Se despiram a escrivã, o que não estarão fazendo contra os pobres?

Esse grande advogado de defesa que é Alberto Zacharias Toron recebeu fortes críticas anos atrás, durante a Operação Navalha, por afirmar ser o tratamento dispensado, pela então onda de operações, a democratização do tratamento conferido a pretos, pobres e putas; ou seja, enraizado em ilegalidades, afogado em vícios.

A novidade de então era a humilhação e afronta aos ricos.

Arnaldo Malheiros Filho escreveu ainda ontem, nessa mesma Consultor Jurídico, sobre o absurdo que é vídeo publicado no YouTube em que escrivã de polícia é deixada com as vergonhas à mostra, depois de ter contra si um inventário de ilegalidades; não só expondo-a a população como se fazia com as antigas bruxas, como maculando, para sempre, a apreensão de dinheiro que esse ensaísta não entendeu de onde foi retirado.

Filmaram o constrangimento, filmaram a humilhação, filmaram as ofensas, os pedidos por dignidade e discrição, mas o dinheiro não se viu de onde veio.

Ocorre, porém, que falar do caso concreto, falar sobre culpas e expurgações, não é permitido aos homens de bom senso, principalmente aos advogados de defesa.

A humilhação e culpa penal da escrivã, e a possível culpa de integrantes da Corregedoria da Polícia Civil, serão analisados nas ações próprias, como sempre clamam os criminalistas quando são seus clientes os acusados.

Todos têm o óbvio direito de análise e crítica, mas devemos evitar nomes e exposições típicas de caça às bruxas. Principalmente, devemos evitar a covardia de atacar aqueles que estão na posição de oprimidos. Waldir Troncoso Peres bem ensinou para os tempos futuros: “o réu é sempre o oprimido”. 

Réus é vítimas merecem respeito, não só porque tal princípio está nas entrelinhas da lei, mas porque somos civilizados – educados, para ser mais claro.

A análise útil ao futuro e à advocacia é simples: se estão fazendo isso com escrivãs, o que estão fazendo com os pretos, pobre e putas lembrados por Toron – esses sim os clientes preferidos do Estado-Polícia?

Como sempre acontece, alguma força muito estranha protege o Estado junto à imprensa e, grandes escândalos do Poder Público Paulista não são lembrados nem tem seus desfechos verificados pelo quarto poder.

Tempos atrás se afirmou enorme o número de Delegados que seriam investigados pela Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, quer por corrupção, extorsão e até por tortura. Parece que mais de um quarto do contingente da polícia judiciária estadual.

Nada mais se ouviu sobre isso. Agora temos esse caso, que logo será esquecido.

Curioso: dos cidadãos comuns, escolhidos pela imprensa e sua opinião pública, ninguém esquece.

Não ficarei aqui citando autores, romancistas, contistas, fatos históricos e causas célebres. Nesses momentos de espanto – pois não acreditamos que um dia viria a público o que sempre afirmamos – precisamos ser objetivos, menos chatos e pomposos.

Comprovou-se o que os criminalistas – tão odiados – sempre afirmaram existir.

Eis a cultura investigativa brasileira e não se duvide mais disso; enfim à luz o encoberto por autoridades judiciárias e ministérios públicos ao aplicarem o princípio da inércia se a acusação é contra o Estado e o in dubio pro societate, quando a acusação é contra os PPP.

E assim vamos. Imaginem pra onde.

Thiago Gomes Anastácio

é advogado criminalista.

Liberdade sim e Estado se e somente se for necessário disse:
25 de fevereiro de 2011 às 12:23

Resposta à questão posta: estão fazendo demagogia. O caso da escrivã expulsa da polícia teve suas peculiaridades, todas desprezadas pela emissora Band, que se arrogou como advogada de defesa da mulher (fato ideológico que mais pesou). Imaginei que os operadores do direito não cairiam na péssima pegadinha da Band (só pode ser pegadinha, porque reportagem aquilo não foi e não tem sido). Lamentável as autoridades paulistas cederem às pressões de tamanha manipulação “jornalística”.

vicente53 disse:
25 de fevereiro de 2011 às 13:09

O Policial.

