Perito diz que PF manipula transcrição de grampos

O perito especialista em fonética forense Ricardo Molina encontrou irregularidades em centenas de escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal que passaram pela sua análise. Segundo o perito, em muitos casos, há gravações interrompidas, palavras cortadas e seleção de trechos de conversas a critério dos investigadores, o que, garantiu Molina, torna a interpretação das gravações subjetiva.

O especialista afirmou que, em outros países do mundo, essas irregularidades seriam suficientes para desqualificar as gravações como provas judiciais. Molina participou de audiência pública na CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas e defendeu mudanças na legislação que garantam a integridade das informações obtidas a partir dessas escutas.

“Deveria haver lei que normatizasse isso e que obrigasse que qualquer gravação anexada a processos seja transcrita integralmente, inclusive citando eventuais interrupções que acontecem ao longo dela. Isso não tem sido feito pela Polícia Federal”, alertou. O especialista entende que esse trabalho de transcrição seja feito por peritos qualificados, ao contrário do modo que acontece hoje.

A CPI deve aprovar na próxima reunião requerimento para que o perito Ricardo Molina faça a perícia dos equipamentos atualmente utilizados pela polícia nas escutas telefônicas. A apresentação do requerimento foi anunciada pelo deputado Marcelo Itagiba e pelo relator da CPI, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA).

A deputada Marina Maggessi (PPS-RJ), relatora na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado do Projeto de Lei 3.272/08, que pretende normatizar a quebra de sigilo das comunicações telefônicas, declarou há “erros gritantes” na transcrição das escutas feitas pela PF.

Ela sugere que, além da transcrição integral, o áudio original da interceptação seja preservado como prova. “Irregular é a edição, o modo como se faz o relatório final, tirando frases do contexto”, disse a deputada, que defende que todas as operações até agora realizadas pela PF com base nas escutas sejam invalidadas.

Para Marina, os métodos usados pela PF visam à manipulação política e estão orientados por má-fé. “Existe um estado policial que manipula a imprensa e o Judiciário”, disse.

Marina Maggessi contou que foi vítima de um grampo da PF em uma operação relacionada à máfia dos jogos. Ela considerou que houve má-fé da Polícia Federal porque, quando a Corregedoria da Câmara requisitou a gravação do grampo, a PF disse que o áudio estava prejudicado. “Se o áudio estava prejudicado, como a imprensa publicou transcrições desse áudio?”, questionou.

O presidente da CPI das Escutas Telefônicas, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), que é delegado da Polícia Federal, confia na responsabilidade e competência de seus colegas de corporação, no entanto, disse que não vai impedir a comissão de investigar os fatos. “Se tivermos que banir os maus policiais da PF, da Polícia Civil ou da Polícia Militar, nós o faremos”, assegurou.

olhovivo disse:
09 de maio de 2008 às 09:39

Cadê o professor Armando e seu maçante "AVANTE PF, AVANTE MPF"? Quando aparecem as sujeiras ele some? E essa dos jornais de hoje, do assessor do Zé Dirceu, sobre o vazamento do dossiê? Parece que seus ídolos, Armando, não são lá essas coisas.

gilberto disse:
09 de maio de 2008 às 10:56

Queriam o quê? Esse país é de terceiro mundo, logo, sua polícia federal também é de terceiro mundo. E ainda queríam ser considerados o FBI brasileiro... Desse jeito, está longe, viu? Ainda mais com essa possível invalidação de todas as "operações" com nomes ridículos realizadas pelo nosso "FBI".

Luismar disse:
09 de maio de 2008 às 11:12

"que obrigasse que qualquer gravação anexada a processos seja transcrita integralmente". Trazendo ao processo toneladas de assuntos irrelevantes que dificultassem a compreensão da matéria e facilitando a impunidade?

João G. dos Santos disse:
09 de maio de 2008 às 11:27

Procurador Luismar, vc está equivocado. "Toneladas de assuntos irrelevantes" para quem? Para a acusação? Além do mais, o conceituado perito falou em "gravações interrompidas" e "palavras cortadas". Isso é grave, pois muda o contexto de uma conversa e dá azo à subjetividade dos inquisidores. O Congresso deve colocar um paradeiro nisso, pois os juízes e tribunais, que deveriam fazê-lo, não cumprem seu papel. Limitam-se a chancelar a palhaçada.

olhovivo disse:
09 de maio de 2008 às 11:39

Para complementar, professor Armando, o assunto sobre o socialista Zé Dirceu: ele, que já trabalhava para o bilionário mexicano Carlos Slim (dono da Claro, Sky...), agora foi contratado pela Coca-cola. Quem diria, o Zé Dirceu contratado pela multinacional Coca-cola (v. coluna do Claudio Humberto)! Êta, como é dura a vida de socialista!

