Concursite, doença que ataca os jovens, faz mal ao Brasil

Ao lado da doença infecto-contagiosa chamada “juizite”, cujo causador é um vírus chamado “megalomanus arrogantis”, infelizmente existe outra doença, mais recorrente, chamada “concursite”, causada pelo vírus “ilusioni securitates”.

Como sabemos, a juizite ataca bacharéis em direito que se tornam magistrados, quando eles não possuem verdadeira vocação para fazer justiça.

Algumas das vítimas do vírus “megalomanus arrogantis” acabam adquirindo os piores sintomas da doença: alergia a contatos com advogados, falta de vontade de trabalhar e delírios alucinantes, que os fazem se imaginar superiores ao resto da espécie humana.

A concursite é uma doença mais recentemente descoberta, mas muito pior. Ataca não apenas bacharéis em direito, mas qualquer pessoa que ingressa numa faculdade sem saber bem o que quer ser quando crescer.

Com o avanço da tecnologia e das ciências em geral, atualmente temos uma enorme quantidade de profissões, especializações e cursos supostamente “superiores”, de tal forma que o pai que pensa em dar uma “profissão” ao seu filho fica perdido, pois não há mais como orientar a carreira de ninguém.

O jovem também fica perdido. Mais cômodo, mais simples , mais óbvio, pode ser seguir a profissão dos pais. Talvez isso explique porque a minha filha mais velha é advogada. Claro que na genética existe explicação para isso. Tanto que a mais nova é jornalista (coitadinha!) e a do meio, talvez por conhecer alguns dos meus clientes, abandonou a contabilidade e está se dedicando à psicologia.

Mas a tal concursite acaba de certa forma atacando muitos dos jovens que hoje entram na faculdade.

Um dia, em certa faculdade, perguntei a uma caloura porque ela havia se matriculado e a resposta veio fácil: para fazer um concurso. Só que ninguém sabia para qual carreira pública. Vocação, mesmo, a moçoila tinha apenas para um emprego público, onde segundo ela existe uma tal de “segurança”.

Recentemente uma revista publicou reportagem sobre os concursos públicos. E o que me chamou a atenção foi uma pessoa que havia sido aprovada para policial rodoviário e que foi fotografada com seu uniforme. Segundo a reportagem, esse policial estava se preparando para os próximos concursos de delegado, procurador, juiz, defensor público, assessor legislativo, etc. etc. .

Essa terrível doença, que é infecto-contagiosa, a concursite, faz um mal tremendo não só às suas vítimas, como ao Brasil.

O doente é prejudicado, pois só tem duas hipóteses: ou ele é uma pessoa sem sonhos, sem ideais, sem esperanças, ou está abrindo mão, renunciando ou trocando esperanças, ideais e sonhos por meras ilusões, suposições ou frustrações futuras.

O discurso desses desafortunados pacientes é sempre o mesmo: quer ser funcionário público por causa da segurança, de bons salários, da aposentaria, das férias, ou mesmo da ridícula idéia de serem “autoridade” ou mesmo tratados de “excelência”. Isso tudo é muito triste.

Segurança é a mais ilusória de todas as ilusões humanas. No mundo atual segurança não existe. Que o digam os moradores dessa fortalezas medonhas chamadas “condomínios fechados” quando sofrem arrastões praticados pelos moradores da favela vizinha. Ou aquele sujeito que andava armado e foi baleado com a própria arma. Segurança de receber salário todo mês? Pode ser. Mas isso será que vale mais que os sonhos? Paga as esperanças? Compensa o abandono dos ideais?

A aposentadoria mais cedo ou mais tarde vai mudar para pior. Nenhum país pode suportar aposentadorias precoces, de pessoas que no dia seguinte já estão trabalhando e muitas vezes no próprio serviço público. Em qualquer país que pretenda desenvolver-se, em breve só poderá haver aposentadoria por idade (no mínimo 75 anos) ou por absoluta invalidez.

