Advogados de SP criticam abusos em operações policiais

A Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) entregou nesta terça-feira (7/10) ao ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, uma nota defendendo a atuação da corte e criticando os abusos praticados em operações policiais.

Segundo os advogados, a polícia — avalizada pelo Ministério Público e autorizada por juízes — macula o devido processo legal com o argumento de combater o “crime organizado”. São citados como exemplos as interceptações telefônicas sem justificativa, os mandados judiciais genéricos, as prisões cautelares sem motivação, a utilização de aparato policial desproporcional e exposição de presos como troféus.

“A Polícia precisa combater o crime com rigor, agindo sempre conforme a Lei e orientada por princípios de cidadania. O Ministério Público deve processar o criminoso sem desbordar para o fundamentalismo acusatório. À Magistratura cabe manter-se serena, sem adotar posição apriorística contra ou a favor, de modo a prestigiar sua exigível neutralidade e independência, pois não há como julgar com isenção tomando partido e ideologizando sua cognição”, lembra a associação.

Para os advogados, o STF vem cumprindo o seu papel de guardião dos preceitos constitucionais. Por isso, “não foi por outra razão que, recentemente, também se viu fortemente atingido por escutas ilegais. Discutiu-se tanto a aprovação das súmulas vinculantes e agora muitos acusam a Corte de usurpar o papel do Poder Legislativo. Pode-se discordar de decisões do Supremo Tribunal Federal, mas não se pode afrontá-las em sua autoridade e prevalência, com isso enfraquecendo a sua indispensável e destemida atuação”, afirmam os advogados.

“Temos que nos pôr a salvo de posições maniqueístas, fugir de classificações oportunistas entre combatentes do crime e defensores da criminalidade. Não se faz Justiça disseminando a prática contagiosa e epidêmica do desrespeito ao império da Lei”, finaliza a nota da AASP.

Assinam o documetno os ex-presidentes da entidade, advogados Aloísio Lacerda Medeiros, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, Antonio de Souza Corrêa Meyer, Antonio Ruiz Filho, Carlos Augusto de Barros e Silva, Clito Fornaciari Júnior, Eduardo Pizarro Carnelós, José Roberto Batochio, José Roberto Pinheiro Franco, José Rogério Cruz e Tucci, Mário de Barros Duarte Garcia, Mário Sérgio Duarte Garcia, Miguel Reale Júnior, Renato Luiz de Macedo Mange e Sérgio Pinheiro Marçal.

Leia a nota

UM BRADO À SOCIEDADE

Os advogados brasileiros têm tradição de se manifestar nos momentos mais graves da vida nacional. Sempre estiveram presentes quando foi necessário defender as instituições e recobrar o primado da Lei sobre o arbítrio.

Imbuída desse espírito e fundada nessa histórica trajetória, a sexagenária ASSOCIAÇÃO DOS ADVOGADOS DE SÃO PAULO deseja levantar sua voz em defesa da cidadania, em prol das garantias individuais e pela manutenção do Estado de Direito.

Sob o pretexto, em princípio legítimo, de combater o “crime organizado” e, também, finalmente alcançar a criminalidade dos ricos e poderosos, marcadamente com o advento das conhecidas operações realizadas pela Polícia — avalizadas pelo Ministério Público e autorizadas por Magistrados — estabeleceram-se alguns procedimentos que maculam o devido processo legal, desrespeitando direitos e garantias fundamentais assim erigidos pela Constituição Federal.

São traços comuns dessas operações policiais autorizadas judicialmente: interceptações telefônicas infindáveis na gênese da investigação e sua utilização como fonte preponderante de prova; a interpretação das gravações por agentes despreparados para essa função, conduzindo a conclusões esdrúxulas, que não raro ocasionam até a prisão do investigado; expedição judicial de mandados de busca genéricos ou prospectivos; prisões cautelares em série, sem motivação adequada ante os critérios legalmente exigidos; utilização de aparato policial desproporcional e a exibição de presos como “troféus”; imposição de inúmeras dificuldades para acesso aos autos pelos advogados, criando-se modalidades de procedimentos quase secretos e sem forma legal, de modo a impedir providências elementares de defesa, como conhecer a acusação e as provas; prolongamento da prisão daqueles que não “colaborem” ou que exerçam o direito constitucional de permanecerem calados; vazamentos de informações sigilosas à imprensa, quase sempre antes de seu acesso pelos advogados constituídos, além de outras aberrações de igual gravidade.

A Polícia precisa combater o crime com rigor, agindo sempre conforme a Lei e orientada por princípios de cidadania. O Ministério Público deve processar o criminoso sem desbordar para o fundamentalismo acusatório. À Magistratura cabe manter-se serena, sem adotar posição apriorística contra ou a favor, de modo a prestigiar sua exigível neutralidade e independência, pois não há como julgar com isenção tomando partido e ideologizando sua cognição.

Inicialmente, apenas os advogados alertaram para o que vinha acontecendo, mas foram taxados de corporativistas. Os desmandos continuaram e têm sido de tal forma graves e freqüentes que, agora, parte da imprensa e da sociedade começa a perceber que o vigente estado de coisas não pode prosperar. Vivemos, neste momento, sob o domínio da máxima de que os fins justificam os meios. E todos sabem o descalabro que se abate sobre os que assim se conduzem.

