A dois dias do início de uma das maiores reuniões de representantes do Judiciário, o II Encontro Nacional de Juízes Estaduais, o presidente da Associação Paulistas dos Magistrados (Apamagis), Celso Limongi, não gastou munição e apontou sua metralhadora verbal em direção à súmula vinculante.
Em entrevista à revista Consultor Jurídico, Limongi acusou o Banco Mundial, do qual o maior acionista é os Estados Unidos, de ser o patrocinador das reformas nos Judiciários da América Latina. No Brasil, o órgão seria, segundo ele, o maior interessado na adoção da súmula vinculante. Tanto o banco quanto o governo estariam “interessados em constituir um Judiciário fraco, previsível e favorável aos conglomerados internacionais”.
Na entrevista a seguir, Limongi também falou dos temas que serão abordados no encontro, marcado para os dias 10 e 11 de outubro (domingo e segunda-feira), por ironia, na Câmara Americana de Comércio. Tratou, ainda, de questões como o poder de investigação criminal pelo Ministério Público.
Leia a entrevista
Qual é a “Justiça que queremos” que dá nome ao evento?
Em primeiro lugar temos de reconhecer a necessidade de união dos juízes. Isso não significa tratar de temas corporativistas, mas de aspectos que justifiquem e garantam o estado democrático de direito. Queremos que o Judiciário continue tendo as garantias de independência que sempre teve e que a Justiça seja efetiva. O que adianta decidir se a determinação do juiz não é cumprida? Precisamos, também, organizar a Justiça de acordo com o interesse da sociedade, da qual somos meros servidores. Nosso Judiciário é o melhor da América Latina.
Em que aspectos?
Aqui, os juizes de primeira instância podem reconhecer a inconstitucionalidade de uma lei, por exemplo. Temos a vantagem do chamado controle difuso, diferentemente do controle concentrado que se vê na Europa e em outros países, onde essas decisões são dadas apenas pelos tribunais superiores. Outro ponto positivo são as garantias concedidas aos juízes, como a vitaliciedade, a inamovibilidade (a prerrogativa de que o juiz não pode ser transferido de comarca contra sua vontade e só será promovido se assim quiser) e a irredutibilidade dos rendimentos. Nossos juízes permanecem no cargo até os 70 anos, não são removidos das comarcas e não têm os vencimentos reduzidos, o que garante que ele terá independência para poder julgar um caso sem temer a perda do cargo. Também não há injunção do poder Executivo ou Legislativo. Os tribunais se auto-governam.
Como, efetivamente, acontece esse descumprimento das decisões?
Muitas vezes as decisões dadas pelos juízes são frustradas. Como podemos admitir que o débito de um precatório afirmado pela Justiça demore anos para ser pago? Isso não tem sentido, é uma humilhação para os credores dos executivos federais, estaduais e municipais. Os credores de precatórios são nossos maiores clientes. O devedor, por seu lado, sempre busca meios de furtar-se ao cumprimento da condenação. Precisamos de uma Justiça ágil e efetiva que faça cumprir sua determinação. Não adianta proferir a condenação se o réu desaparece com seu patrimônio e o credor fica sem a penhora.
Que medidas podem ser tomadas para a garantia do cumprimento das decisões?
É necessário que os Códigos de Processo Civil e Penal sejam alterados. É neles que estão as características técnicas para obter a solução. As garantias já existem na Constituição Federal e são próprias do estado democrático de direito. No entanto, precisamos preservá-las nos pontos em que a lei não é muito clara. Esse é o caso da instituição da súmula vinculante.
Qual o maior problema da adoção da súmula vinculante (prevista na reforma do Judiciário)?
A súmula vinculante fará com que tenhamos sempre decisões previsíveis, o que interessa muito ao Banco Mundial. Ele é, em tese, o patrocinador da reforma Judicial dos países da América do Sul e do Caribe.
Como assim?