Férias, tudo bem. Mas no limite razoável de 30 dias por ano. Muito embora existam pessoas que não deveriam ter férias, pois não trabalham, apenas enganam. Chegam sempre tarde, saem mais cedo. Ainda bem que são raríssimos esses casos.

O pior mesmo no serviço público é o concursado ter um chefe idiota, o que, aliás, é muito comum.

Quando o idiota é eleito pelo povo, tudo bem. Afinal, o povo quase sempre merece quem elege.

Mas há funcionários concursados de bom nível, sérios, dedicados, cujos chefes são meros apadrinhados políticos, sem competência ou sem apetência para o trabalho.

Conheço uma brilhante advogada que prestou concurso e tem como chefe uma pessoa que não serve nem para carregar a pasta de sua subordinada. O único talento do chefe e razão de sua nomeação é estar filiado ao partido que está no poder e ser um puxa-saco de carteirinha.

A concursite também causa muito prejuízo ao governo. Quando aquele policial rodoviário passar no concurso de delegado, haverá uma vaga de policial a ser preenchida. Novo concurso, novos treinamentos e talvez quando o substituto estiver treinado, terá que novamente ser substituído. E assim indefinidamente, até que um policial vocacionado, que tinha o sonho de ser policial e não apenas ocupar o cargo, venha a ser admitido. O Brasil perde muito com isso.

Parece razoável supor que uma pessoa que ingresse na faculdade de engenharia pretenda ser engenheiro. Mas por causa da concursite isso é só uma suposição. Nos últimos anos muitos engenheiros se tornaram auditores fiscais. Até aí, nada demais. O engenheiro tem bom raciocínio lógico e isso facilita a aprovação nos testes de múltipla escolha.

Mas de repente um engenheiro eletricista que virou auditor fiscal é promovido a inspetor fiscal, chefe de repartição aduaneira. E, nessa qualidade, pratica ato ilegal, contra o qual é concedida liminar em mandado de segurança.

Vai daí que a agora autoridade, engenheiro eletricista ignorante em questões jurídicas tanto quanto um advogado face às funções básicas de uma bobina elétrica, arvora-se em “interpretar” a decisão judicial e atreve-se até a considerá-la “inadequada” ! Mais uma vez é o sapateiro indo além das sandálias. Com isso, queixa-se o fisco de uma suposta “indústria de liminares”, olvidando-se da indústria de normas ilegais, muito mais próspera.

Por causa da concursite, muitos bacharéis em direito que passaram os cinco anos de faculdade no boteco, ingressam nessas milionárias indústrias de ensino preparatório e ali ficam anos a fio, até serem aprovados no próximo concurso.

Alguns ingressam no MP e se dedicam ao preenchimento de dados estatísticos, vangloriando-se de terem colocado na cadeia um bom número de pessoas, mesmo que estas, depois, sejam absolvidas. Não são eles, os que erram, que pagam pelos seus erros, mas a sociedade.

Outros bacharéis se tornam juizes e, acometidos da juizite, chegam a lamentar (será o pecado da inveja?) quando algum advogado ganha honorários expressivos. São raríssimos, todavia, os que se arriscam ao pedido de exoneração para advogar. Preferem “arriscar-se” na advocacia, logicamente depois de acomodados em boa aposentadoria. E o que é pior: clientes ignorantes chegam a imaginar que o servidor público aposentado (é isto que eles são!) é um profissional melhor que os outros.

Venho fazendo, desde 2004, uma série de palestras sobre o tema “A Fórmula do Sucesso na Advocacia”. Cerca de 5 mil jovens advogados e estudantes já as assistiram. E a mensagem mais importante que procuro transmitir é que a única finalidade da criatura humana é ser feliz. Quem tiver vocação para o serviço público certamente será feliz. Mas não basta fazer o que se gosta. Mais que isso, é indispensável gostar do que se faz. Quem conseguir isso não contrairá nenhuma das doenças aqui mencionadas.

*Raul Haidar é advogado e jornalista profissional.

Raul Haidar

é advogado tributarista e jornalista.

