SEGUNDA LEITURA: Justiça poderia usar experiência de juízes aposentados

"ColunaSpacca” data-guid=”coluna-vladimir.png” />A vida passa rápido, dizem os mais velhos. Mas os mais novos não acreditam. Olham o pai, a avó, a tia e acreditam, piamente, que nunca ficarão como eles. Supõe que a velhice é algo diverso, outro mundo, outra gente. E só com o tempo perceberão que caminham na mesma direção.

No mundo do Direito, a formatura é o divisor de águas. Chega-se à fase adulta. A partir dali, goste-se ou não, virá a cobrança. Graduados, uma parcela pequena procura a magistratura. Porém, muito serviço, responsabilidade demasiada, pouca adrenalina, cobranças cada vez maiores, afastam muitos potenciais candidatos.

Mas, aos que conseguem ser aprovados em concurso, após a solenidade de posse, que traduz momentos de muita felicidade, segue a carreira. Promoções, remoções, pequenas cidades de interior, cidades periféricas populosas e problemáticas , a capital com tudo que oferece de bom e de ruim.

Alguns não seguem este caminho. Optam por ficar no interior. Vida mais calma, menos gastos, maior prestígio na sociedade. Há os que, por desvio de conduta, se perdem no caminho. Os de temperamento mais inquieto assumem postos em associações de classe, direção do foro, atividades acadêmicas ou escrevem livros.

Passa o tempo, o físico vai se modificando. Os homens perdem os cabelos. As mulheres se aborrecem ao notar o avanço desrespeitoso das rugas. Uns seguem motivados, outros desanimam, E assim se vão os anos, alegrias, tristezas, filhos, conquistas, decepções, até que um dia se começa a pensar na aposentadoria.

A aposentadoria do juiz se dá por ato voluntário, após 30 anos de serviço e idade mínima de 60 anos para os homens e 55 para as mulheres. Ou aos 70, compulsoriamente. No passado tivemos o limite de 75 anos na Constituição de 1934 e de 68 anos na Carta de 1937 (arts. 64, “a” e 91 “a”). Agora são 70, com perspectivas de 75.

E o dia de deixar o cargo chega para todos. Não há distinção de posto ou hierarquia. Um dia se abrem as gavetas à procura dos papéis e objetos guardados, recolhem-se os livros em caixas de papelão e se retiram os quadros das paredes. Todos passaram ou passarão por isso. Exceto se falecerem antes. A questão é: estão os juízes preparados para a aposentadoria?

Normalmente, não. O assunto, sequer, é discutido. Consulta no site do Google revela apenas uma notícia, qual seja, a entrevista com o Juiz de Direito Rafael Afonso de Andrade Leite, que é o tesoureiro da seccional da Amagis em Divinópolis, MG.

A transição não é fácil para quem detém cargo de mando. E não apenas juízes, mas também agentes do Ministério Público, policiais e outras carreiras da área jurídica. Óbvio que é totalmente diferente aposentar-se em uma atividade privada comum ou em um cargo público que represente destaque, relevo, poder enfim.

Como enfrentam os juízes a vida de aposentado? A maioria, por não ter atividade paralela, simplesmente não faz nada. Se isto no começo representa descanso, um ano depois pode significar sentimento de inutilidade, abandono e afastamento. Em um momento seguinte, depressão e doenças.

Outros vão advogar. O sucesso nesta área é para poucos. Há dificuldades no caminho. A quarentena, a demora nos julgamentos, a preponderância de contratos de risco e a dificuldade em readaptar-se à atividade há muito abandonada. É certo que a experiência pode ser útil. E não há problema algum em almejar bons honorários. Mas isto tem que ser feito com ética. Nada de tráfico de influências, de sugerir ao cliente que pode conseguir alguma vantagem pelas relações que detém no Judiciário ou de querer usar a estrutura do Fórum ou Tribunal (v.g., a garage) para exercer uma atividade que é sua, privada e não pública.