O Banco Mundial possui contratos padrão e quer que as decisões sejam de acordo com esses contratos. Isso irá custar o sucateamento indústrias nacionais em favor dos grandes conglomerados econômicos financeiros.
Qual é a alternativa para se chegar a uma Justiça mais célere?
Outro caminho é a adoção da súmula impeditiva de recurso. O problema da súmula vinculante é seu caráter político. Imaginemos a futura composição do Supremo Tribunal Federal [que é quem determina as súmulas vinculantes], que é um órgão político, caso o PT nomeie os 11 ministros. Não é difícil prever que o STF irá ceder a pressões de grupos e do governo federal. A súmula vinculante, como já diz o nome, vincularia toda a magistratura a tomar decisões em benefício das empresas globalizadas e do governo, que também tem interesse em ver o Poder Judiciário fraco e previsível. O governo sabe que os investimentos virão se o Judiciário for um órgão previsível. Já a súmula impeditiva de recurso não vincula os juizes inferiores. Eles podem ou não aplicar o entendimento prévio.
A medida pode ser classificada como propulsora do enfraquecimento do Judiciário?
Sim. E além dela temos o controle externo do Judiciário, que é outro ponto que contribuirá para o enfraquecimento da Justiça. O problema do controle externo reside no fato de ele propiciar a intromissão de políticos na magistratura, indicados pela Câmara de Deputados e pelo Senado. A saída está em o controle ser feito por um conselho nacional formado por magistrados.
Não há risco de esse conselho ser corporativista?
Acho que não. Até pela questão geográfica. O conselho teria Brasília como sede. A eqüidistância dos interessados com o órgão barraria o corporativismo.
Há algum outro ponto negativo nas propostas da reforma do Judiciário?
Há ainda a mudança na Lei Orgânica da Magistratura (Loman). Não conheço bem o anteprojeto, mas sempre se discute muito sobre as férias dos juizes, divididas em dois períodos de 30 dias. O que não é levado em consideração é que os juizes não podem exercer nenhuma outra atividade além da magistratura, incluindo cargo político, o que reduz a possibilidade de ganhos. A única coisa que podem ser é professor. [O salário base para a carreira de juiz em São Paulo é de R$ 5,8 mil brutos]. Outro aspecto do qual as pessoas parecem se esquecer é que o juiz não ganha hora extra, não tem sábado e domingo, e trabalha, via de regra, num regime de excesso de horas desumano. Em média, os juizes trabalham 14 horas por dia. Sem contar que é um trabalho exaustivo, que requer o exame de volumes de processos com 30, 50 volumes. Somos submetidos, ainda, a um árduo e duríssimo concurso público e temos de comprar livros e revista do nosso próprio bolso. É muito diferente da empresa privada.
Qual a posição da Justiça estadual hoje no Poder Judiciário como um todo?
Existe a tendência de o governo federal, o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça, em tentar reduzir a importância das Justiças estaduais, o que é uma profunda injustiça. Os juizes estaduais são os mais próximos do cotidiano da população. São eles que decidem sobre temas como Direito do consumidor, Direito de família e sobre os benefícios previstos para a ressocialização do sentenciado. A Justiça eleitoral, por exemplo, que deu um verdadeiro espetáculo de eficácia, tem por base a Justiça estadual. É um grande engano dar tratamento que possa desqualificar a Justiça estadual.
Qual a posição do senhor em relação ao poder investigatório criminal do Ministério Público?
Acho que o Ministério Público pode e deve investigar, mas precisa ser controlado por outro órgão. Esse controle deve ser feito justamente pelo Judiciário. Não se pode permitir que exista investigação ampla e irrestrita, sem que haja outro órgão para fiscalizar a atividade do MP. A prerrogativa também depende de uma Emenda Constitucional que expresse a autorização da atividade. Do jeito que está hoje [na Constituição Federal], o Ministério Público não pode investigar.