Leonardo Gomes Ribeiro Gonçalves disse:
30 de julho de 2007 às 11:24

Prezado Raul Haidar,
Considero muito oportuno o seu comentário.
A concursite, para mim, é a manifestação de doença psíquica em pessoas ainda imaturas: fobia da liberdade.
Os acometidos da doença são os órfãos da modernidade. Vivem na nostalgia de outro tempo, agarrando-se a esperanças e sofrimento.
Podemos encontrar como uma das importantes causas deste problema, dentre outros, obviamente, a falta de perpectiva na vida econômica do país, se é que esta existe de fato.
Na realidade, o problema é mais grave em regiões onde a economia é mais fraca: em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras "cidades grandes" deste país, o jovem ainda pode estudar, esforçar-se e pensar que um dia conseguirá atingir um ponto satisfatório na vida profissional.
Mas imagine o Sr. se um jovem de uma região pobre do Brasil, onde ainda se vive em outra época, onde a sociedade ainda não acordou para a ciência, onde o maior elemento da economia é o Estado, pode pensar em se destacar sem sair do seu torrão natal...
Nestes lugares, as vagas de destaque profissional são poucas, muito poucas... uma ou duas, no máximo.
De fato, acho que a concursite é uma disfunção social de um país que, em pleno século XXI, ainda não conseguiu ser capitalista.

Manente disse:
30 de julho de 2007 às 11:48

É, Dr. Raul, peço-lhe licença para indicar alguns medicamentos para estas doenças citadas:

PARA JUIZITE: JUIZOL 1.000 ML

CONCURSITE: CONCURSOL 1.200 ML

ESTES MEDICAMENTOS ESTÃO À VENDA EM TODAS NAS GRANDES FARMÁCIAS E DROGARIAS DO PAÍS.

ABRAÇOS,

Orlando Maluf disse:
30 de julho de 2007 às 12:20

Parece incrível ou paradoxal, amigo Raul, mas os problemas abordados nesse artigo, e muitos outros mais, sugiram quando começou a febre da multiplicação dos cursos superiores. Como de há muito previsto, tal processo causou aumento desordenado e incontrolável de cursos, à disposição de qualquer cidadão (preparado ou não), relegando os mais adequados cursos técnicos a plano insignificante.
O resultado é que hoje, em sua grande maioria, os que buscam faculdades ou universidades só tem uma certeza: a de que o curso será caríssimo. Basta ter (grana) para fazer, basta fazer para ser aprovado.

Cintra disse:
30 de julho de 2007 às 12:55

Interessante esse artigo. Pensando bem, conheço vários estudantes que freqüentaram de forma assídua os botecos ao redor da faculdade durante todo o curso e, quando finalmente se tornaram bacharéis (pois, basta cursar o curso e pagar a mensalidade que o diploma está garantido), fizeram esses cursinhos preparatórios para carreiras públicas e conseguiram a aprovação.
Em sua grande maioria, essas pessoas possuem uma condição socio-econômica acima da média, o que facilitam muitas coisas... é claro que essas pessoas não têm a menor vocação para a função que exercem, e esse é o principal motivo para a péssima prestação do serviço público no Brasil, especialmente aqui em São Paulo.
O que eu quero dizer, é que a concursite ataca com maior intensidade os mais abastados financeiramente, pois estes possuem maiores "prediposições" para o aparecimento de tais enfermidades.

