A Lei 13.964/2019, de 24 de dezembro de 2019, inseriu significativas modificações na legislação processual penal, na legislação penal e na legislação de execução penal.
No que toca à execução penal, a novel legislação apresenta irrefutáveis retrocessos, posto que viola o sistema progressivo de cumprimento de pena, não contribui para a ressocialização (objetivo declarado na LEP), aumenta o tempo de aprisionamento e o gasto público com execução penal, além de não existir nenhuma comprovação de que o recrudescimento da lei penal diminuirá a criminalidade (falácia sustentada por quem defende essa espécie de legislação simbólica e populista).
A progressão de regime prisional, a partir da vigência da lei em 23/01/2020, exigirá um maior período de cumprimento da penal, conforme abaixo demonstrado[1]:
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Requisitos objetivos para progressão de regime de acordo com alterações do "Pacote Anticrime" – Lei 13.964/2019 |
Disciplina legal anterior |
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Sem violência ou grave ameaça |
Primário |
16% – Artigo 112, inciso I, da LEP |
1/6 – Artigo 112 da LEP |
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Reincidente |
20% – Artigo 112, inciso II, da LEP |
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Com violência ou grave ameaça |
Primário |
25% – Artigo 112, inciso III, da LEP |
1/6 – Artigo 112 da LEP |
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Reincidente |
30% Artigo 112, inciso IV, da LEP |
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Crime hediondo ou equiparado |
Primário |
40% Artigo 112, inciso V, da LEP |
2/5 – Art. 2º, § 2º, da Lei 8.072/90 |
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Se houver morte: 50%, vedado o livramento condicional – Artigo 112, inciso VI, alínea "a", da LEP |
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Reincidente |
60% – Artigo 112, inciso VII, da LEP |
3/5 – Art. 2º, § 2º, da Lei 8.072/90 |
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Se houver morte: 70%, vedado o livramento condicional – – Artigo 112, inciso VIII, da LEP |
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Comando, individual ou coletivo, de organização criminosa estruturada para a prática de crime hediondo ou equiparado |
50% – Artigo 112, inciso VI, alínea "b", da LEP |
1/6 – Artigo 112 da LEP |
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Milícia privada |
50% – Artigo 112, inciso VI, alínea "c", da LEP |
1/6 – Artigo 112 da LEP |
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No que diz respeito ao Livramento Condicional, o instituto também sofreu impacto significativo com a vedação da concessão do direito ao livramento, vejamos[2]:
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Requisitos objetivos para livramento condicional de acordo com alterações do "Pacote Anticrime" – Lei 13.964/2019 |
Lei atual |
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Sem violência ou grave ameaça |
Primário |
Sem alteração específica |
Mais de 1/3 – Artigo 83, do Código Penal |
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Reincidente |
Sem alteração específica |
Mais de 1/2 – Artigo 83, do Código Penal |
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Com violência ou grave ameaça |
Primário |
Sem alteração específica |
Mais de 1/3 – Artigo 83, do Código Penal |
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Reincidente |
Sem alteração específica |
Mais de 1/2 – Artigo 83, do Código Penal |
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Crime hediondo ou equiparado |
Primário |
Se houver morte é vedado o livramento condicional – Artigo 112, inciso VI, alínea "a", da LEP |
Mais de 2/3 – Artigo 83, do Código Penal |
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Reincidente |
Se houver morte é vedado o livramento condicional – Artigo 112, inciso VIII, da LEP |
Mais de 2/3, vedado para reincidentes em crimes desta natureza- Artigo 83, do Código Penal |
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Comando, individual ou coletivo, de organização criminosa estruturada para a prática de crime hediondo ou equiparado |
Se houver elementos probatórios que indiquem a manutenção do vínculo associativo, é vedado o livramento condicional – Artigo 2º, §9º, da Lei 12.850/13 |
Mais de 1/3 para primários e mais de 1/2 para reincidentes – Artigo 83, do Código Penal |
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Milícia privada |
Sem alteração específica |
Mais de 1/3 para primários e mais de 1/2 para reincidentes – Artigo 83, do Código Penal |
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Quanto ao tempo de cumprimento de pena, a alteração do artigo 75 do Código Penal alterou o tempo máximo de cumprimento de penas privativas de liberdade em 10 (dez) anos, elevando de 30 (trinta) para 40 (quarenta) o perído máximo de prisão, o que, sem qualquer dúvida, impactará tanto no superencarceramento quanto no aumento de gastos públicos.
