O Brasil está em estado de choque após o caso da adolescente do Rio de Janeiro que foi estuprada por diversos homens, tendo sua imagem exposta nas redes sociais, por iniciativa desses autores do crime, que contam com a impunidade estatal e a aprovação social. Casos semelhantes são verificados em outras regiões do Brasil, tendo sido amplamente divulgado três casos de estupro coletivo de adolescentes no Piauí. Nesse contexto, o atual debate sobre a denominada “cultura do estupro” pode gerar resultados positivos, isso se mudarmos os paradigmas para a efetivação das leis já existentes.
Em todos os casos, iniciaram-se imediatamente ataques às vítimas, às suas condutas, aos seus comportamentos, aos seus antecedentes infracionais e à forma como se vestiam. Tais questionamentos decorrem da cultura brasileira, que ainda é significativamente machista e patriarcal. Por essa razão, a vítima é muitas vezes vista como a principal responsável e “culpada” pelo estupro que sofreu. Um dos investigados, como no caso do estupro coletivo do Rio, verbalizou que a vítima não deveria estar naquele local. Nas redes sociais, algumas pessoas sustentaram que, se a vítima estava no baile funk, isso indicou aos autores do crime que a jovem estava disponível. Outras pessoas comentam que se a adolescente era usuária de drogas, isso demonstraria que a vítima anuiu com o ato sexual.
O que a sociedade precisa compreender é que o estupro é um crime contra a dignidade sexual da vítima, portanto, se há violência ou grave ameaça e não houve consentimento, configura-se o crime. Se a vítima estava no baile funk ou não, a forma como ela estava vestida, a forma como ela se comportava, nada disso importa se ela não consentiu com a prática do ato sexual. O sistema de Justiça precisa começar a respeitar e dar uma maior credibilidade à palavra da vítima.
O estupro é um crime gravíssimo. As consequências para a vítima são nefastas e permanecem para o resto da vida. Uma jovem chamada Isadora, que estudava na Universidade Seropédica Rural do Rio de Janeiro, três anos e meio após ter sido estuprada por colegas, dentro de um dormitório da própria instituição, não aguentou a pressão, adoeceu, entrou em depressão e se matou em maio deste ano.
O estupro atinge em grande quantidade as crianças, em especial as meninas. A ginecologista Cláudia Cabral descreveu, com detalhes, um caso de terrível de uma menina de apenas 10 anos de idade que foi vítima de um vizinho: “Ela estava muda por mais de 2 meses, e o único som que eu ouvi foi um choro baixo e doído. O exame ginecológico era indescritível. Parecia ter sido submetida à tortura com aqueles aparelhos medievais inimagináveis. Sua vulva era um buraco só. Havia ruptura perineal completa, unindo uretra, vagina e ânus num buraco irregular e único. Imaginei a dor física. Só imaginei. Imaginei a dor psicológica. Só imaginei. E chorei. Nunca me esqueci. O que nunca consegui imaginar foi que criatura teria feito aquilo com ela. Estou sem resposta até hoje”[1].
Nesse tipo de crime, por mais surpreendente que possa parecer, o agressor normalmente é alguém conhecido da vítima, como um vizinho, ou alguém que tem um grau de parentesco e relação de autoridade com a vítima, como o pai, o padrasto, o tio ou o avô. Como proteger as meninas se elas são atacadas dentro do local onde deveriam ser protegidas, como o seu lar?
Casos como esses não podem acontecer, portanto, devemos trabalhar diariamente nessa questão no âmbito do Grupo de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público do Estado de São Paulo. Precisamos dar um basta à violência sexual contra crianças, adolescente e mulheres. Porém, como dar efetividade às leis já existentes?
Após o clamor público do caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, o Congresso Nacional correu para editar uma lei que aumenta as penas em caso de estupro coletivo. O discurso de criação de leis, sem o devido aparelhamento dos órgãos e desenvolvimento de políticas públicas, é um discurso vazio. Estima-se que apenas entre 10% e 35% dos estupros no Brasil sejam relatados às autoridades ou ao sistema de saúde. Mesmo com essa subnotificação notória, a polícia brasileira registra o altíssimo número de 1 caso de estupro a cada 11 minutos.
O Ministério da Saúde fez levantamento sobre o impacto da violência contra as mulheres no Brasil e chegou à conclusão de que mais da metade das mortes de mulheres e adolescentes vítimas de estupro são de jovens com menos de 19 anos. Das adolescentes e crianças menores de 13 anos que deram à luz no ano passado, pelo menos 6% foi vítima de estupro[2].