José Brenand disse:
30 de julho de 2007 às 13:37

Triste herança de um passado, o qual com a Graça de Deus não mais se fará presente em nossa historia.
Alegro-me, que ainda haja Ilustres homens de mentes lúcidas, igual ao nosso Bel. e Jornalista Raul Haidar.
Em suas palavras escritas, as quais ditas de forma gostoso de se ler, porque parodisa , tece um quadro fundamental, o entendimento de ser "otoridade" oto de (otário) ridade, de "autoridade".
Segurança no emprego e etc... comenta o nobre Bel., é o que leva multidões a procura de um emprego concursado; triste maneira de ver e sentir, de um povo que acredita que para se manter no emprego, se faz preciso ser funcionário do Governo, não importando em que escala; o que importa, é a garantia de um emprego por "concursite".
Tenho 65 anos de idade, sou aposentado, não tenho curso superior, e no entanto as más línguas comentam, que pertenço a elite dos aposentados pelo INSS.
Sempre trabalhei na Iniciativa privada, fui funcionário Estadual - SP, e sai da condição de "emprego garantido", para buscar na iniciativa privada, um emprego não garantido, e sem estabilidade.
Não passei fome, mantive minha família, e de carona, conheci o Brasil, de Norte a Sul, de GRAÇA,de graça, porque como trabalhador da Construção Civil, graças a Deus, procurei como antes, desenvolver sempre minha capacidade de funcionário, e de cidadão, consciente com deveres, para depois, e só bem depois, em direitos, e um, é consequência de outro.
Nosso Brasil, precisa não de "concursites", porem de mais educação, e mudar seu perfil politico-social, e educacional; assim acredito eu, que poderemos ser realmente cidadão.
Autoridade, é aquele que o povo li concede nas URNAS, o direito e poder de nos representar; o resto é funcionários remunerado pelo ESTADO
josebrenand@hotmail.com

Ampueiro Potiguar disse:
30 de julho de 2007 às 13:47

Excelente. Mas esses infelizes aposentaods precoces têm segurança sim. Se não em condomínios fechados, com policiais que lhas dão. Lamentável que esses "decoradeiros" assumam funções de responsasbilidade relevantíssimas aos 21, 22 anos. Premiados "de cara" com um automóvel e motorista. Em muitos casos.

Ampueiro Potiguar disse:
30 de julho de 2007 às 13:47

Excelente. Mas esses infelizes aposentaods precoces têm segurança sim. Se não em condomínios fechados, com policiais que lhas dão. Lamentável que esses "decoradeiros" assumam funções de responsasbilidade relevantíssimas aos 21, 22 anos. Premiados "de cara" com um automóvel e motorista. Em muitos casos.

cesarakg disse:
30 de julho de 2007 às 14:15

Sonhos? Esperanças? Ideais? Isto aqui é o Brasil, onde todo mundo tem inveja de todo mundo e onde quem está por baixo tem certeza que quem está por cima descobriu um esquema melhor que o dele. Ou conseguiu uma vaga no time de juniores que ele não conseguiu.

Michael Crichton disse:
30 de julho de 2007 às 14:36

O autor sofre da miopia de considerar feliz somente quem está na advocacia. Leio os seus artigos há muito tempo Dr. Raul e posso dizer que o senhor alimenta há muito tempo um enorme preconceito contra quem tem cargo público e concursado. Desafio-o a escrever um artigo dizendo quem o senhor considera feliz e bom nas carreiras públicas. Pelo jeito, o senhor não encontrará uma simples alma.
Não adianta, por força das críticas recebidas, fazer exceções a isso ou aquilo. O autor sempre dá um jeito de externar o seu preconceito, como visto aqui.

Felipe Boaventura disse:
30 de julho de 2007 às 14:37

Já venho falando isto desde que ingressei na faculdade, as carreiras públicas devem ser pleiteadas por vocação e não pela remuneração que oferecem; é um grande erro vincular a estabilidade financeira ao sucesso pessoal.

Helder de Oliveira disse:
30 de julho de 2007 às 14:49

A história abaixo é verídica, e não se refere à minha pessoa:

Certa vez, em um grande escritório de advocacia, os elevados ganhos dos sócios (aqueles que ficam só na captação, na social e no marketing) começaram a correr o risco de diminuir (um pouco).

Qual a solução encontrada?

Achatar o salário dos jovens e brilhantes advogados empregados, aquela turma que ‘carrega o piano’.

E quem não quiser, o Diário Oficial de hoje estampa a abertura de concurso para o cargo tal.

Um daqueles brilhantes jovens engoliu o sapo – porque era preciso - continuou trabalhando, e passou a estudar em casa, até tarde da noite.