Assim, diante desse novo regramento, verifica-se um significativo aumento de tempo de prisão, com o aumento do período para a obtenção de progressão de regime e vedação ao livramento condicional, construção legislativa que contrariou, diretamente, a força normativa da decisão prolatada em 09/09/2015 pelo STF, nos autos da ADPF 347, de relatoria do Min. Marco Aurélio, que declarou o estado de coisas inconstitucional no sistema penitenciário brasileiro.
Na ADPF 347, diante do inegável quadro de superlotação carcerária existente no país e das desumanas condições de encarceramento, a decisão liminar reconheceu que "Presente quadro de violação massiva e persistente de direitos fundamentais, decorrente de falhas estruturais e falência de políticas públicas e cuja modificação depende de medidas abrangentes de natureza normativa, administrativa e orçamentária, deve o sistema penitenciário nacional ser caracterizado como 'estado de coisas inconstitucional (ADPF 347 MC, Rel. Min. Marco Aurélio. j. em 09/09/2015).
Nessa quadra, a superlotação carcerária, embora há tempos presente no sistema penitenciário nacional, foi reconhecida pelo STF no ano de 2015 (na ADPF 347) como caracterizadora do "estado de coisas inconstitucional", e resultou na determinação de medidas para reduzir o superencarceramento, dentre elas, a realização de audiência de custódia em todo o território nacional.
Assim, o reconhecido "estado de coisas inconstitucional" passou a exigir que toda e qualquer manifestação do Estado, seja por meio de decisões de juízes e tribunais, ato do Poder Executivo ou medida Legislativa, tal qual a Lei 13.964/2019, observe a trágica realidade do sistema penitenciário nacional.
Justamente por isso, a Lei 13.964/2019 violou a autoridade da decisão do STF na ADPF 347 em ao menos dois pontos: o primeiro, por não observar o quadro trágico do sistema penitenciário brasileiro no processo legislativo; o segundo, porque a elevação do tempo para obtenção de progressão de regime, a previsão de novas hipóteses de vedação de livramento condicional, e o aumento do tempo máximo de prisão (de 30, para 40 anos), irá resultar em maior tempo de aprisionamento e em significativa piora no quadro de superlotação carcerária, o que, portanto, vai na contramão da decisão do STF.
Não bastasse isso, ao impactar em maior período de encarceramento, a nova lei também violou a Constituição Federal, especificamente o artigo 113, da ADCT, introduzido pela EC n. 95, de 2016, a qual expressamente prevê que "A proposição legislativa que crie ou altere despesa obrigatória ou renúncia de receita deverá ser acompanhada da estimativa do seu impacto orçamentário e financeiro."
Em decisão cautelar prolatada na ADI 6299 no dia 22/01/2020, o Min. Luiz Fux suspendeu a eficácia dos artigos 3º-A a 3º-F, do CPP (Juiz das Garantias), introduzidos pela Lei 13.964/2019, em decisão que, dentre outros argumentos, sustentou a violação ao artigo 113 da ADCT, vejamos:
Outrossim, a criação do juiz das garantias viola o Novo Regime Fiscal da União, instituído pela Emenda Constitucional n. 95/2016. O artigo 113 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, acrescentado por essa emenda constitucional, determina que “[a] proposição legislativa que crie ou altere despesa obrigatória ou renúncia de receita deverá ser acompanhada da estimativa do seu impacto orçamentário e financeiro." Não há notícia de que a discussão legislativa dessa nova política processual criminal que tanto impacta a estrutura do Poder Judiciário tenha observado esse requisito constitucional.