O magistério, em tese, seria outra opção. Mas só em tese. Dificilmente o magistrado aposentado vai se adaptar aos novos tempos. Ele, que estudou em época que os professores eram respeitados, que a sala de aula era silenciosa e que a disciplina era cultuada, terá dificuldades em conviver com jovens que, sem pedir licença, entram e saem a qualquer momento da sala. Além disto, as Faculdades de Direito são cada vez mais exigentes. Reuniões, avaliações, relatórios e outras atividades antes inexistentes. Mais a a mais, é preciso ter título de mestre ou doutor.

Alguns poucos irão exercer funções públicas. Por exemplo, juízes de comarcas de interior tornam-se, depois de aposentados, Secretários de Assuntos Jurídicos do Município ou funções análogas. Mas, só se for por vocação, porque do ponto de vista de remuneração estão atrelados ao teto do STF e receberão pouco ou nada pelo trabalho que vierem a exercer.

A preocupação com o assunto faz com que nos EUA existam alguns programas de apoio aos aposentados ou em vias de retirar-se. Por exemplo, a Justiça do Estado de Ohio promoveu em 28.4.2006, no Ohio Judicial Center, Columbus, o Comitê de Juízes aposentados da Conferência Judicial de Ohio, com o título “Jumping the Retirement Hurdle”(Superando o obstáculo da aposentadoria), dirigido a juízes e cônjuges, com planejamento para a futura aposentadoria (www.ohiojudges.org). Entre as discussões estavam impacto emocional no juiz e na família, ética, finanças e p novo estilo de vida.

Tribunais e associações de classe brasileiros poderiam promover seminários, com palestras dadas por psicólogos e troca de experiências com colegas inativos. A Anamatra já tomou iniciativa em tal sentido. Para o porvir inevitável, bom seria que os juízes começassem a se preparar quando chegassem aos 55 anos

Por outro lado, os Tribunais poderiam, também, aproveitar a experiência e a força de trabalho dos aposentados em serviços voluntários como a conciliação em Juizados Especiais, em processos nas Varas ou Tribunais, acompanhamento de juízes em fase de vitaliciamento, Escolas da Magistratura e até mesmo na elaboração de projetos de votos. Há iniciativas neste sentido nos TJs do RJ, SP e PR.

No mais, evidentemente, a forma de conduzir a vida quando em atividade fará uma grande diferença na aposentadoria. Os que mantiveram seus amigos de infância, zelaram pelas relações familiares, relacionaram-se bem com advogados, servidores e outros operadores jurídicos, serão sempre cercados de estima. Já os que se mantiveram orgulhosos, insensíveis, usaram o poder para perseguir ou humilhar, podem ter certeza de que pagarão o preço de uma amarga solidão.

Vladimir Passos de Freitas

é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR, desembargador federal aposentado, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça, promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Carmen Patrícia C. Nogueira disse:
09 de maio de 2010 às 11:20

Parabenizo o Dr. Vladimir pela seu artigo.
É sabido que as pessoas que atingem a longevidade são as que trabalham, são úteis para a sociedade e são generosas.
Quem para de trabalhar por motivo egoístico invariavelmente fica doente e morre prematuramente.
A medida da riqueza do homem é a sua capacidade de compartilhar, como ensina a Torah, a Lei de Moisés.
A aposentadoria deve ser uma nova fase de compartilhar a experiência acumulada com a Sociedade, sendo útil para todos. Quem assim age é feliz.
Não tenho dúvidas que o Dr. Vladimir seja feliz e saúdavel, pelas suas idéias em sintonia com as leis do Universo. Parabéns.