José Inácio de Freitas Filho. Advogado. OAB-CE 13.376. disse:
09 de maio de 2008 às 11:58

As declarações do perito Sr. Molina são contundentes, corajosas e - o mais grave - verdadeiras [e até conhecidas, de algum tempo, reverberadas por outras vozes especialistas na matéria].

Há milhões de "telefones grampeados" no país, sem muito critério e sem praticamente nenhum controle judicial efetivo. O que me carreia à memória, aliás, o controle de que falava Hobbes, no seu Leviatã...

__________
José Inácio de Freitas Filho
{Advogado - OAB/CE n. 13.376}

Sergio Mantovani disse:
09 de maio de 2008 às 13:21

E não é só. A degravação não é feita por peritos, mas sim por agentes que, suprimindo alguns trechos, em outros fazem questao de entre parenteses colocar o que entendem como interpretação correta.

Tenho certeza de que alguns colegas irão se lembrar desse detalhe. (Caso dos libaneses, caro amigo Dr. Sergio Niemeyer - abraços).

jose brasileiro disse:
09 de maio de 2008 às 13:56

Nossa não existe crime neste pais, não existe corrupção.
O negocio e mudar a lei, para definir qual pessoa comete crime ou não....
Seria possivel o senhor molina o assassinato do Presidente Kennedy

Luiz Carlos de Oliveira Cesar Zubcov disse:
09 de maio de 2008 às 14:44

Desculpem-me aqueles que entenderem haver exagero, mas não consigo divisar quadro mais estarrecedor e deprimente!

A manipulação de dados para incriminar um cidadão e desgraçar vidas humanas é conduta típica de mentes criminosas, doentias e monstruosas.

Se a instituição policial abriga essa espécie de ser dantesco, resta-me somente levantar os olhos para o céu e repetir incansavelmente a súplica popular: Senhor meu bom Deus! Livrai-me da polícia porque dos bandidos eu me salvo sozinho!

Quem sabe se os cursos de formação policialesca dedicarem a metade do seu tempo às noções de Direitos Humanos algum profissional não possa ser aproveitado?

Dijalma Lacerda disse:
09 de maio de 2008 às 19:50

Gente :

A matéria constante nesse artigo é uma das coisas mais graves que eu já vi em toda a minha vida em matéria de Direito Penal.
E aí, como é que fica, essa gente vai continuar impune? E as pessoas que foram prejudicadas ?
E os processos que dependeram de tais "provas"?

Dijalma Lacerda.

Luiz Telles disse:
09 de maio de 2008 às 21:26

Curioso a mesma pessoa que acusa outros peritos de má-fé ser o mesmo que analisará outras gravações. Com qual autoridade moral o Sr. Molina condena o trabalho de centenas de policiais? O que ele tem de melhor do que os outros? Será ele a única autoridade que entende de gravações no país? A opinião de uma só pessoa basta? Todo esse tempo tanto os policiais quanto o Ministério Público e Judiciário agiram de má-fé? Acho qeu a questão é mais complexa do que dar crédito para apenas uma opinião, mesmo que de tão renomada pessoa.

Luiz Telles disse:
09 de maio de 2008 às 21:30

Vejo na realidade um lobby para prejudicar o trabalho da PF, a única instituição cujos servidores têm coragem de encarar as pessoas mais poderosas do país. Afinal, transcrever todo o período de áudio, as vezes meses, é na prática inviabilizar o trabalho policial. Curioso que até agora apenas advogados tenham criticado o trabalho da PF, justamente os defensores de alvos das operações. Já imaginou transcrever conversas familiares e outras sem qualquer interesse aos fatos investigados? A quem interessaria isso? Obviamente, somente aqueles que tem o que esconder.

Luiz Telles disse:
09 de maio de 2008 às 21:32

Ainda bem que os juízes e promotores que acompanham os trabalhos de monitoramento têm conhecimento da seriedade e isenção com que são realizados. Não se dobrarão a políticos ou a um único "perito".

AldoBrandao disse:
10 de maio de 2008 às 01:11

Corre-se o risco de sobrar muito pouca gente para fazer um trabalho sério...

Ramiro. disse:
10 de maio de 2008 às 14:23

Quando levantei esta lebre, de processo que eu particularmente tive a oportunidade de ler todos os autos, quase fui chamado de imbecil...

Do processo que li a única prova que há é de absoluta incompetência das autoridades persecutórias, nenhum laudo pericial decente atestando legitimidade. Como é processo que está aguardando julgamento da admissibilidade do recurso, bem vinda esta reportagem.