Em suma, concorde-se ou não com a adequação do juiz das garantias ao sistema processual brasileiro, o fato é que a criação de novos direitos e de novas políticas públicas gera custos ao Estado, os quais devem ser discutidos e sopesados pelo Poder Legislativo, considerados outros interesses e prioridades também salvaguardados pela Constituição. Nesse sentido, não cabe ao Poder Judiciário definir qual a prioridade deve ser mais bem contemplada com o uso do dinheiro arrecadado por meio dos tributos pagos pelos cidadãos – por exemplo, se a implantação do juiz das garantias ou a construção de mais escolas, hospitais, ou projetos de ressocialização para presos. Afinal, esse ônus recai sobre os poderes Legislativos e Executivo. No entanto, por estrita aplicação da regra constitucional do artigo 113 da ADCT – aprovada pelo próprio Poder Legislativo – compete ao Judiciário observar se os requisitos para concretização dos interesses que o legislador preferiu proteger obedeceram às formalidades exigidas, especialmente quanto ao estudo de impacto orçamentário.
É evidente que a fundamentação apresentada na decisão do Min. Luiz Fux conduz a segura conclusão de que as normas que aumentam o tempo de cumprimento da pena, assim como aquelas que elevaram os períodos para a progressão de regime e vedam o livramento condicional também afrontaram o comando do artigo 113 da ADCT. Aliás, por certo, o impacto orçamentário e financeiro será muito maior com o aumento de tempo de aprisionamento do que com a criação do juízo de garantias.
Ora, seguindo o raciocínio da decisão do Min. Fux pode-se afirmar que não há notícia de que a discussão legislativa dessa nova política de execução penal, que tanto impacta os gastos públicos (sobretudo do Poder Executivo) tenha observado esse requisito constitucional (art. 113, da ADCT). Seguindo a mesma argumentação apresentada na decisão do Min. Fux, concorde-se ou não com o aumento do período de encarceramento, o fato é que a criação de maiores punições e a nova política de encarceramento gera custos ao Estado, os quais devem ser discutidos e sopesados pelo Poder Legislativo, considerados outros interesses e prioridades também salvaguardados pela Constituição.
Nessa ordem de ideias, é induvidoso que o aumento do tempo de encarceramento impacta diretamente no orçamento, gerando gastos públicos com a elevação do tempo de prisão, sobretudo em regime fechado.
Bem por isso, a inovação legislativa na execução penal, que recrudesceu o tratamento penal e elevou o tempo de prisão e, por consequência, resultará em aumento dos gastos públicos com o encarceramento, deveriam ser previamente discutidos e sopesados pelo Poder Legislativo, considerando outros interesses e, inclusive, outras medidas de combate ao superencarceramento, conforme já decidido no ano de 2015 pelo STF, na ADPF 347.
Assim, tendo em conta o fundamento exposto no voto do Min. Fux na ADI 6299/DF – violação ao art. 113 da ADCT – e o declarado estado de coisas inconstitucional no sistema penitenciário nacional (ADPF 347, Rel Min. Marco Aurélio), há de ser reconhecida a inconstitucionalidade da Lei 13.964/2019 no que toca aos artigos que introduziram modificações no Código Penal e na Lei de Execução Penal para elevar o tempo de pena, para aumentar o período para a progressão de regime ou para vedar a obtenção de livramento condicional.
[1] Quadro elaborado por Bárbara Cristina Lopes.
[2] Quadro elaborado por Bárbara Cristina Lopes.
A polícia brasileira tem capacidade de identificar autoria de mais ou menos 10% dos homicídios dolosos praticados, segundo pesquisas. É razoável presumir que nem todos os indiciados são denunciados, e nem todos os denunciados são condenados.