Meses depois, veio comunicar ao chefe que seguiu seu conselho, e estava indo assumir o cargo.

Em resumo: os concursos são uma forma difícil, honesta e democrática de ganhar a vida. E todos têm direito de galgar, pelo mérito, todos os cargos que sua competência conseguir. Nem todos nascem em berço de ouro. E se os senhores donos de grandes escritórios não desejam perder grandes talentos, que não os façam de ‘escravos de gravata e tailleur’ e lhes paguem salários melhores do que os dos cargos públicos. Quem não quer ou não precisa, ao menos não critique.

Raul Haidar disse:
30 de julho de 2007 às 14:56

Prezado Dr. José: obrigado pela sua sugestão, que o sr. chama de "desafio". Na próxima semana, se possível na segunda-feira, publicarei um artigo sobre quem é ou foi "feliz e bom nas carreiras públicas". Há muitos. Conheço um escrevente do forum, uma servidora do Judiciário, um delegado, um coronel da PM, um fiscal, e muitos outros que são muito bons e muito felizes no serviço público.Como se sabe, generalizações são injuntas...

DPF Falcão - apos disse:
30 de julho de 2007 às 16:03

A "concursite" não é um mal em si mesmo.
O que o autor denomina, pejorativamente, de concursite é, na verdade, o exercício de um direito assegurado a todos pela CF, basta reunir os requisitos estabelecidos nas respectivas leis.
Seja amarelo, branco, preto ou vermelho; pobre ou rico; bonito ou feio; alto ou baixo; gordo ou magro.
Ao contrário daqueles que ocupam cargos públicos - e em muitos casos, até privados - de livre nomeação (no mais das vezes por indicação política, atributos físicos e/ou QuemIndicou nas empresas privadas), nós CONCURSADOS NÃO devemos VASSALAGEM a ninguém, somente à lei e às nossas consciências (leia-se: ética e moral).

Marcio Evangelista disse:
30 de julho de 2007 às 16:31

Caro Dr. Haidar, a concursite realmente se difunde pela dificuldade de emprego, entretanto, como bem dito pelo "DPF Falcão", é uma garantia constitucional. No meu caso fui advogado por 07 anos e tive razoável sucesso - carros e motos importados, casa, viagens e tudo o que sempre precisei -, mas por vocação hoje sou magistrado no DF. Assim, tenho que generalizar não é bom. Também sou professor e constato realmente esta grande procura pelo concurso, mas tenho visto nos últimos tempos, em palestras que ministro, que vem diminuindo, dada a grande dificuldade, baixo indice de aprovações e o sucesso de muitos na advocacia. Noto também que há grande interesse pela carreira de advogado, a qual sempre encorajo, pois fui advogado e voltarei a ser, pois é uma nobre profissão, mas isto não afasta minha indignação pela generalização. Abraços a todos.

Marcio Evangelista disse:
30 de julho de 2007 às 16:31

Caro Dr. Haidar, a concursite realmente se difunde pela dificuldade de emprego, entretanto, como bem dito pelo "DPF Falcão", é uma garantia constitucional. No meu caso fui advogado por 07 anos e tive razoável sucesso - carros e motos importados, casa, viagens e tudo o que sempre precisei -, mas por vocação hoje sou magistrado no DF. Assim, tenho que generalizar não é bom. Também sou professor e constato realmente esta grande procura pelo concurso, mas tenho visto nos últimos tempos, em palestras que ministro, que vem diminuindo, dada a grande dificuldade, baixo indice de aprovações e o sucesso de muitos na advocacia. Noto também que há grande interesse pela carreira de advogado, a qual sempre encorajo, pois fui advogado e voltarei a ser, pois é uma nobre profissão, mas isto não afasta minha indignação pela generalização. Abraços a todos.

iDanFreitas disse:
30 de julho de 2007 às 17:23

Artigo muito, muito bom... bom mesmo.... Alíás, se alguém lê-lo e não gostar, cuidado, pode estar infectado...