Ramiro. disse:
10 de maio de 2008 às 14:26

Dando uma resposta ao Eduardo, chamar o Dr. Molina de "qualquer perito", é errar na dose. As avaliações técnicas dele podem ser replicadas por peritos do FBI ou da Scotland Yard, e os engenheiros e fonoaudiólogos forenses poderão, a partir do mesmo material, se os deixarem analisar, chegar às mesmas conclusões. Isso é ciência e não "achômetro e pau".

A PF tem coragem de colocar à análise de peritos estrangeiros suas fitas de gravação? Se os Juízes e Promotores afirmarem que são argumentos cambaios, estão no século XI e não no século XXI.

Jorge Florentino disse:
10 de maio de 2008 às 19:21

Jorge ( Advogado Criminalista)
Se está ocorrendo manipulação nas interceptações telefonicas por parte da PF. O que não estará acontecendo nas Policias Civis e Militares Estaduais e Grupos de Repreensão ao chamado crime organizado, como no caso do Espirito Santo, em que foi grampeado até mesmo telefone de uma das maiores redes de comunicações do Estado.

advissa disse:
10 de maio de 2008 às 19:49

A interceptação de comunicação telefônica no Brasil não está atendendo aos objetivos instituídos pela Lei 9296/96, especialmente o que preceitua o art. 5º do referido diploma legal, sendo usada ao bel prazer pelas "autoridades" e por longos períodos sob a alegação de "necessidades" e em sua grande maioria...as informações são manipuladas confirmando assim o título da presente matéria: "grampo retocado", não se verificando as transcrições em sua integra....passível assim de escamotear ...

Diogo disse:
12 de maio de 2008 às 09:34

Todos os áudios interceptados são gravados e a gravação é mantida. A defesa tem acesso a todos os áudios, desde o momento em que o Juiz revoga o sigilo do inquérito.
Sobre a transcrição integral dos áudios, ela não ocorre porque, além de inútil, pode ferir a intimidade de terceiros.
O que justificaria trascrever uma ligação em que a esposa do investigado fala com um amante sobre o sexo anal que praticaram? Ou o namoro por telefone (ligação de uma hora e meia) da filha do investigado?
Segue a tática de desqualificar o trabalho sério da PF. Menos mal que a sociedade não é burra.

Nelson Rodrigues disse:
12 de maio de 2008 às 10:13

Delegado Diogo,
Não se trata de transcrever o que não importa, mas de não esconder fatos que possam indicar a inocência do acusado. Quando a Polícia entusiasma-se em excesso para conseguir que a notícia vá para o Jornal Nacional e eternize o nome do investigador, a PF usurpa o papel do Ministério Público, qual seja, o de atuar como órgão de acusação. À polícia cabe investigar. Levantar todos os elementos em torno dos alvos e não apenas os que os comprometam. Agentes e delegados da PF têm sido alvo de "edições" de grampos e agora compreendem o quanto a prática é nefasta. Trabalhos sérios também podem ser mal feitos. Não se combate o crime praticando delitos.

Ramiro. disse:
12 de maio de 2008 às 11:04

Delegado Diogo

A perícia é bem simples. Além da continuidade do sinal eletrônico cuja análise pode indicar cortes e montagens, a voz tem um espectro próprio, tem características próprias, que um perito colocando a gravação num computador, pode identificar exatamente se o trecho recolhido não passa de uma montagem.

Infelizmente o que vi em certo processo foi a "inteligência policial" receber fitas já montadas e assinar tal recebimento, e nenhuma perícia técnica de continuidade da gravação.

Nenhuma perícia afirmando que o sinal daqueles trechos é contínuo, e que não foi montagem de recortes, nenhuma perícia do gênero constava nos autos.

É a perícia isenta que diz se houve ajeitamento das coisas.

A polícia continua refém do mesmo espírito do "achômetro e do pau" e desvirtua as escutas. Escuta em qualquer país sério é para colocar a polícia no local onde vai haver o crime, para fazer no local o flagrante, o recolhimento da prova material, e não fazer das gravações as únicas provas.

Pedro da Silva Machado disse:
12 de maio de 2008 às 13:59

Delegado Diogo, como já comentei em outras oportunidades, a sociedade é a favor do grampo. Agora, o que não se tolera são abusos. De fato, todos sabem, o juizes, promotores e delegados que as transcrições são resumidas, suprindo trechos de um dialogo de forma a deixar no texto algo que faça sentido com o delito investigado, sempre de forma a transparecer crime. Nesse sentido o texto integral de um diálogo deve ser totalmente transcrito sim, por veze há até troca de nomes nas transcrições. Que haja erro, ou equívoco tudo bem, mas o pior é que isso passa pelo Promotor e pelo Juiz, que a tudo anui. Falar em não revelar a intimidade. Parece piada. A televisão tem acesso as escutas antes mesmo da defesa e do acusado. No mesmo dia das operações os jornais ja publicam trechos das escutas. como pode isso???