Os crimes sexuais já recebem uma pena longe de ser baixa e, nos casos do estupro de vulneráveis, já são considerados crimes hediondos, portanto, a simplificação do aumento simbólico das penas não terá resultados efetivos[3]. Nos termos do Código Penal, entende-se por estupro: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”, com pena de 6 a 10 anos de reclusão. Caso resulte em lesão corporal grave, a pena é de 8 a 12 anos de reclusão. No caso de resultar em morte, a pena é de 12 a 30 anos de reclusão. No caso do estupro de vulnerável, ou seja, “ter conjunção carnal ou outro ato libidinoso com menor de 14 (quatorze) anos”, a pena é de 8 a 15 anos. Na mesma pena incorre quem pratica tais atos com pessoa que tem enfermidade ou deficiência mental. Se resulta lesão grave, a pena é de 10 a 20 anos, e se resulta morte, 12 a 30 anos.
Na área da saúde reprodutiva da mulher, os avanços e retrocessos são evidentes: se por um lado existe a Lei 12.845/2013, que prevê a obrigatoriedade de atendimento no SUS às meninas e mulheres vítimas de violência sexual, por outro lado, já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, o famigerado PL 5.069, de autoria do deputado Eduardo Cunha, que pretende impedir que as mulheres e meninas tenham pleno acesso ao SUS, dificultando muito o caminho das vítimas de estupro. O uso de contraceptivo de emergência, a proteção contra a gravidez indesejada, a prevenção de HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis são direitos da vítima e importantes providências para o apoio e cura de seus traumas psicológicos e físicos. Em São Paulo, existe o Hospital Pérola Byington, que é referência nessa área, onde meninas e mulheres de distintos locais procuram ajuda e atendimento. Todavia, sabemos que no Brasil não existem equipamentos de saúde adequados e em número suficientes, tanto no interior de São Paulo, como em todos os estados do Brasil, desde a região Sul até a Norte.
A Constituição brasileira assegura a igualdade entre todos os brasileiros, sendo vedada qualquer forma de discriminação. A violência sexual é uma forma de discriminação. A interpretação da lei não pode ser feita de forma literal, mas deve levar em conta todo o sistema jurídico, inclusive o texto constitucional e os tratados internacionais que foram ratificados pelo Brasil, como a Convenção CEDAW (Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher) — e todos vedam a discriminação e a violência contra a mulher — e a Convenção Belém do Pará[4].
O Estado brasileiro precisa cumprir com suas obrigações contidas no Direito interno (Código Penal e Constituição Federal) como nos tratados internacionais, proporcionando a prevenção dos crimes de estupro e a sua punição também, além de oferecer o acesso à saúde às vítimas de estupro.
Chegou o momento da mudança de paradigmas e efetivação das leis existentes. O Ministério Público Democrático trabalha nessa direção. Que o choque proporcionado por esses trágicos casos das adolescentes do Rio de Janeiro ou das jovens do Piauí, todos seus sofrimentos, desesperos e de todas as meninas e mulheres vítimas de estupro no Brasil não tenham sido em vão, e que sejam capazes de gerar uma maior proteção às meninas e mulheres e proporcionar um debate mais aprofundado sobre a “cultura do estupro” e a necessidade de desenvolvimento de equidade de gênero. Por uma política mais inclusiva das mulheres em todos os níveis de governo. Menos tolerância com a violência contra as mulheres e meninas, educação sexual e de gênero nas escolas e universidades, o peso das leis para investigar, processar e punir os autores de estupro, sem demagogias como o aumento simbólico de penas, mais sensibilidade de gênero em todos os níveis de governo, Executivo, Legislativo e Judiciário. Por fim, temos que ter a consciência de que não podemos retroceder nos avanços já conquistados, e dizer um sonoro "não" ao famigerado PL 5.069, e aos pretendidos retrocessos de não permitir o aborto legal, em caso de estupro.
A sociedade brasileira, por meio de distintos órgãos, está expressando sua mobilização e indignação, em especial as jovens estudantes e feministas, nascendo dessa maneira uma nova luz e uma forte esperança de transformação social e de incansável combate à “cultura de estupro”, que não apenas existe, mas também mata.
*Texto modificado às 17h do dia 13/6/2016 a pedido da autora.
[1] Reportagem da Globo News, http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2016/06/medica-faz-relato-emocionado-sobre-menina-vitima-de-estupro-aos-10-anos.html, em 9/6/2016.
[2] O Estado de S. Paulo, http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,metade-das-mulheres-vitimas-de-estupro-que-morrem-tem-menos-de-19-anos,10000055961, em 9/6/2016.
