Há muitos modos de contemplar o passado em busca de inspiração e de novos significados para o presente. No caso do advogado e professor universitário Clèmerson Merlin Clève, o reencontro lírico gerou a coletânea Quase Alguma Poesia, recém-publicada pela Editora Arte & Letra.

Clèmerson Clève reeditou dois livros que escreveu durante a ditadura militar
A obra reúne dois volumes de textos concebidos de 1978 a 1982: Amor Fati — Poemas da idade jovem em tempos sombrios e Memória (quase) poética de uma temporada no céu. “Esses dois livros foram publicados já há bastante tempo. As pessoas pediam para eu republicar, mas eu resistia à ideia. São escritos de quando eu era muito jovem. O Brasil ainda vivia os anos da ditadura”, relembra ele em entrevista à revista eletrônica Consultor Jurídico.
Clève salienta que muitos dos que pediram a reedição de Amor Fati enxergam os acontecimentos políticos dos últimos anos como um período análogo ao da repressão militar, no contexto das ações de grupos extremistas e eventos recentes como os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
“Claro que passamos um período que causa muita preocupação, mas os períodos são diferentes, já que quando escrevi esses livros o Brasil vivia uma ditadura consolidada. De todo modo é preocupante, porque não enxerguei em parte das pessoas o reconhecimento dessa gravidade: a urgência em defender a democracia”, sublinha. Essa angústia emerge em versos como “Ouves o que (me) dizem e te prendes ao escuro do cárcere da intimidade doméstica”.
O segundo livro de Quase alguma poesia resgata impressões do autor sobre a sua cidade natal, a pequena Pitanga, no interior do Paraná. Os poemas testemunham as transformações da localidade desde a infância do autor.
“Eu acompanhei a derrubada das matas, a luta das pessoas para fazer daquela terra uma terra fértil, pessoas valorosas e lutadoras. Eu acho que nós estamos sempre nos reconstruindo. Somos na verdade um conjunto de azulejos que vão de alguma maneira se justapondo, se somando”, compara.
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