Advogar ainda é o sonho de muitos bacharéis em Direito

Spacca

O estudante de Direito, ao chegar ao 9º período, começa a preocupar-se com o “sexto ano”, ou seja, com a sua definição profissional. A insegurança alcança a muitos e a pressão dos pais, parentes, vizinhos agrava a situação. De sobra, há o TCC e o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, levando muitos a um estresse que chega prematuramente às suas vidas.

O lado bom é que o Direito é, de todos, o curso que abre o maior leque de opções. Desde concursos para uma grande quantidade de carreiras, via de regra com bons vencimentos, até atividades paralelas, como oferta de serviços de apoio ou consultoria em administração de escritórios de advocacia.

Todavia, a grande maioria irá para a advocacia, pois, evidentemente, é o local que absorve o maior número de profissionais. E aí é preciso avaliar bem o mercado de trabalho, as áreas menos exploradas e se a opção será entrar, como empregado, em uma empresa, em um escritório, ou abrir o seu próprio espaço de trabalho com um ou mais colegas da faculdade.

No âmbito de assalariados, a Consultoria Salomon e Azzi, especialista em recrutamento de advogados, considera o momento atual bom para os jovens. Segundo levantamento feito para a cidade de São Paulo, “o cargo tem apresentado remunerações atraentes, variando de 10 mil a 27 mil reais, dependendo do porte da empresa, de acordo com pesquisa salarial realizada pela consultoria em sua base de dados” (http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/quanto-ganham-os-advogados-no-brasil/).

A pesquisa da consultoria fornece alguns dados interessantes. Um advogado júnior de uma pequena empresa está recebendo o mínimo de R$ 3.200,00. Um advogado pleno de empresa, em média R$ 6.100,00. Um advogado sênior em escritório de contencioso tributário, de R$ 8.360,00 a R$13.750,00. O gerente jurídico de uma empresa de grande porte, até R$ 27.000,00 e o diretor jurídico de R$ 32.000,00 a R$ 52.800,00.

Como se vê, são situações diferenciadas e que revelam um escalonamento que se resolve por experiência, conhecimentos jurídicos, relações pessoais e liderança. As atividades também são diversas. Um diretor jurídico não é mais um preparado jurista, mas sim, acima de tudo, um grande articulador, alguém que apara as divergências, encaminha soluções com tirocínio e que, evidentemente, tem domínio pleno do inglês.

A opção por um empregar-se em um escritório de advocacia ou em uma empresa é totalmente diferente de tornar-se um profissional liberal, com escritório próprio e clientes variados. Na condição de empregado, o advogado terá uma carreira, com muita dedicação, extremamente requisitado e chances de ascensão profissional. Nem sempre será fácil, dele se exigirá muito esforço.

Mas a opção pode ser outra, abrir um escritório, ter o seu espaço particular. Aí é preciso, acima de tudo, entusiasmo, autoconfiança, otimismo. Não faltarão pessoas para dizer que não dá, que a concorrência é muito grande e que as ações judiciais não chegam ao fim.

Normalmente ninguém abre um escritório sozinho. Mas se for abrir com um — ou uma, evidentemente — colega de faculdade, é importante deixar claro em contrato quais são as responsabilidades de cada participante, como se dividirão os honorários, inclusive no caso de separação, como serão custeadas as despesas. Essas cautelas evitam futuros problemas. Atualmente, são comuns ações judiciais decorrentes de separação de sócios em escritórios de advocacia. A OAB-SP criou uma Câmara de Mediação justamente para evitar a judicialização dessas disputas.

Escolher a matéria também é essencial. Ninguém aguenta assumir todos os tipos de ações e passar as tardes correndo da 18ª Vara do Trabalho para o 3º Juizado Especial Cível, com múltiplos e diversos compromissos. Essa é uma conduta superada, importa em muito suor e pouco resultado. É preciso saber administrar as próprias atividades, conduzi-las do modo menos desgastante possível.

Achar um nicho inexplorado não é fácil, mas, dependendo do local, ainda é possível. E não basta ser especialista, é preciso que todos saibam que se é um grande especialista, ou seja, marketing. Não só pelo contato pessoal, como por um site bem desenhado por profissional competente e não por um sobrinho que estuda Desenho Industrial e se dispõe a fazer por R$ 300,00 algo que em nada ajuda.

A propósito de especialização, existem atividades novas que a complexidade da vida moderna vai criando. Por exemplo, advogar em processos disciplinares junto à OAB, ou seja, defender colegas. Pode ser uma via interessante e rendosa. Tal atuação, evidentemente, só é possível nos estados mais populosos, exige conhecimentos específicos que mesmo professores de Direito Administrativo podem não ter. Além, evidentemente, de saber como os julgadores pensam e votam.

Quanto aos honorários, é assunto que exige habilidade. Nem se superestimar, afugentando o cliente, nem se subestimar, porque daí não será reconhecido. Atualmente a maior parte das causas tem os honorários estabelecidos no êxito. Poucas pessoas estão dispostas a adiantar quantias consideráveis sem ter previsibilidade do fim da demanda. Mesmo ganhando, sabem todos que pode demorar muitos anos.

No contato com os clientes, o advogado inteligente não perderá tempo reclamando da Justiça. Ao cliente não interessa saber se aqui ou ali funciona mal, interessa ganhar. Então, é preciso que a mensagem seja otimista, algo como “mesmo que funcione mal, eu sei o caminho para que haja bons resultados”.

O serviço do advogado não termina com a extinção do processo. O profissional habilidoso manterá o relacionamento, de tempos em tempos fará contato com o cliente para ver se precisa de algo. Mais difícil do que ter um cliente é manter o cliente.