Provocado, num último suspiro dos injustiçados, o Supremo Tribunal Federal, para desassossego de alguns e triunfo da razão sobre a barbárie, vem cumprindo fielmente o seu papel de guardião dos preceitos constitucionais. Não foi por outra razão que, recentemente, também se viu fortemente atingido por escutas ilegais. Discutiu-se tanto a aprovação das súmulas vinculantes e agora muitos acusam a Corte de usurpar o papel do Poder Legislativo. Pode-se discordar de decisões do Supremo Tribunal Federal, mas não se pode afrontá-las em sua autoridade e prevalência, com isso enfraquecendo a sua indispensável e destemida atuação.

Tudo isso nos remete a uma escolha: qual é o país que almejamos? Um Estado de viés policialesco, no qual nem as mais altas autoridades estão a salvo da bisbilhotice? Ou queremos uma nação alicerçada em instituições sólidas e democráticas, que primem pelo respeito ao cidadão e às suas garantias, em que haja espaço à persecução penal apenas com apoio na Lei e na Constituição? É disso que se trata, de fazer uma opção entre sermos para sempre uma republiqueta atrasada, manipulada pelo arbítrio, ou uma nação pujante, moderna, plural, livre, na qual o respeito à cidadania seja um bem essencial.

Os advogados não compactuam com aqueles que teimam em agir fora das balizas normativas do Estado democrático de Direito. Sabem que não há convivência humana saudável sem cumprimento aos preceitos legais, nascidos sob influxo democrático. Todos os regimes totalitários iniciaram-se em torno de propósitos salvacionistas. Os déspotas sempre souberam o que era melhor para o seu povo. E, indistintamente, levaram nações inteiras ao declínio mais arrasador, sem liberdade e com o sacrifício imediato da Justiça. Ainda estamos longe disso, mas, sem alarmismo, é preciso extirpar esse câncer que se abateu sobre o nosso organismo estatal.

Temos que nos pôr a salvo de posições maniqueístas, fugir de classificações oportunistas entre combatentes do crime e defensores da criminalidade. Não se faz Justiça disseminando a prática contagiosa e epidêmica do desrespeito ao império da Lei.

Outubro de 2008

Associação dos Advogados de São Paulo

Vinícius Campos Prado disse:
07 de outubro de 2008 às 21:09

Nossa, que lista enorme, hein? 15 advogados ( boa parte amigos pessoais do ministro), evidentemente paulistas, em desinteressado desagravo ao Ministro que todo dia está na mídia, cada vez por um fato mais suspeito que o anterior. Já vi listas maiores e mais bem frequentadas, com opiniões diferentes, de quem não depende das decisões do Supremo para receber sua remuneração.

Robespierre disse:
07 de outubro de 2008 às 22:16

...as fanzocas do supremo presidente, vulgo gilmadetes, continuam em plena campanha, claramente de olho em 2010.

Para a direita guasca, nem o presidente Serra, nem o minerim Aécio, só serve o presidente supremo para eliminar essa "raça" liderada por um metalúrgico sem curso superior.

Alex Wolf disse:
07 de outubro de 2008 às 22:18

Eta turminha de puxa sacos...

analucia disse:
07 de outubro de 2008 às 22:38

tudo advogados da elite !!

olhovivo disse:
08 de outubro de 2008 às 08:24

No dia em que a galera começar a raciocinar (?), verá que tudo não passa de pirotecnia. Rotula-se qualquer pluralidade de pessoas de "organização criminosa", monta-se o cenário desproporcional e a coisa é repetida incessantemente na mídia. É o bastante para preencher e empolgar cabeças ocas. Enquanto isso, a verdadeira criminalidade organizada e desorganizada continua em franca ascenção. Como é fácil iludir o povo brasileiro!

Vinícius Campos Prado disse:
08 de outubro de 2008 às 09:26

Bom, no caso de Daniel Dantas, eu acho difícil que seja considerada uma simples " pluralidade de pessoas". Com provas e indícios muito menores, o STF já negou habeas corpus e manteve prisões. Já no caso de empresários milionários, como Monteiro de Barros, que obteve habeas corpus do Supremo ontem, a presunção de inocência volta a valer. Curiosamente, seu cúmplice, o Juiz Nicolau_ boi de piranha_ foi punido, mas os grandes beneficíarios do esquema criminoso no TRT são soltos, como os Monteiro e Luiz Estevão. Quanta coerência, hein? A questão é a seletividade com que o Supremo trata os pacientes. Será que Gilmar está inovando outra vez a Constituição com o Habeas Corpus censitário? Há pirotecnica, sim. Mas o combustível é sempre fornecido pelo Presidente da Suprema Corte. Que, na maioria das vezes, é também o piromaníaco. A sociedade precisa parar de endeusar ocupantes de cargos supremos e analisar a Justiça e o Direito justa e juridicamente ( conceitos não excludentes para nenhum dos grandes juristas que brindaram o mundo com sua existência até hoje). Enquanto o raciocínio jurídico partir de opções ideológicas ou político-partidárias, a mesquinhez que hoje predomina no país impedirá qualquer proposta de efetivação do Direito legítimo e almejado pela sociedade.

olhovivo disse:
08 de outubro de 2008 às 10:55

Touchè, meu caro, só uma perguntinha: V. Exa. leu esses processos todos? Se a resposta for sim, parabéns, pois V. Exa. é mais arguto que o STF. Se a resposta for não, então perdi meu tempo em ler sua análise dos casos citados.