Suponhamos que amanhã a polícia receba maciços investimentos em tecnologia, e seus agentes recebam capacitação para trabalhar em investigações de crimes contra a vida, elevando o percentual de resolução desses crimes dos atuais 10% para 70%, média dos países avançados.
O que fazer? Não vamos prender esses homicidas, porque as prisões já estão cheias? O Estado de Coisas Inconstitucional é um habeas corpus preventivo aos homicidas? Ou vamos aplicar penas alternativas a crimes dolosos contra a vida?
As perguntas não são retóricas, oxalá sejam respondidas em um artigo futuro.
"[...] a novel legislação apresenta irrefutáveis retrocessos, posto que viola o sistema progressivo de cumprimento de pena, não contribui para a ressocialização (objetivo declarado na LEP), aumenta o tempo de aprisionamento"
Poxa, que pena :(
Agora não se pode mais diferenciar bandido pela gravidade de crime ? É a igualdade comunista no crime
Não pode haver a consideração de nenhuma inconstitucionalidade na lei. Embora o STF e vários juristas adorem defender a igualdade, não é possível dar o mesmo tratamento de um sujeito que rouba um sanduíche para comer, do que é dado para um Lula da vida que rouba bilhões dos cofres públicos. Ou o mesmo tratamento de um sujeito que dá um tapa no bandido que acabou de tentar furtar sua carteira, a um sujeito que integra um esquadrão da morte.
Elevar a pena, não vai aumentar superencarceramento, porque atinge só presos por crimes hediondos e/ou violência física grave. O que já deveria ter sido observado há vários anos, mas parece nunca entrar na cabeça dos legisladores e dos ativistas jurídicos dos pseudo-direitos humanos. Digo pseudo porque nunca os vi defendendo as vítimas dos crimes, só os meliantes que os praticam.
Ontem assisti uma vídeo de um defensor com os mesmos argumentos. Me desculpem. todos equivocados. A lei nova que agrava a situação do réu só se aplica a casos futuros, então levaremos 40 anos para se tem o primeiro impacto de tal encarceramento. Mas não é só isso. A nova lei inovou no tocante a concessão da ordem de prisão e a sua manutenção. Primeiro que para prorrogar prisão, agora se faz necessário ouvir o réu; que o fundamento seja contemporâneo, ou seja atual, ao findar o IP o delegado já não terá a facilidade para se conseguir a prisão de indivíduos perigosos, e a junção desses quesitos com a obrigatoriedade de se rever a prisão a cada 90 dias abrirá por certo as portas para a maioria esmagadora de criminosos, pois a somatória é impossível de superar. Por derradeiro a sociedade ficará muito mais feliz em pagar pela contenção desses indivíduos, do que pagar através do Estado indenização para as vitimas. Ah, as vitimas nunca são contempladas, nem lembradas, assim resta chorar. Mas esse mantra criado pelos que defendem que bandido bom é bandido na rua, não vai colar.
É absolutamente ultrajante o que se afirma aqui. Daqui a uns anos estaremos a defender o "direito de delinquir". O Brasil é o único país do mundo cheio de pessoas defendendo o abolicionismo penal e o aprisionamento da população de bem como forma de combater a criminalidade. É tamanha a insanidade desses argumentos que só nos resta torcer para que tais defensores da criminalidade jamais assumam cargos importantes na República. Qualquer americano ou alemão médio iria sair correndo por aversão quando ouvisse algo absurdo. Mas lá existe lei... Deus queira que o Presidente encha de Moros o Supremo.
Nunca li tanta besteira na vida.
deixei pra lá.
É um artigo evidentemente eivado de vício de origem, dada a profissão do subscritor.
Ao que tudo indica, para alguns, a ressocialização é o maior valor a ser protegido pelo ordenamento, e não a vida.
Tipo: a vítima já morreu, deixa pra lá, vamos "proteger" a vida do assassino.
No futuro, teremos que tomar remédios para diminuir os vírus, mas não para ficarmos curados, porque os vírus também tem o direito de subsistir.
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