Quando um octogenário chora pela mãe nos ombros de uma enfermeira, tem-se inversão do sentido cronológico da vida. Há algo de estranho. Tem-se problema de ajuste da experiência com o tempo. Octogenários, em princípio, choram por filhos e netos, e muitas vezes o estigma do abandono é o motivo da dor. Tem-se uma queda, uma regressão, uma forma de humilhação. É justamente essa cena que marca um dos pontos mais angustiantes do filme "Meu Pai", dirigido por Florian Zeller e estrelado por Anthony Hopkins (o pai) e Olivia Colman (a filha).

Florian Zeller, francês, nasceu em 1979 e destaca-se também como escritor. No Brasil, a Editora Rocco traduziu e publicou, entre outros, seu "A fascinação pelo pior", um livro sobre o choque de culturas, que deixa um pouco a desejar, com imagens óbvias de um Cairo imaginário. Para um abalizado crítico brasileiro (Joca Reiner Terron), Zeller, como escritor, é um pastiche do Houellebecq. Como diretor, parece-me, saiu-se melhor. Bem melhor.
Anthony Hopkins levou seu segundo Oscar pela atuação. O primeiro fora com "O silêncio dos inocentes". Há uma circunstância simbólica que marca essa última premiação. Hopkins seria o ator mais idoso a levar o prêmio e o filme aborda, de fato, o drama da velhice. E que drama.
"Meu Pai" é um filme que trata do tempo, e da forma como o tempo nos consome. Na opinião de Ovídio, escritor romano que foi expulso da cidade, o tempo é um devorador de coisas e de pessoas. Ovídio viveu no tempo de Augusto. Recentemente, em gesto marcado por intenso simbolismo, a Câmara de Vereadores de Roma revogou o decreto de expulsão de Ovídio, dois mil anos depois. Em Florença, há pouco tempo, revogou-se a expulsão de Dante Alighieri.
Nítida a intenção de se fixar uma linha de continuidade, situação muito propícia na conjuntura política atual. Em tempo: a Igreja perdoou Galileu. Sério: em 1992 Sua Santidade o papa João Paulo II reconheceu os erros da Inquisição nesse tumultuado processo. Às vezes, nem a absolvição resolve. Foucault, um insuspeito pensador francês, nos ensinou que toda absolvição é a confissão de um erro judicial.
O tempo anula, apaga, faz esquecer. Mas, ao mesmo tempo, porque é tempo, o tempo ressurge. É implacável. Hopkins (no filme, Anthony, como na vida real) reiteradamente perde e encontra e perde de novo e encontra de novo seu relógio de pulso. O espectador percebe uma metáfora que é menos do esquecimento do que efetivamente da contagem das horas. Um poeta inglês dizia que devemos cuidar dos minutos, justamente porque das horas e dos tempos maiores o próprio tempo se encarrega de cuidar. No filme, a obsessão de Hopkins com relógios é tanta, que se incomoda com os relógios dos outros também, a exemplo do relógio do genro, que sugere ter sido furtado.
As cenas todas se desdobram em planos intimistas, em um apartamento em algum lugar de Londres (Lauderdale Road, lê-se na placa de rua em algum dos planos) bem em frente a uma loja (real ou imaginária) chamada "Avalon". Os familiarizados com o ciclo de lendas do Rei Arthur reconhecem em Avalon uma ilha lendária, repleta de deliciosas maçãs, uma dimensão do paraíso. Há também uma linda canção dos anos 80 (de Brian Ferry e de sua banda Roxy Music) que explora essa imagem idílica. Avalon, em forma de paraíso, estava bem em frente ao apartamento de Anthony. A partir de um determinado momento do filme a loja não está mais lá. Há um menino na rua, que brinca, numa sequência de quase piruetas que encanta o velho homem perdido nas memórias.
O espectador sente-se tão confuso quanto o personagem central. Até um certo momento, crédulo na sequência linear da narrativa, o espectador acredita efetivamente no que assiste. São poucos personagens, não passam de meia dúzia. Porém, a forma confusa como Anthony os vê exige que o espectador ordene suas ideias. Anthony ilude a todos, e talvez a si mesmo. Tem-se a impressão de que é fiel a seus pensamentos. Não é manipulado por uma realidade que tentam lhe impor, e pode ser o único de todos (incluindo-se todos os espectadores) que realmente interpreta o mundo real. Enganamo-nos.
Há tentação de cair-se no apelo dramático da violência das patologias degenerativas. Tem-se quase sempre uma lembrança familiar. O espectador de algum modo pode hesitar entre solidarizar-se com a dor de Anthony (que é o esquecimento) ou com a dor de sua filha (que sofre com a decadência do pai). Essa imprecisão, penso, é uma das chaves interpretativas do filme. O espectador mais desconfiado coloca em dúvida a honestidade dos propósitos da filha. Há uma cena fundamental, rapidíssima, na qual a filha parece enforcar o pai. No entanto, porque a maioria das cenas pode se revelar como um delírio de Anthony, duvida-se dessa possibilidade. Nesse momento, quem delira é o espectador.
