O debate sobre o Projeto de Lei 4.330/2004, que trata da regulamentação da terceirização, precisa ser melhor compreendido, diante da postura dos empresários, do governo, dos parlamentares, dos magistrados e dos trabalhadores.
A regulamentação da terceirização é uma necessidade, tanto para assegurar direito aos trabalhadores, quanto para dar segurança jurídica a quem contrata os serviços. Mas o texto proposto não se presta a esse propósito. Ele pretende apenas ampliar o escopo da terceirização e precarizar direitos trabalhistas.
Nesse debate os atores se movimentam com visão e interesses nem sempre convergentes, como se pode depreender da leitura dos próximos parágrafos.
O setor empresarial tem jogado todas as fichas nesse projeto, incluindo os empresários que não atuam no ramo da intermediação de mão-de-obra, porque o texto será o primeiro e fundamental passo na direção do completo desmonte do Direito do Trabalho, além de criar a possibilidade de contratar serviços bem mais baratos em substituição aos empregados próprios.
Os empresários, que são os principais financiadores de campanha no país, estão pressionando os parlamentares para que votem a matéria. Estima-se que uma eleição para a Câmara dos Deputados não fique por menos de R$ 2 milhões, daí a tentação dos parlamentares em apoiar a tese empresarial de precarização do trabalho.
O governo, infelizmente, não tem uma posição clara sobre o tema, ficando omisso no debate dessa relevante matéria.
Nem o fato de o ex-presidente Lula ter pedido a retirada de tramitação do Congresso de um projeto com conteúdo semelhante, que tinha sido enviado na gestão de Fernando Henrique Cardoso, sensibiliza o governo da presidente Dilma Rousseff.
O Ministério do Trabalho e Emprego, sucateado e envolvido na apuração de denúncias de corrupção, não joga nenhum papel relevante nesse tema, como de resto em nenhum outro do mundo do trabalho atualmente.
O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão tem pressionado pela aprovação do projeto, sob o fundamento de que contrata muitos terceirizados e precisa de uma regulamentação para que tenha segurança jurídica nessas contratações.
A Casa Civil não disse a que veio nesse assunto e a Secretaria-Geral da Presidência aposta num acordo para a votação da matéria.
Ou seja, quem deveria defender os trabalhadores, no caso o Ministério do Trabalho, não tem força no governo, e os setores que têm peso tendem a apoiar o projeto, seja na versão atual, caso do Planejamento, seja numa versão com regras mais claras, inclusive no que diz respeito à representação sindical, caso da Secretaria-Geral da Presidência.
Entre os parlamentares, com exceção da bancada sindical e de poucos partidos, entre os quais PT e PCdoB, que fecharam questão contra, os demais ou estão divididos ou 100% a favor da proposta empresarial.
A confusão é geral. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, onde o projeto se encontra, parece confuso, com o vai e vem de relatorias, e inseguro, ao pedir ao presidente da Câmara para levar a matéria para votação direto no plenário.
Os partidos, inclusive o PT, que fechou questão contra o projeto, e o PDT, que indicou o ministro do Trabalho e Emprego, contraditoriamente assinaram apoio a um requerimento para votação da matéria em regime de urgência no plenário.
Todos sabem que o fato de subscrever um requerimento não significa que votará a favor do mesmo ou do mérito da matéria objeto do requerimento, mas é no mínimo estranho. Veja abaixo quem subscreveu o requerimento de urgência.
| Líderes partidários | Partido | Tamanho da bancada |
|---|---|---|
| José Guimarães | PT | 87 deputados |
| André Peixoto Figueiredo Lima | PDT | 25 deputados |
| Jovair Arantes | PTB | 17 deputados |
| André Moura | PSC | 16 deputados |
| Arthur Lira | PP | 41 deputados |
| Eduardo Sciarra | PSD | 45 deputados |
| Anthony Garotinho | PR | 46 deputados |
| Eduardo Cunha | PMDB | 82 deputados |
| Ronaldo Caiado | DEM | 26 deputados |
| Total de deputados representados | 385 deputados | |
Os magistrados do trabalho e suas associações, que conhecem bem como são tratados os trabalhadores terceirizados, foram firmes no combate ao projeto, que precariza ainda mais os direitos desses trabalhadores. Até o Tribunal Superior do Trabalho, que não costuma opinar sobre matéria em debate no Legislativo, emitiu uma nota, assinada por 19 dos 26 ministros em atividade, condenando fortemente o projeto.