Luis Flávio Zampronha disse:
13 de maio de 2008 às 08:44

Todos os autos circunstanciados elbroados pela PF com os diálogos selecionados durante o período de interceptação telefônica são acompanhados com a respectiva cópia integral das gravações, que podem ser ouvidas pelos juízes e membros do Ministério Público. Desta forma a análise do poder judiciário se faz sobre a própria gravação (áudio) e não da transcrição das conversas. Posteriormente (na fase processual) a defesa também tem acesso a estes diálogos (originais) que ficam armazenados e acompanham o processo penal. Acreditar que a PF manipula ou faz montagem sobre as interceptações que promove seria muita ingenuidade, pois facilmente tais ações seriam detectadas pelo poder judiciário e pelos advogados. Reamente não é necessário tal expediente, tendo em vista a abundância de provas reunidas nas investigações. O Brasil muito antes de ser um país "policialesco" é na verdade o país da impunidade, com a sociedade totalmente à mercê das organizações criminosas de colarinho branco que promovem a pobreza e atrazo da sociedade. Este artigo demonstra a total inversão de valores a que estamos submetidos. É uma pena!

jabuti disse:
13 de maio de 2008 às 10:11

Aos Delegados Diogo e Zampronha.
Se me permitem,gostaria de fazer um questionamento. Se os audios quando disponibilizados para a Justiça, estão gravados em CD´s, e sabendo-se que foram colhidos em um HD (Guardião),e sendo claro que para a extração destes audios do HD para os CD´s, obrigatoriamente haverá de ter uma manipulação (copiar)e, como é comezinho, hoje qualquer audio digital, com uso de programas de edição (até os free disponiveis na rede),é possivel "cortar, inserir, montar e alinhar",como é que a policía federal (e a propria justiça) trata estas "cópias" como originais(?) se o original em tese (original mesmo é somente o diálogo do interlocutor, a gravação deste no HD, já é copia) é o conteudo do HD??(este nunca aparece nos autos fisicamente.

jabuti disse:
13 de maio de 2008 às 10:30

Especificamente para o Delegado "Doutor" Diogo:
Onde e em qual Constituição o Sr. obteve o DIREITO de ouvir: "uma ligação em que a esposa do investigado fala com um amante sobre o sexo anal que praticaram? Ou o namoro por telefone (ligação de uma hora e meia) da filha do investigado?"

Por acaso, não é exatamente por tais motivos que o cidadão conciente se opõe contra este tal de "grampo", que mais serve para alguns policiais subvertidos se "masturbarem" ???
obs: Não estou me referindo ao Sr., mas sim a maus policiais.

Diogo disse:
14 de maio de 2008 às 15:24

Os questionamentos feitos são pertinentes e servem justamente para desmitificar o uso das interceptações.
Novamente para esclarecer:
Quando se monitora um número telefônico, é examente isso o que se faz. Se a esposa do investigado utilizar o telefone do marido para falar sobre sua vida pessoal, isso será gravado automaticamente. Por óbvio, antes de se ouvir o áudio, não há como advinhar que a ligação X (feita a partir do telefone do investigado) foi realizada por ele.
Quanto à gravação dos áudios em CDs, ela é fiel ao que se encontra gravado no HD.
Ademais, Senhores, que interesse um policial teria em inventar culpados, em forjar situações?
A Polícia serve para investigar fatos, em tese, criminosos e não para perseguir esse ou aquele sujeito. O policial não recebe bonificação por quantidade de números interceptados. Pelo contrário, acaba é mergulhando em estresse, cumprindo carga horária muito superior a que deveria cumprir (sem o recebimento de hora extra).
Pensem nisso.

Leila disse:
14 de maio de 2008 às 18:50

Acho que esse delegado não leu a ação do juiz Ali Mazloum publicada nesse Conjur. Ou se leu, não entendeu.

jabuti disse:
14 de maio de 2008 às 20:53

Sinceramente, Dr. Diogo, os seus argumentos não convenceram !
porém, o Sr. foi muito gentil em responder as questões, portanto não posso deixar de agradecer-lhe pelo gesto.

Diogo disse:
15 de maio de 2008 às 08:51

Cara Leila,
Não acredite em tudo o que lê.

Diogo disse:
15 de maio de 2008 às 08:54

Procurem conhecer e conversar com Policiais Federais, ou mesmo com advogados que já atuaram na defesa de investigados pela PF, e verão que a Polícia Federal não é esse poço de maldades e de desrespeito aos direitos fundamentais.

Leila disse:
15 de maio de 2008 às 19:30

Caro Diogo, não defenda com tanto fervor seus colegas, a sua decepção pode ser muito grande, pois nem todos são como você parece ser.

Você precisa estar logado para enviar um comentário.