Moacyr Pinto Costa Junior disse:
09 de maio de 2010 às 22:34

O pensamento do Desembargador federal aposentado é, sem sombra de dúvidas, excelente. Parabéns ao culto Magistrado pela eloquência, acerto e propriedade com que aborda o artigo.
MOACYR P. COSTA JUNIOR
Advogado e Professor Universitário
http://mpcjadv.blogspot.com

Adriano Ribeiro disse:
10 de maio de 2010 às 12:53

Título: Juízes Cíveis de BH aderem à Conciliação
Conteúdo:
Mais de 80% dos juízes cíveis da comarca de Belo Horizonte, presentes à reunião de trabalho realizada ontem, 29/10, pela Direção do Foro da capital, com a presença do corregedor-geral de Justiça, Célio César Paduani, aderiram e se comprometeram a buscar o melhor índice de acordos para a Semana da Conciliação, que será realizada do dia 1º a 5 de dezembro.
Ao abrir a reunião, o desembargador Célio César Paduani ratificou o total apoio da Corregedoria e dos juízes auxiliares à Semana. O desembargador Antônio Armando dos Anjos, presidente da comissão organizadora da Semana da Conciliação em Minas Gerais, lembrou que a Conciliação “tem sido exitosa” em Minas Gerais, e as iniciativas do TJMG reconhecidas pelo Conselho Nacional de Justiça, CNJ, em várias ocasiões.
O diretor do Foro da capital, juiz Marco Aurélio Ferenzini, lembrou aos colegas que um projeto como esse exige envolvimento para o sucesso desejado e sugeriu que sejam identificadas as ações onde a possibilidade de acordo seja maior. Marco Ferenzini lembrou ainda o principal objetivo da Semana que é beneficiar aos jurisdicionados.
Também a juíza Ângela de Lourdes Rodrigues, que já foi coordenadora da Central de Conciliação e idealizou o projeto Magistrado Conciliador, falou de sua experiência e deu sugestões para o êxito da Semana.
Também o juiz Carlos Mesquita, atual coordenador da Central de Conciliação e que atuou na Semana da Conciliação de 2007, expôs suas sugestões para o sucesso da Semana da Conciliação em 2008.
Fonte: TJMG

Adriano Ribeiro disse:
10 de maio de 2010 às 12:54

Magistrado Conciliador
O Projeto Magistrado Conciliador teve as suas audiências inaugurais realizadas no dia 1º de julho, na 30ª Vara Cível de Belo Horizonte. Das 12 audiências realizadas, nove terminaram em acordo, um índice de 75 %. As audiências foram presididas pelo juiz Wanderley Salgado de Paiva que contou com a presença do magistrado Francisco Corrêa Neto, primeiro dos magistrados conciliadores a participar do Projeto.
O projeto, idealizado pela juíza Ângela de Lourdes Rodrigues, tem o apoio da Direção do Foro e pretende aproveitar a experiência de magistrados aposentados nas conciliações em ações cíveis.
Cerca de 15 magistrados aposentados, entre desembargadores e juízes, já aderiram ao projeto. Igualmente 15 juízes da Varas Cíveis já manifestaram interesse em encaminhar processos para tentativa de Conciliação, através do projeto.
Na reunião realizada ontem, sobre a Semana da Conciliação, vários juízes elogiaram a iniciativa e confirmaram que o projeto valoriza o profissional aposentando e que ainda está em plena capacidade laborativa, além de contribuir muito com a sociedade que passa a contar com conciliadores com muitos anos de experiência em audiências deste tipo.
Fonte: TJMG

Milton Gurgel Filho disse:
10 de maio de 2010 às 21:58

O Dr. Vladimir fotogra bem, parabéns. Éisso mesmo.
Mas, vejam que o fenômeno é comum a todas as profissões e a todos os mortais. Assim que nascemos, começamos a morrer, disse o poeta.
A sociedade ocidental valoriza o jovem, o novo, o dinheiro e o orgasmo. Sem problemas. Por esta concepção o velho é um estorvo.
Como logo, logo, a sociedade brasleira terá uns 5o milhões de pessoas com mais de 60 anos.....logo...logo ... é bom que todos nos preocupemos com isso, parabéns.
MGF

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