Miguel Reale, em "Lições Preliminares de Direito", livro que é um ritual de passagem, conta-nos que advogou para um casal de idosos em uma ação de alimentos. O demandado era filho do casal, empresário, de grande capacidade econômica. Reale referia-se à velhice, que no contexto de uma compreensão realística da vida seria a pior das enfermidades. Ainda que o demandado tenha se curvado a uma ação de alimentos, restava para os demandantes uma certa humilhação, que talvez nos esclareça os sinistros limites entre o direito e a moral.
"Meu Pai" é um argumento substancialmente moral, de compaixão. É o que sentimos por Anthony, e por todos que estão e que não estão nas cenas tão rápidas. No inconsciente talvez nos perguntemos se o pior seria a degeneração (que talvez não seja perceptível) ou a proximidade com o paciente; isto é, se tomamos a velhice (e a demência) como patologia e a predisposição para o cuidado como um fardo.
A cena final do asilo sugere a ruptura com a família. É o corte, o que talvez explique o choro nos ombros da enfermeira. A ruptura transforma-se em aparente loucura. Na forte imagem do pensador francês acima citado, "a loucura é o exterior líquido e jorrante da rochosa razão". Em "Meu Pai" a razão desassiste a todos. E esse pode ser seu maior encanto.

"Florian Zeller (Paris, 28 de Junho de 1979) é um escritor francês. Seu primeiro livro publicado no Brasil se passa no Cairo e traz as diferenças culturais de dois mundos. Foi galardoado com o Prix Interallié em 2004, pela obra La Fascination du Pire. Ele é, segundo o The Times, "o dramaturgo mais emocionante do nosso tempo" (Fonte Wikipédia).
A velhice faz pensar que a vida é finita.
"a velhice é implacável", muitos dizem, e meu saudoso pai acrescentava uma explicação, para tornar bem claro o significado da frase :
"A velhice é implacável, vemos todo dia no espelho que não há a menor possibilidade de melhorar o que quer que seja"
Não vi esse filme, mas vou procurar, tanto por admirar Anthony Hopkins como ator como pela temática, pois no filme que ele estrelou - "Encontro Marcado" (1998) - foi meu pai que me fez ver certo dia, em 2000, alguns meses antes de seu falecimento. E conversamos sobre a temática da morte, o personagem do filme tinha somente duas filhas, assim como o meu pai, e estava na mesma idade do meu pai na época. Na minha família, tanto do lado paterno quanto materno, o assunto "morte" é muito bem resolvido, nas palavras de um primo "tanto antes, durante e depois". Certamente esse modo de encarar a vida (um desafio à morte) foi um dos muitos pontos em comum que uniram meus pais por décadas. Sem nenhuma vinculação religiosa, encaravam a "morte" como um momento, um episódio na continuação da vida em outro plano. Esse basicamente o significado, e um alerta para "os que ficassem" não passarem o resto de suas vidas chorando quem foi, mas vivendo da melhor maneira possível, afinal "a vida é curta" e, a qualquer momento "não sei se estou vivo amanhã". Quando vi o filme "Encontro Marcado" com meu pai, ele falou muito na própria morte. Minha mãe já havia comentado comigo que, nos últimos tempos, ele andava falando muito em morte. Quando ele falou demais naquele dia em que vimos o filme, eu só consegui responder "preocupe-se em viver, não em morrer". E ele mudou de assunto. "Viva cada dia de sua vida como se fosse o último, e um dia você estará certo".
A morte repentina é chocante, e demoramos muito tempo para assimilar a ausência da pessoa, sobretudo se é jovem. A pessoa longeva, quando padece dos males da velhice (muitas doenças crônicas) e mesmo a degeneração mental, é um estado difícil de conviver, tanto para a própria pessoa quanto para seus familiares. "Não é mais a pessoa", é como muitos se expressam, é realmente doloroso. É ainda mais doloroso quando vemos pessoas longevas com boa saúde e uma lucidez mais fulgurante do que a nossa. Foi o caso com minha mãe e minha tia-avó, a maestrina Dulce do Rocio, cujo diploma no Conservatório Musical é assinado por Heitor Villa Lobos. A tia Dulce, que está com 96 anos, é irmã de meu avô materno, que teve sete filhas, sendo a minha mãe a filha do meio. Toda essa geração de sobrinhas já se foi e alguns sobrinhos netos, como a minha irmã. E a tia Dulce conversa comigo sobre a família, e me abençoa de um jeito que eu sinto algo transcendental. Para concluir este comentário, vou compartilhar uma conclusão que tirei de meus estudos sobre Astrologia para quem possa interessar. A primeira coisa a dizer é que a minha definição de Astrologia é de que "é a ciência que estuda o tempo e seu significado". E o significado somos nós que realizamos diariamente com nossos atos, omissões, opções. Dentre os planetas que influenciam as pessoas, destaca-se Saturno, que os gregos chamavam de "Cronos", o deus do tempo. A "órbita de Saturno" no horóscopo individual fica entre 28 anos e meio a trinta anos. Isto significa que, uma vez registrada a posição de Saturno no momento de nascimento, Saturno retornará à mesma posição entre 28 anos e meio a trinta anos depois. Desse modo, pode-se dividir a vida em três períodos de trinta anos. Pense nisso.
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