Eri Coelho - Jornalista disse:
30 de julho de 2007 às 17:32

Prestar concurso público é um sonho acalentado por muitas pessoas, qual é mal nisso? Nenhum!

A sociedade precisa de todos, ou seja, de advogados, juízes, promotores, delegados, médicos, professores, lixeiros, comerciantes, vendedores, cobradores, etc. Se muitos querem prestar concurso é sinal de que nas circunstâncias atuais isto oferece alguns atrativos.

Por outro lado, quando a economia oferecer mais atrativos o pendulo se deslocará para a iniciativa privada.

Entretanto, com 40% de impostos, ou seja, uma carga tributária sufocante, é melhor ficar do lado de dentro do balcão (ser funcionário público) que o risco é menor.

Dijalma Lacerda disse:
30 de julho de 2007 às 20:03

Ao comentar o tema "Furor da Polícia e do MP.....", hoje, escrevi o que vai abaixo, que cabe perfeitamente como comentário, também, de mais essa brilhante lição do nosso querido Raul Haidar.
Raul, parabéns mais uma vez. Você continua como a aroeira: quanto mais velha mais forte !

Segue aí o que eu disse:

dijalma lacerda (Civil 30/07/2007 - 08:36
Em " O Pequeno Príncipe ", do inolvidável Antoyne Saint Exupery, discute-se se o desenho era um elefante, uma cobra, etc. etc.
Enfim, o que se mostra, por tal suscitação , é a velha questão ontognoseológica que nos prende às naturais idiossincrasias. A célebre perquirição da visão sujeito-objeto. A questão nada mais é do que a síntese do Freudialismo, que tantos e tantos compêndios rendeu ao longo da humanidade que sucedeu aquele maravilhoso cheirador de cocaína que tanto nos encantou e ainda tanto nos encanta, no quase pueril porém inebriante sopesamento entre o alter e o ego.
Resumindo o milenar contra-ponto entre o alter e o ego, buscando inclusive supedâneo bíblico na boa nova do "amar ao próximo como a ti mesmo", ou no "prova de amor maior não há do que dar a vida pelo irmão", sintetizou o mineirinho diante de toda essa situação: "Uai sô, pimenta nocu dozôtro é refresco, Uai!"
Assim, meus caríssimos, eu não me chamo Bindante e nem sou de Cajubi, mas se tivesse vinte e poucos ou trinta e poucos anos de idade, ou mesmo quarenta e poucos, "lindão da Silva", carrão ótimo na mão , um bando de puxa-sacos à minha volta, polpudas e longas férias todo ano, 12o, 13o. e 14o. salários, diárias, verba de representação, subsídio por acúmulo, prêmio moradia, um holleritz de causar inveja a qualquer mortal, mandando em todo o mundo com a certeza absoluta de que "sou Deus" e tudo posso, sabe o que eu diria de toda e qualquer situação dessas "que não ardesse no meu"? Diria : -"pernachia per tutti". Uma banana pra todo mundo!
Tchau bello !
É isso aí meu caro Raul Aidar.
Ái que saudades que eu tenho daqueles tempos de outrora !

Dijalma Lacerda.

Raul Haidar disse:
31 de julho de 2007 às 11:31

Talvez a melhor coisa do ConJur seja este espaço para debates. Democracia é isso. Vamos a ele:

Prezado Engº Roberto:
já existem leis para proteger os deficientes. Na OABSP existe até uma eficiente Comissão para isso.Se a lei não é cumprida é outro caso.

Os concursos são, realmente, a melhor alternativa para o exercício de cargos públlicos e penso que deveria ser a única. Sou, porr isso, contra o famigerado "quinto constitucional".

Mas, como tudo neste país, já CANSEI de ler notícias sobre fraudes em concursos, onde nem sempre a "transparência" está presente.

Qualquer um pode e deve fazer concursos, quando tiver vocação para isso. Já fiz 4, fui aprovado e nomeado em todos. Em um deles, em 1983, tornei-me Agente Fiscal de Rendas (ICM) em SP. Pedi exoneração 90 dias depois, quando vi que a politicagem não permitiria que eu fosse feliz ali e também que não tinha vocação para ter "chefe". Na época minha mulher quase me expulsou de casa, pois as mulheres são muito pragmáticas em questões financeiras.

