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Embargos Culturais

Medida por medida, de William Shakespeare

No último 30 de agosto, no Festival Internacional de Teatro de Brasília, Cena Contemporânea 2025, encenou-se uma versão esquisitíssima e belíssima da peça Medida por Medida, de William Shakespeare. Não poderia haver ambiente mais aconchegante: a Sala Martins Penna, no Teatro Nacional Claudio Santoro, reformada, repaginada, linda. O teatro estava lotado. O espetáculo concorreu com várias outras atividades que ocorriam na Esplanada, toda iluminada. Meu Deus, mas que cidade linda!, já cantava um dos poetas da novacap.

Spacca

Arnaldo Godoy

A peça foi dirigida e adaptada pelo competentíssimo Gabriel Chamé Buendia, premiado diretor argentino que inclusive leciona na Espanha, na França e na Alemanha. Na sessão final de aplausos (merecidamente interminável), o diretor subiu ao palco e sentiu a emoção e o agradecimento de quem estávamos lá.

No palco, Matias Bassi (ator argentino) representou o duque e o padre, dois personagens nucleares da peça, como se verá. Nicolás Gentile, Agustín Soler, Elvira Gómez, Marilyn Petito completam o elenco. Os atores protagonizam individualmente mais de uma personagem. A movimentação no palco é impressionante.

Na adaptação dos argentinos há dança, ilusionismo, interação com a plateia, música, referências culturais e históricas inteligentes, política, sátira, metalinguagem. Há crítica teatral (referências a Gerald Thomas, ao teatro do absurdo, ao teatro interativo e participativo, ao rompimento dos atores com a quarta parede). E há, também, referências a Shakespeare, excertos da peça original, tudo temperado por um humor desconcertante. Sobre Gerald Thomas eu recomendo sua autobiografia, publicada pela Record, em 2016.

No núcleo, respeitaram a estrutura narrativa. A peça ocorre em uma imaginária Viena, comandada por um Duque (Shakespeare adorava duques comandantes) que simula se afastar do poder, a propósito de uma viagem à Polônia. Na verdade, pretende observar o cumprimento das leis, em um contexto de decadência moral do ducado, tudo potencializado por sua honesta percepção de que não consegue aplicar efetivamente as leis.

Um tema recorrente nas peças de Shakespeare, analisado por José Roberto de Castro Neves, maior especialista nas relações do Direito com a obra de Shakespeare. Recomendo a leitura de Medida por Medida: o Direito em Shakespeare. Imperdível. Castro Neves hoje está merecidamente na Academia Brasileira de Letras. Conta com muitos admiradores aqui em Brasília, entre eles o Dr. Roberto Rosas, que é o nosso guru nos temas de Direito e cultura.

O Duque nomeia um chefe interino, Ângelo, severo, do tipo Robespierre (com três séculos de antecedência), disciplinado aplicador da lei. Um positivista, no sentido negativo e equivocado que possa ter essa expressão, tão chicoteada. Para uma compreensão exata do termo precisamos ler Dimitri Demoulis (O positivismo jurídico), Rodrigo Borges Valadão (Positivismo jurídico e nazismo) e Lenio Streck (Dicionário de Hermenêutica, entre outros). O Duque permanece na cidade, disfarçado de padre.

Ângelo combate a fragilidade moral do ducado e condena um jovem que engravidou a noiva. A irmã do jovem condenado, uma noviça histérica (na versão argentina), intercede em favor do irmão. O severo Ângelo fixa um preço para indultar o condenado: a virtude da noviça, em forma de entrega sexual. A noviça resiste bravamente. A uma justiça inflexível Ângelo opõe suas próprias fraquezas.

O Duque retorna. Ao saber da hipocrisia de Ângelo, planeja uma engenhosa sequência de eventos, que conta até mesmo com uma troca de mulheres. Uma noiva rejeitada por Ângelo será crucial no desate da tensão entre inflexibilidade interpretativa e compaixão. O fim é hilariante. O espectador fica em dúvida se a noviça aceita a proposta de casamento do Duque. Ela tira o véu, o que sugere um sim. Mas não se sabe ao certo.

A peça é uma profunda reflexão sobre as instâncias punitivas do Direito. É uma crítica às leis que caíram em desuso, porque leis refletem seus tempos e momentos. Shakespeare retoma o tema da hipocrisia judicial e da falsa moralidade que domina uma certa falta de controles institucionais. Os temas da prudência, da misericórdia e do sentido mais profundo de equidade também estão na peça, seja nos versos de Shakespeare ou nos diálogos de Gabriel Chamé Buendia.

Castro Neves cita W. H. Auden e nos lembra que Medida por Medida é uma peça que trata da natureza da justiça, da natureza da autoridade e da natureza do perdão. Castro Neves também chama a atenção para a desproporcionalidade entre um ato criminoso (relações sexuais consentidas ocorridas antes do casamento) e a sanção (a pena de morte).

Penso que a força maior da montagem de Gabriel Chamé Buendia está em evidenciar a desproporcionalidade como eixo dramático central de Medida por Medida. Shakespeare problematizou o abismo entre o amor consumado antes do casamento e uma pena máxima, a morte. Essa desmedida revela como a lei, quando aplicada sem mediação da equidade, pode se transformar em instrumento de opressão. O leitor que conclua e que insira essa tensão no contexto do que lê nos jornais e nas redes sociais. Ainda não resolvemos o problema platônico da justa medida.

Alguns que estavam no teatro se incomodaram com o fato de que a peça foi representada em espanhol, ainda que houvesse tradução simultânea em forma de legendas na parte superior do palco. De acordo com o insuspeito Carpeaux, diante de uma peça de Shakespeare, somente o espectador tem o direito de fracassar. As cores, o som, a movimentação e o ambiente festivo, creio, suprimiram essa suposta dificuldade. Uma noite inesquecível.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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