[3] BERCLAZ, Márcio, Precisamos mais do que nunca discutir educação sexual, Justificando, 8/6/2016.
[4] PAES, Fabiana, Estupro: crime e consentimento, Jornal do Brasil, http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2016/06/03/estupro-crime-e-consentimento, em 8/6/2016.
Quando deixaremos a nossa indignação seletiva de lado e entenderemos que, com quase 70.000 homicídios/ano e corrupção generalizada (cujo foco está apenas no legislativo, como se toda a sociedade não tivesse tristes exemplos para dar), vivemos em um país onde atos violentos, como o triste caso narrado no artigo, pipocam todos os dias em todas as cidades brasileiras, por causa da "cultura da impunidade", onde tem presos que conseguem rir após cometer atos bárbaros diversos, pois sabem que penas duras são quase inexistentes em nosso país?
Que por mais bárbaro que seja o crime, muitas vezes o criminoso entra e sai, ainda jovem, da cadeia, ensinando que vítima, em Bruzundanga, poucas vezes é lembrada e, quando acontece, vira bandeira ideológica e seu caso, sua dor ou sua morte, vão evanescendo na memória de todos nós?
Alguém ainda se comove ou lembra do João Hélio?
Um caso emblemático, de uma tragédia bárbara, abjeta e cruel, onde um menininho foi arrastado, vivo, pelo cinto de segurança do seu carro, quando o mesmo foi roubado de sua mãe e , logo depois, teve carnaval porque o circo tem que continuar.
Em um país sério, muito provavelmente, o governo teria que se explicar para o povo e dizer que medidas tomaria para punir exemplarmente quem cometeu tal barbaridade e como iria fazer para aumentar a segurança de toda a nação.
Mas somos Bruzundanga.Lima Barreto já havia apontado como escolhemos nos comportar como país.
Até quando seremos assim ?
Lamentável a pobreza argumentativa da Articulista, que como profissional da área não deveria fundamentar seus posicionamentos com base em opinião pessoal tal como as pessoas comuns. Ao contrário do que se disse, NÃO HÁ no Brasil uma cultura de estupro. O que nós temos por aqui é uma sedimentada cultura de violência, que em uma de suas dimensões se manifesta através de violência contra a mulher em suas várias dimensões. A mesma violência atinge também homens (vide os milhares de assassinatos de negros de periferia, que o Ministério Público da qual a Articulista faz parte sistematicamente não investiga), idosos, crianças, homossexuais, etc. Só se poderia dizer que temos uma cultura de estupro se tal espécie delitiva fosse aceita pela sociedade, o que não é incorreto: todos repudiam tal prática. A bem da verdade, os verdadeiros especialistas no setor são unânimes em apontar que nós não temos no Brasil grandes problemas envolvendo violência com a mulher em específico, observado-se que o País é notoriamente violento em todos os aspectos. As pesquisas mostram que nos EUA o número de casos comprovados de estupro são bem maiores do que no Brasil. Claro que não há motivos para se relaxar na apuração e conscientização das massas quanto a essa espécie delitiva, mas não há motivo para todo esse alvoroço que se tem feito com base em um ÚNICO CASO ainda não comprovado. Infelizmente, boa parte do Ministério Público, da qual se esperaria respostas embasadas em critério científicos, "joga para a galera" ao invés de buscar a racionalidade e temperança, muito mais de olhos em reconhecimento social do que em efetivação dos reais valores da profissão.
Tenho dito, e aqui reitero, que o Ministério Público brasileiro precisa se profissionalizar. Durante décadas temos visto alguns rapazes e moçoilas, muitos deles bastante aplicados, ingressando nos cargos após memorizar um punhado de bobagens ensinadas em cursinhos preparatórios. No cargo, não se aperfeiçoam, e não buscam aprender o direito de forma verdadeira, tratando logo de buscar mecanismos visando se manterem isolados, longe de qualquer controle social. Dado o fracasso institucional de suas atuações, ficam criando justificativas esfarrapadas para a criminalidade que domina o País, pregando o fim do direito de defesa e iludindo o povo com a promessa de que caso lhes seja dado poder absoluto todos os problemas serão resolvidos. Mais estudo, mais humildade, e mais olhos voltados para o cumprimento das funções institucionais é o que precisamos nessa importantes serviço público chamado Ministério Público.
aqui postas. Mas acrescento que é muito fácil pousar de herói depois que a coisa já aconteceu. No município de Mariana, agora, o MP quer dar uma de herói. Vamos investigar, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo. Por que nada foi feito para evitar? Isto mostra que o MP não tem a mínima condição de assumir o inchaço de atribuições que lhe foi dado ( mas não quer dividir o bolo). O que sobra, pousar de herói depois das coisas acontecerem.
aqui postas. Mas acrescento que é muito fácil pousar de herói depois que a coisa já aconteceu. No município de Mariana, agora, o MP quer dar uma de herói. Vamos investigar, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo. Por que nada foi feito para evitar? Isto mostra que o MP não tem a mínima condição de assumir o inchaço de atribuições que lhe foi dado ( mas não quer dividir o bolo). O que sobra, pousar de herói depois das coisas acontecerem.