Mas vários colegas lá ficaram e são felizes. Alguns já se aposentaram e até se imaginam meus "concorrentes", mas eu os vejo apenas como são: meus colegas. Quem tem concorrente é comerciante, não advogado.

Quanto a salários: um bom advogado, depolis de 20 anos de trabalho sério, ganha mais que qualquer funcionário públbico deste país. Isso inclui ministros do STF. Não dá para comparar. Quando algum deixa a advocacia para ir aos tribunais é por amor à Pátria (isso existe!) ou por vaidade (este é um dos meus motivos para ficar na Advocacia).

Ao DPF Falcão:
Funcionários públicos, concursados ou não, não devem VASSALAGEM, mas existe uma hierarquia a ser obedecida. Advogados não obedecem a isso. Advogado verdadeiro não tem chefe.

Raul Haidar disse:
31 de julho de 2007 às 11:41

Prezado dr. José (juiz): não generalizei. Há juizes felizes na magistratura. O primeiro que conheci, em 1961, era o Arruda Campos, autor do livro "A Justiça a Serviço do Crime", cuja leitura deveria ser obrigatória das Faculdades de Direito.Tenho alguns bons amigos juizes, sérios e felizes na profissão.Pessoalmente direi seus nomes ao sr., quando nos encontrarmos.Sei que o sr. é um deles.Tive um grande amigo, delegado civil, que era sério e feliz na carreira que amava: O Cid Gualter Alves Ferreira, maravilhosa criatura humana. Há outros, muitos outros. Só não não felizes nessas funções os que pensam que os Advogados são seus inimigos. Nós, operadores do direito, e mais que isso, nós brasileiros, temos que cultivar a raternidade e admitir a igualdade para que possamos ter verdadeiro direito à liberdade! O seu "desafio", dr. José, foi um presente que recebi nestes dias frios, como o foi a "crítica duríssima" do engenheiro. Talvez eu não tenha me explicado bem. Como disse Eduardo Dussek, o cantor: “Se as pessoas não estão lhe entendendo, quem não está sabendo se explicar é você”. Bom dia a todos..

Anjospereira disse:
31 de julho de 2007 às 14:18

Acredito que o Dr. Raul Haidar apenas citou como exemplo os inúmeros engenheiros que, dado as dificuldades da iniciativa privada, abrem mão de seus sonhos e aspirações para concorrer ao lado de grandes Odontólogos, Fisioterapeutas, Nutricionistas, Administradores e Contadores. Felizmente, o autor do texto traduziu uma infeliz realidade:A de que o emprego público é a melhor saída. Mas, o que podemos esperar de um país que tolhe a iniciativa privada por meio das alta carga tributária? Aqui em Brasília essa febre de concursos públicos é uma triste realidade, que conta até mesmo com programas televisivos direcionados aos "concurseiros", que literalmente desistiram de suas profissões em busca da chamada "segurança". Se o Brasil tratasse a educação com seriedade, como outros países, nao haveria esse mercado pós-faculdade direcionado a concursos públicos (muitas as vezes injustos por premiar o especialista na arte de decorar). Infelizmente, concurso público, que deveria ser uma alternativa, esta sendo tratado como saída. Que os brilhantes engenheiros nao se sintam constrangidos ou atingidos. Como advogado, de iniciativa privada, lamento em ver colegas que desistiram de suas profissões em razão das dificuldades, (que são muito maiores que em vários países do mundo), para se dedicarem ao concurso público, nao por vocação ou felicidade, mas por falta de alternativa e saída para um sufoco que nao deveria existir.