A programação do evento prevê o painel “Comunicação e Pesquisa”. Sobre o que ele irá tratar?
Os juizes têm como tradição não conceder entrevista. O Judiciário não se comunica e isso nos afastou da sociedade. A população não conhece o Judiciário. É preciso que criemos um canal com a sociedade e que façamos pesquisas para descobrir o que ela espera de nós e quais os aspectos que considera negativos. Precisamos de estatísticas. Esses dados serviriam para o Judiciário se adaptar melhor às necessidades da população.
Segundo uma pesquisa que fizemos no primeiro semestre, a visão das pessoas é de que os juizes trabalham muito. Os entrevistados reconhecem que somos honestos, mas disseram que a Justiça não funciona. Esse levantamento será apresentado no painel e discutido com os participantes. Temos a preocupação em mostrar o que o Judiciário é verdadeiramente e de que essa imagem seja um reflexo da verdade, seja ela boa ou mal. Queremos que nossa atividade seja eficaz e que, perdoe-me o pleonasmo, a Justiça seja justa.
E quanto ao painel “Por uma Política de Tolerância – Administrando as Diferenças”, que tem o deputado Fernando Gabeira como palestrante?
Não se pode falar que existe igualdade no Brasil. A igualdade aqui é somente perante Deus. Temos de começar a pensar na minoria, nos excluídos, a interpretar a Lei de acordo com o que propõe a Constituição Federal, que é a social-democracia. Nosso objetivo deve ser a inclusão e não a exclusão. Há de se reconhecer, nas decisões, os direitos das minorias. Temos de cumprir o artigo 3º da Constituição Federal, que determina que a constituição de uma sociedade justa e igual.
Afirmar que o Banco Mundial, ou qualquer organismo estrangeiro, seja o patrocinador da introdução da Súmula V. no Judiciário Brasileiro é demais. É assustador saber como é a percepção de realiade que observamos em alguns Magistrados. E são estas pessoas que decidem nossos destinos... que Deus tenha piedade de nós.
José Augusto Magni (Estudante de Direito - Goiânia - GO) - 09/10/2004 - 09:11.
É interessante observar que nem mesmo "nossos" magistrados acreditam no direito brasileiro, ou seja na justiça brasileira. Será que estão preocupados com isso? Como podemos aceitar que o STF (Supremo Tribunal Federal), sendo " o guardião da Constituição" seja subordinado ao poder Legislativo e Executivo. Por quê são estes que escolhem os ministros supremissímos ? Não entendo, também, o porquê que "nossos" magistrados aceitam essa subordinação, será que a Vsª. Exª. Celso Limongi, juíz estadual, poderia responder essa pergunta?
Lúcida e lícita entrevista, que só vem trazer luz a nós, brasileiros inermes diante da voracidade do capital estrangeiro.
De fato, só poucos conseguem enxergar um pouco além do que permitem os olhos carnais. O Brasil de hoje, em sua estrutura de Cortes Superiores, vem demonstrando o que decisões de caráter meramente político podem fazer: colocar a população em situação de absoluto desamparo.
Os bancos são e continuarão a ser os reais detentores do poder em nosso paíspor um bom tempo ainda, portanto, não há nada de surpreendente na afirmação de que o Banco Mundial tem interesse na Súmula vinculante, instrumento nefasto que só tem por escopo dar continuidade ao regime servil que tanto tem maculado a nossa nação.
É preciso coragem para ser honesto e cândido nas afirmações. Isso esperamos dos homens comprometidos com a consecução do bem-estar social. É preciso procurar compreender onde reside o resultado matemático que permite a certos componentes do poder, em suas três esferas, gozar de vida nababesca em virtude apenas dos ganhos oficiais...
O Brasil está, gradativamente, se tornando uma nação de corruptos, verdadeiros morcegos que atuam durante a luz do dia sugando não apenas o sangue da população sofrida, mas acabando com a alma da confiança e esperança no porvir.