A bem da verdade, em que pese as dilatadas funções do Ministério Público, há sim condições de se fazer um serviço de real qualidade. O problema é que seus membros, sempre sem nenhum controle popular real, estabeleceram que a finalidade precípua do cargo é deixá-los ricos. Assim, implementaram condições para que seus vencimentos fossem às alturas, o que compromete a atividade do órgão. É como em uma empresa. Se essa eleva os salários de alguns poucos trabalhadores em valores absurdos, obviamente não vai sobrar dinheiro para contratar mais pessoal, modernizar o maquinário, e tudo o mais. O Ministério Público brasileiro precisa se democratizar. A balela da "autonomia funcional" vem sendo usada para instituir uma espécie de "soberania", permitindo que o Órgão atue de forma totalmente alheia aos interesses do povo. A "autonomia funcional" serve apenas para por o Órgão foram do controle direto dos outros podes, mas mesmo assim o MP ainda continua sendo do povo pelo modelo teórico. Nos países civilizados promotor é eleito por voto popular. Se não atua, se gasta todo o dinheiro com vencimentos a si próprio, não é reeleito. O Brasil precisa caminhar nesse sentido, e por o povo para decidir sobre o funcionamento do Parquet, muito embora eu venha dizendo isso há muitos anos, inclusive prevendo a crise que se abateria por sobre a República caso nada fosse feito (e a crise hoje está aí para quem quiser ver).
O povo brasileiro elege muito bem os seus representantes. A situação caótica em que se encontra o País bem o demonstra. Os membros do MP não deveriam ser aprovados em rigoroso concurso, mas sim eleitos pelo povo. MAP é o meu candidato. Ele domina bem qualquer assunto. E BB deveria concentrar poderes porque certamente saberia o que fazer com eles. Por que não olham para o pp umbigo?!?
O povo brasileiro elege muito bem os seus representantes. A situação caótica em que se encontra o País bem o demonstra. Os membros do MP não deveriam ser aprovados em rigoroso concurso, mas sim eleitos pelo povo. MAP é o meu candidato. Ele domina bem qualquer assunto. E BB deveria concentrar poderes porque certamente saberia o que fazer com eles. Por que não olham para o pp umbigo?!?
É evidente que o estupro é um crime bárbaro, repugnante, que deve ser combatido com máximo rigor e veemência pelo Estado e por toda a sociedade. Disso só os criminosos e os loucos discordam.
Ocorre que, quando a articulista fala na famigerada "cultura do estupro" e diz que os "autores do crime contam com a aprovação social" ela se afasta da realidade e da verdade, incorrendo num radicalismo político-ideológico que prejudica a credibilidade e a legitimidade de sua manifestação.
Pior ainda quando diz que o PL 5.069/2013, de autoria do Deputado Eduardo Cunha (por quem, friso, não tenho qualquer simpatia, muito pelo contrário), "pretende impedir que as mulheres e meninas tenham pleno acesso ao SUS, dificultando muito o caminho das vítimas de estupro". É simplesmente mentira, certamente decorrente de uma leitura prejudicada - mais uma vez - por uma radicalismo político-ideológico. É isto o que diz o tal PL:
"Art. 1.º O Decreto-Lei n.º 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal) passa a vigorar acrescido do art. 127-A, com a seguinte redação:
“Anúncio de meio abortivo ou induzimento ao aborto
Art. 127-A. Anunciar processo, substância ou objeto destinado a provocar aborto, induzir ou instigar gestante a usar substância ou objeto abortivo, instruir ou orientar gestante sobre como praticar aborto, ou prestar-lhe qualquer auxílio para que o pratique, ainda que sob o pretexto de redução de danos:
Pena: detenção, de quatro a oito anos."
É evidente que o projeto não se aplica às hipóteses de aborto legalizado. Muito menos prejudica o atendimento às vítimas de estupro pelo SUS. Afirmar o contrário é um absurdo incompreensível.
Precisamos sempre ter honestidade intelectual, sob pena de vermos nossos atos e palavras deslegitimados.
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