da sentença não está no conteúdo da decisão; está no comando. O pai perdeu completamente a razão.
O pai adianta-se e diz ao filho que enviava cartas ao amigo que morava na Rússia, por conta própria. Uma contradição que revelava sua insensatez, justamente porque um pouco antes negara a existência do amigo. A discussão fica acalorada. O desate da estória deixa o leitor perplexo. Às vezes o diálogo entre pai e filho mais parece o relato de um sonho ou uma cena de um filme de Buñnel.
Na mencionada entrada de seu diário Kafka registrou que Georg desesperou-se por causa da noiva. Não me parece. Kafka não andava bem por esses dias. Registrou no mesmo dia, em seu diário, que Georg tinha o mesmo número de letras do que Franz e que Bende, primeira parte do sobrenome do personagem, tem o mesmo número de letras do que Kafka. Era ele mesmo. A noiva tem as mesmas iniciais da então noiva de Kafka. O autor leu a estória para a irmã, que imediatamente reconheceu que a casa de O Veredicto era a casa onde viviam. Os amigos de Kafka que ouviram a narrativa enfatizaram que havia uma qualidade visual no texto.
No campo das intersecções entre Direito e literatura, O Veredicto propicia uma alegoria inquietante sobre a origem e a opacidade do poder de julgar. O pai, que subitamente assume a posição de juiz, sem que para isso haja rito, procedimento ou defesa, encarna a figura de uma autoridade que se autolegitima e cujas razões permanecem indevassáveis.
A sentença que impõe ao filho, o suicídio, é proferida como se fosse um fato inevitável, naturalizado, uma decisão oriunda de instâncias superiores que sequer se nomeiam. O texto se torna, assim, uma meditação sobre o arbítrio disfarçado de legalidade, o trauma do julgamento sem contraditório e a angústia da interpretação unilateral.
O Direito, como o pai de Georg, parece ser uma instância que fala em nome de algo maior (a ordem, a moral, a tradição), mas que se esconde atrás da obscuridade e da violência simbólica. Em O Veredicto, Kafka mostra que há sentenças cuja força não vem da razão. Decorrem da assimetria entre quem fala e quem deve calar e, nesse sentido, Kafka pode ter antecipado o debate contemporâneo sobre a linguagem como instrumento de poder.
O texto parece não passar de um delírio, uma lembrança incerta, uma alucinação. Ocorre que o delírio é mais verossímil do que muitas narrativas canônicas. Nele estão o pai, o julgamento, o castigo e a obediência sem réplica. E está, sobretudo, esse estranho contorno de lucidez do absurdo, que transforma a punição em destino.
O leitor sente que algo grave está acontecendo, mas não sabe nomear, porque tudo já foi dito, embora nada tenha sido explicado. Talvez nessa leitura consigamos entender o que nunca compreendemos: há sentenças que não se fundamentam, e há condenações que apenas se cumprem. A justiça, quando aparece, vem manchada de rancor. É vingativa. A prática da advocacia e a lida no foro comprova a precisão desses símbolos.
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