É preciso que os escândalos eclodam!
É preciso um Judiciário livre, sem qualquer tipo de amarras, porquanto no Legislativo nenhuma confiança existe, caminho que está sendo adotado pelo Executivo. Acreditamos no Judiciário sem Súmula vinculante, mormente por não acreditarmos em prestação jurisdicional de corte composta politicamente.
A transparência é meio; o fim da corrupção, objetivo mor...
Contrariemos o que nos legou a Águia de Haia: não tenhamos vergonha de nos proclamarmos honestos...
Uma sociedade oprimida como está a nossa, se presente a desconfiança absoluta, pode adentrar o estado de comoção intestina, quando, então, os ditos poderosos certamente serão os primeiros a caminhar para o lamentável patíbulo...
Vergonha!
A ausência da súmula vinculante somente é "uma pedra no sapato" dos poderosos porque quando a sentença transita em julgado os vencedores da ação são sempre os mesmos, resta dizer, o poder econômico. E há quem atribua a responsabilidade pelas sucessivas vitórias processuais dos grandes conglomerados ao notável saber jurídico de seus advogados. Será ? Enquanto náo se encontra uma solução mágica, favorável à população, que se mantenha o modelo atual.
Gilberto Aparecido Américo
advogado
Em tempo: Por que o Conjur náo pede ao Dr. Celso Limonge para escrever um artigo e detalhar o modo como se dá a indevida intromissão do Banco Mundial em negócios internos do Brasil, assim como explicar melhor o conseqüente sucateamento da indústria nacional.
A instabilidade jurídica é muito prejudicial ao desenvolvimento de um país. A morosidade da justiça em cobrar dívidas também é outro fator terrível. A Súmula vinculante possui seus defeitos, sem dúvida. Mas do jeito que está é impossível que este País melhore. Não sei se a súmula ia deixar a coisa pior do que já está.
Em tempo: qual é o problema da "súmula" deixar as decisões previsíveis? Hoje, determinadas causas são uma verdadeira loteria. É muito difícil explicar para o cliente que ele perdeu uma causa igualzinha àquela que o colega dele ganhou. Esta situação nós vemos no dia a dia, e é um dos maiores motivos de descrédito das instituições.
Confesso que acho estranho essa pergunta, qual é o problema da "súmula" deixar as decisões previsíveis?, que ja ouvi algumas vezes no bancos da faculdade. Sem dúvida com a sumula vinculante estaremos transformando nossos juizes em apenas maquinas que vão assinar e carimbar.
Admito que fico completamente decepcionado com isso, sem dúvida quem concorda com a sumula não aprendeu a pensar assim nos bancos da faculdade.
Discutir doutrinariamente questões reais no Judiciário não é aplicar Justiça. O que se tem atualmente é um emaranhado de decisões antagonicas e ilógicas, que ao inves de distribuir Justiça, tem criado no intimo do povo uma insegurança e uma descrença.
A estabilidade jurídica é fundamental nas relações sociais. O povo tem que saber o que pode e o que não pode fazer. Dizer que sim e que não ao mesmo tempo não leva a nada.
Mesmo Ihering, quando manifesta que o direito é conquistado pela luta, acrescenta que sua finalidade é a paz. Quando o povo não tem ideia do que seja o seu direito, pois as decisões antagônicas são tantas que ele nem sabe o que fazer, não é possivel lutar por coisa alguma.
A sumula vinculante define o que se pode fazer e o que não se pode, e aquele que buscar seu direito sabera exatamente o que esta fazendo e porque, o que não ocorre hoje em dia.
Não é possível ter medo da estabilidade juridica. A lei e a ordem social tem de ser cumprida e não interpretada doutrinariamente. O povo precisa de Justiça e não de doutrinadores. Já dizia Kant, que o conhecimento não é fundamento se julgar.
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