Roselane disse:
25 de fevereiro de 2011 às 14:45

CONCORDO PLENAMENTE COM O ARTIGO, ISSO SEMPRE TERÁ!
PARA QUEM ASSISTIU O VÍDEO NA ÍNTEGRA, CONSTATA A BRUTALIDADE, ARROGÂNCIA, MACHISMO DESSES TROGLODITAS FANTASIADOS DE POLICIAIS.
IMAGINE O QUE ELES FAZEM COM AS MULHERES DELES! DEVE SER SOMENTE TAPAS E BOFETADAS!
AS CENAS SÃO TERRÍVEIS, CHOCANTES E PARA NÓS MULHERES NOJENTA. FERE A ALMA, ATACA A DIGNIDADE HUMANA, DIMINUI A PESSOA,POIS NINGUÉM TEM O DIREITO DE TOCAR NO NOSSO CORPO SEM PERMISSÃO. E ISSO SÓ ENTENDE QUEM É MULHER OU TEM FILHA.
ESSES POLICIAIS TÊM QUE SER PUNIDOS SEVERAMENTE, ASSIM COMO TODOS OS ENVOLVIDOS.
SE A ESCRIVÃ TINHA CULPA, TINHA MÉTODOS DE INVESTIGAR DECENTEMENTE. SE NÃO USARAM, ISSO EU CLASSIFICO COMO INCOMPETÊNCIA DA POLÍCIA.
NO ENTANTO, ELES CONSEGUIRAM COM MUITO ÊXITO: REDUZÍ-LA A LIXO, TALVEZ COMO ELES AGEM COM TODOS OS SUSPEITOS.
ROSELANE
OAB/SP

Olho clínico disse:
25 de fevereiro de 2011 às 17:42

Concordo com quase tudo. Ali no funal o autor esqueceu de citar, além dos Judiciários e Ministérios Públicos, os Advogados que mentem, forjam provas, protelam os processos, ficam com dinheiro dos clientes,ingressa, em demandas fantasiosas, se aliam ao tráfico. Afinal, a Advocacia também faz parte das funções essenciais à Justiça, e também tem suas laranjas podres, como qualquer outra instituição, correto?

Raul Haidar disse:
26 de fevereiro de 2011 às 09:10

Realmente há advogados que cometem atos terríveis. Mas para isso existe o Tribunal de Etica e Disciplina da OAB, onde não existe corporativismo algum, mas um rigor que às vezes chega a ser exagerado. Qualquer pessoa pode denunciar qualquer advogado. Basta que se identifique e que aponte o fato com clareza. Pelo que sei há cerca de 12.000 processos disciplinares no TED de SP, relacionados com infrações éticas. Há muitos casos de exclusão e as penas são divulgadas pelo diario oficial a todas as autoridades. Pois bem. Temos no Estado cerca de 250.000 advogados, mas as punições não chegam a 2% do total. São cerca de 5.000 advogados (ou menos, pois alguns sofrem mais de uma punição) . Isso indica que: NOVENTA E OITO POR CENTO DOS ADVOGADOS agem corretamente. OU seja: a esmagadora maioria dos advogados são sérios. O que aparece na mídia são sempre as exceções. Isso acontece porque é notícia. Noticia é quando o homem morde o cachorro, não quando o cachorro morde o homem. Finalmente: advogados não protelam processos, pois somos os unicos participes obrigados a cumprir prazo. Já fiquei 3 dias seguidos praticamente sem dormir para fazer uma petição cujo prazo era de 5 dias e depois esse meu trabalho levou 60 dias para ser juntado pelo cartório e mais de UM ANO para um juiz fazer um despacho de 2 linhas! E o despacho estava totalmente errado, pelo que fui obrigado a fazer um agravo...Quem protela processo é o juiz ou os seus subordinados. Ou um procurador da fazenda que não devolve os autos no prazo...Não podemos generalizar. Há advogados ruins, sim: são cerca de 2% conforme as estatisticas. Seja em relação a advogados ou "outros". Qualquer generalização é injusta.

Gilberto Strapazon - Escritor ocultista. Analista de Sistemas. disse:
28 de fevereiro de 2011 às 08:32

Por uma torpe condição, inverteu-se uma criminosa amplamente descoberta, tornando-a em vítima. Certamente nada aprovo daquilo que foi praticamente uma curra filmada e distribuida ao mundo. Mas infelizmente, tal ato, talvez até de impensada vingança pelas emoções daqueles que eram seus colegas, e portanto traídos profundamente, infelizmente acaba por transformar a ré em vítima. Todos perdem.

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