Ferraz de Arruda disse:
31 de julho de 2007 às 20:15

Prezado Dr.Haidar
A coisa mais difícil hoje em dia é emitir uma opinião e esta não ser levada para o campo pessoal. São raras as reflexões, a tentativa de absorção da linha condutora do pensamento daquele que escreve. É o seu caso. O senhor escreve um entendimento, uma reflexão, uma crítica, não para ser o melhor ou ser dono da verdade, mas simplesmente para expressar uma maneira de ver a vida ou, no caso, a escolha de uma profissão. Fico pasmo como são poucos o que refletem sobre o que é escrito. Sinais dos tempos. Sinais de que são muito poucos os que ouvem e meditam e quando divergem o fazem de forma límpida e objetivamente racional. Escrevo-lhe estas palavras porque ninguém debate mais nada, ninguém se preocupa em mapear o pensamento escrito. A preocupação é única: a de dizer alguma coisa que soe pessoal e contrária, por ser contrária, ao que foi escrito. É só isso que estamos assistindo em todos os lugares. Um abraço.

Rodrigo disse:
01 de agosto de 2007 às 14:52

Caro Raul Haidar,

A primeira vez que li seu texto fiquei ligeiramente indignado pelo fato de ser eu um funcionário público concursado no cargo de Auditor Seccional do Estado de Minas Gerais. Depois revi um pouco minha posição pensando que talvez a intenção tenha sido boa, já que de fato se instaurou no país uma indústria de concurso público, como era, e ainda é, a indústria do cursinho pré-vestibular. Entretanto algumas reflexões que fiz talvez sejam válidas, quais sejam:
• A respeito da questão do sonho e da vocação, tema central do artigo, eu penso que uma pessoa não pode se guardar a vida inteira para um sonho. Nossos sonhos são feitos e desfeitos e é o embate com a realidade que faz com que nossos sonhos ganhem consistência e viabilidade. Sem querer ser egocêntrico, cito meu caso. Formei-me em jornalismo, e logo nos primeiros anos de profissão percebi a inviabilidade de sobreviver na profissão. Fiz então um concurso público para Auditor Interno do Estado de Minas Gerais. Note que é uma profissão bem diferente daquela que havia escolhido a princípio. Passei no concurso e comecei então a pensar na possibilidade de fazer uma pós-graduação ou um mestrado para melhorar minhas chances de progredir na profissão, e hoje me preparo para realizar este projeto. Como o senhor vê, eu desisti de um sonho, mas não desisti de sonhar de forma que hoje criei para mim um novo sonho, mais concreto e mais acessível que o antigo.
• A respeito do turnover indicado no artigo, creio que bastaria um Plano de Carreira bem estruturado para evitar que isto acontecesse. Todos nós que fizemos concurso sabemos o quanto é desgastante e caro ter de se preparar para um concurso público. Se tivessemos um plano de carreira bem estruturado, certamente muitos de nós prefeririam progredir dentro da carreira ter que fazer outro concurso.
São estas as reflexões que me ocorreram. Espero ter sido útil.

Rodrigo Menin Ferreira

santana disse:
31 de outubro de 2007 às 20:30

Olá, concordo com o Anjospereira, mas também concordo com o Rodrigo. O ser humano vive em mutação e acredito que uma pessoa pode ter vários sonhos, modificar seus sonhos e seus objetivos ao longo da vida e ter competência para exercer várias ocupações.
Muitos adolescentes hoje sonham em ser atores de TV, ser modelos, ser cantores famosos ou jogadores de futebol e com o tempo mudam seus objetivos... E muitas pessoas também entram em uma faculdade sem saber ao certo o que é profissão, as vezes desistem do curso na metade, outras vezes se formam e depois voltam a fazer outro curso de graduação. Outras pessoas fazem uma graduação e querem continuar estudando e fazem outra. Alguém que se forma em engenharia hoje pode querer fazer uma faculdade de direito amanhã.
O que os profissionais devem ter em mente é sempre continuar estudando, e se especializando para o emprego/cargo que ocupam, seja ele do setor público ou do privado.
E, infelizmente, existe mau profissional em todas as profissões, mas quem é concursado está lá por mérito, pode-se questionar que os métodos de avaliação não avaliam vocação, mas isso é outra discussão.

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