No mais, a receita do sucesso, apesar das mudanças da sociedade, continua sendo a mesma: estudo, dedicação e relacionamento. O sucesso virá naturalmente.

Vladimir Passos de Freitas

é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR, desembargador federal aposentado, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça, promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Carlos Otávio Schneider disse:
03 de agosto de 2014 às 09:38

Bom Dia.
Muito me admiro o Douto Desembargador advogar indiretamente em favor de uma entidade de classe. Todo acadêmico em Direito ao terminar o curso, não sabe o que comemora no dia da festa de formatura. A dor e o sofrimento saber que o Direito no Brasil tem dono sepulta qualquer sonho. Lastimável esta visão minúscula. Nada de diferente das demais profissões. O Advogado deve entre o direito e a justiça lutar por esta quando em conflito com aquela.

Amaralsantista disse:
03 de agosto de 2014 às 12:11

Realmente o universo jurídico é apaixonante e requer acima de tudo vocação. Eu sempre digo entre amigos que desde a infância já tinha essa tendência. Falava muito, era conciliador, dava conselhos e todos em casa já adivinhavam o meu futuro. Tenho um primo irmão que na verdade foi o meu ídolo e incentivador. Os valiosos conselhos do Professor Vladimir são de suma importância na escolha da carreira jurídica, pois como disse é sem dúvida a que abre o maior leque de opções. Campo de trabalho sempre haverá pois o ser humano vive constantemente em conflito nessa disputada convivência social. Basta saber escolher o caminho certo e gostar da profissão. Hoje estou afastado da advocacia pela aposentadoria mas vou morrer advogado, com muito orgulho, participando de todas as eleições na OAB sem faltar nenhuma, e sempre em contato com amigos de profissão, antigos e os novos com muitos conselhos, tentando passar um pouco da experiência que adquiri ao longo de mais de trinta anos labutando nos Tribunais. Endosso os conselhos do articulista, acrescentando apenas que o mais importante e gostar muito da profissão e que fatalmente o levará ao sucesso. Parabéns Prof. Vladimir, bom começo de semana e até a próxima Segunda Leitura.

João da Silva Sauro disse:
03 de agosto de 2014 às 13:36

Os números devem ser lidos 'cum grano salis'. Quem contrata consultoria de RH está em uma categoria muito mais restrita e com uma preocupação que não reflete o comum. A média do mercado como um todo é bem abaixo disso.

LENITA disse:
03 de agosto de 2014 às 17:06

Na maioria das vezes, o exercício da advocacia não é uma escolha, considerando que o filtro das demais profissões relacionadas ao Direito exigem bem mais que a aprovação em um exame no qual se avalia o mínimo de conhecimento. Na advocacia, a concorrência começa quando se está "apto" ao exercício da profissão, já em um cargo de ingresso mediante concurso público, por exemplo, a concorrência precede à posse.

Hugo da Silva Torres disse:
04 de agosto de 2014 às 11:19

Gosto dos artigos publicados pelo Dr. Vladimir Freitas. Geralmente eles vêm recheados de conteúdo e passados de forma bastante objetiva, o que é o ideal. Isso sem falar da vasta experiência aliada ao conhecimento teórico, combinação sempre vista em suas publicações. Gosto dessa mistura.
Parabéns!

miro disse:
04 de agosto de 2014 às 14:04

Fico contente que os estudantes do direito pensam na carreira de advocacia, em razão das inúmeras possibilidades que o curso oferecem. Mas a tarefa é árdua e exige muito empenho, dedicação e estudo aprofundado naquilo que o candidato se propõe a fazer. Tem que tomar cuidado com algumas tentações que à prática oferece. Parabéns.

BERTOLOTTE disse:
04 de agosto de 2014 às 14:58

Como advogado autônomo a mais de 18 anos...Vivendo unicamente desta nobre profissão...A qual aprendi a amar....Somente um conselho dou aos futuros bacharéis....Façam concursos públicos a n[ivel federal......Esqueçam advogar !

BERTOLOTTE disse:
04 de agosto de 2014 às 14:58

Como advogado autônomo a mais de 18 anos...Vivendo unicamente desta nobre profissão...A qual aprendi a amar....Somente um conselho dou aos futuros bacharéis....Façam concursos públicos a n[ivel federal......Esqueçam advogar !

Nicolás Baldomá disse:
04 de agosto de 2014 às 15:29

Evidentemente, tais números diferem bastante da realidade.
.
Não sei qual o universo da pesquisa, mas não é preciso buscar dados muito profundamente para notar que, no Rio, cujo mínimo é R$2.000,00 e tanto, um grande número de escritórios pagam menos que isso, as vezes apenas uma "ajuda de custo". Na Bahia, Sergipe, etc, a situação não é diferente.
.
Advogar é, antes de tudo, uma vocação. Há de se gostar muito, porque até é recompensador a longo prazo, mas até lá é necessário batalhar muito.

Nicolás Baldomá disse:
04 de agosto de 2014 às 15:29

Evidentemente, tais números diferem bastante da realidade.
.
Não sei qual o universo da pesquisa, mas não é preciso buscar dados muito profundamente para notar que, no Rio, cujo mínimo é R$2.000,00 e tanto, um grande número de escritórios pagam menos que isso, as vezes apenas uma "ajuda de custo". Na Bahia, Sergipe, etc, a situação não é diferente.
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Advogar é, antes de tudo, uma vocação. Há de se gostar muito, porque até é recompensador a longo prazo, mas até lá é necessário batalhar muito.

Solfejo disse:
04 de agosto de 2014 às 18:21

Além do inglês, alguns profissionais precisam estudar português. Seja qual for a área escolhida, sem o domínio da nossa língua, é impossível alcançar o sucesso. Parabéns pelo artigo.

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