Raul Haidar disse:
08 de outubro de 2008 às 12:35

Parabens à nossa AASP. Por essas e outras razões, orgulho-me de ser associado há mais de 30 anos!

Vinícius Campos Prado disse:
08 de outubro de 2008 às 18:24

Olho vivo, meu caro, você por acaso leu o inquérito e as provas e documentos apresentados pelo Delegado Protógenes todo, ou leu as decisões do Juiz De Sanctis, do Relator e Desembargadores do TRF-3, do Relator e Ministros do STJ sobre o indeferimento dos Habeas Corpus impetrado por Daniel Dantas? Se não leu, por seu prisma você tem perdido seu tempo em tecer comentários sobre decisões do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Aliás, neste seu diapasão ninguém mais pode comentar praticamente nada por aqui. Como não compartilho de seu ponto de vista _ clichê comum utilizado em Direito para rejeitar opiniões opostas_ não vejo necessidade em ler todos os processos do Brasil para emitir opinião sobre os mesmos. Os resumos processuais e os próprios princípios e exegeses adotados pelos julgadores muitas vezes permitem-me exercer o raciocínio jurídico e formular minha opinião. Com relação ao STF, erra também e não poucas vezes, razão pela qual o senso crítico é sempre desejável em quem opera o direito e indubitavelmente preferível a uma postura de concordância submissa com tudo o que vem de lá. Agora, sobre a utilização de seu tempo, não me cabe emitir opinião pelo fato, tampouco pelo mérito.

Vinícius Campos Prado disse:
08 de outubro de 2008 às 18:27

Cícero certamente faria a mesma pergunta catilinária ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, com a diferença que, houvesse um Cícero nos dias de hoje, não haveria Gilmares na Cortes atuais.

João disse:
08 de outubro de 2008 às 19:49

Essa atitude da AASP, juntamente com o artigo "Ilha de Excelências
Lobby atira em Instituto para acertar Gilmar Mendes", só mostra o puxa-saquismo dos advogados abonados paulistas na resolução de suas vidas profissionais no STF. Paulista não muda nunca. Basta lembrar a política café com leite......ehehehehheheh

Paulo Jorge Andrade Trinchão disse:
09 de outubro de 2008 às 12:25

Na qualidade de associado da AASP, solidarizo-me com a oportuna reação. A propósito, o "João" pegou pesado...

DAGOBERTO LOUREIRO - ADVOGADO E PROFESSOR disse:
09 de outubro de 2008 às 15:15

Vejo nesse documento da AASP um libelo a favor da impunidade.
Os fatos foram amontoados desordenadamente, como se tudo tivesse sido feito ilegalmente e com repúdio ao devido processo legal, o que – à evidência – não aconteceu.
Lamentável que essa instituição tradicional e que goza de excelente conceito entre os profissionais de Direito seja usada para, juntamente com o Ministro Dagmar Mendes, atual presidente do STF, melar o processo contra o banqueiro Daniel e seus asseclas.
Essa ação parece coordenada, uma triste campanha para que o direito penal seja espezinhado, favorecendo pessoas que vivem de infringir a lei, lesando incautos e causando prejuízos de monta à sociedade brasileira.

DAGOBERTO LOUREIRO
OAB/ SP Nº 20.522

Luiz Telles disse:
09 de outubro de 2008 às 16:09

E continuam batendo na mesma tecla...

futuka disse:
09 de outubro de 2008 às 21:58

Meus sinceros cumprimentos a AASP por tão bem elaborada nota, ademais com o simples fato e notório com os que compactuam em agir fora das normativas do Estado democrático de Direito.

-Imaginem então quando não se cumpre aquelas que devem ser seguidas institucionalmente por toda a sua corporação, viraria o maior 'kiprocó', terra de ninguém. Não tem ordem maior nem menor regras são regras e devem ser cumpridas a todo o custo.

Aquele que é um servidor das fileiras sabe ao que me refiro, senão seria o fim de tudo.

ANS disse:
13 de outubro de 2008 às 00:41

É brincadeira!Aqui ponto chegamos...? Até quando do Direito dos pobres será violada por toda essa elite !? Não é a toa que a mídia nos emprega todas essa desgraças!!!

Contribuinte Indignado disse:
25 de outubro de 2008 às 23:28

GOSTARIA DE SABER SE O MINISTRO GILMAR MENDES PROCESSOU A REVISTA CARTA CAPITAL OU SE FICOU O DITO PELO NÃO DITO OU FAZ DE CONTA QUAE NÃO LI COISA ALGUMA

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