As entidades sindicais, notadamente as centrais sindicais, são unânimes em denunciar o projeto, que amplia o escopo da terceirização, inclusive para as atividades fins da empresa, sem reais garantias para os trabalhadores. Nem a responsabilidade solidária da empresa contratante da terceirizada na hipótese de não cumprimento de direitos é aceita.
A presença e o trabalho de todas as centrais foram determinantes para o retardamento da apreciação da matéria. As grandes manifestações, nos corredores do Congresso, com forte presença da CUT, contribuiu para o fechamento de questão do PT contra o PL 4.330. Mas a mobilização não pode nem deve parar.
A pressão dos trabalhadores e suas entidades pela não votação ou rejeição do projeto deve ser permanente, porque o setor empresarial, que financia campanha, tem pressionado muito pela votação. Toda vigilância e cuidado é pouco na tentativa de evitar esse retrocesso nas relações de trabalho.
Além de péssimo para o trabalhador, que sofre com a precarização de direitos, a farra das terceirizações é uma agressão à sociedade: em geral, essas empresas de mão-de-obra terceirizada admitem, a preço de banana, pessoas de baixíssimo nível educacional e formação precária, quando têm alguma. Treinamento? Essas empresas de mão-de-obra terceirizada são caças-níqueis, mais nada! Quando se é mal atendido numa empresa ou órgão público (e o mau atendimento vem acompanhado de desrespeito) quase sempre é por um terceirizado, que exerce um trabalho para o qual não tem o menor preparo. Vergonha das vergonhas: essa praga se alastra no serviço público. O Ministério que pressiona o Congresso para aprovar essa agressão contra a cidadania, ao contratar terceirizados, INFRINGE O ART. 37 da CF, pois admite, sem concurso público, pessoas para exercer funções típicas de cargos públicos. Cadê o MPF para apurar a responsabilidade de Ministros, chefes de gabinete e assessores-chefes? Outro absurdo: no Judiciário essa praga também se alastra. No STF, há terceirizados exercendo as tarefas típicas de escreventes, atendendo advogados nos balcões (inclusive dos gabinetes de Ministros!), fazendo a tramitação de processos e carga de autos! E trabalham mal, atendem muito mal os advogados (talvez sequer tenham noção de que não há hierarquia entre nós e magistrado algum)e sua apresentação e postura são inadequadas. A aprovação desse PL zomba da Constituição e só contribuirá para o desmonte do serviço público, em favor de uns poucos parasitas, as empresas de mão-de-obra terceirizada, que se locupletam, ao arrepio da CF, com verbas públicas, favorecidos por gestores incompetentes e que se lixam para o povo.
Meu absoluto e irrestrito repúdio à pressão do Ministério do Planejamento, a favor do Projeto. A desculpa por ele dada é um insulto ao povo e à CF. A PGR tem o dever institucional de empreender uma ação contra a Farra dos Terceirizados na Administração Pública, que é uma fraude à Constituição, que determina admitir pessoal por concurso, e sabemos todos que terceirizados são admitidos para realizar serviços que deveriam ser realizados por servidores de carreira. Porém, arremedos de gestores, ao invés de exercerem o dever de abrir concurso, contratam, a peso de ouro, essas empresas de mão-de-obra terceirizada, que admitem, a preço de banana, pessoas desqualificadas que estão acabando com o serviço público. Fica aqui este apelo à PGR, para que faça seu trabalho e apure responsabilidades, a fim de acabar com essa Farra de Terceirizados que assola o País. Vamos muito mal! Logo, o Senado vai aprovar o abominável e ilegítimo Anteprojeto que altera a Lei de Arbitragem, para admiti-la nos contratos com a Administração; as empresas de mão-de-obra terceirizada apoiam essa inovação absurda, é claro, para nenhum juiz ou desembargador de carreira poder julgar disputas que as envolvam, e para elas poderem ditar suas regras para a Administração, pois dinheiro público não tem dono, não é?
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