Em dois anos, desembargador reduz de 7,5 mil para 400 estoque de processos

Em pouco mais de dois anos, o acervo de 7,5 mil processos do desembargador Henrique Herkenhoff, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, caiu para 400 — quantidade equivalente a dois meses de distribuição por desembargador na corte. Até o final do ano, ele espera zerar o estoque. Os processos criminais já foram finalizados e hoje ele trabalha só com o que chega de novo.

Herkenhoff é novo no tribunal. Chegou em 2007, pelo quinto constitucional, para ocupar vaga reservada a integrantes do Ministério Público. De lá para cá, os armários de seu gabinete foram aos poucos sendo deixados de lado. Hoje, há apenas um armário pequeno. As ações existentes estão sobre sua mesa ou na dos seus 15 servidores que, como ele mesmo diz, “carregam o piano” para ele tocar.

Gestão é o segredo do desembargador. Tanto dos processos como da equipe. As ações deixaram de ser dividas por classe: Agravo de Instrumento, Mandado de Segurança, Habeas Corpus, Ação Penal. Henrique Herkenhoff entende que é preciso especializar o servidor em temas e, a partir daí, responsabilizá-lo por todos os processos que chegarem sobre aquele assunto, independente de ser um pedido de HC ou um Agravo. Além disso, o mesmo servidor vai cuidar do processo do começo ao fim.

Quando a ação chega ao gabinete, o servidor especializado naquele assunto o analisa e pede de uma vez todas as diligências necessárias. Segundo o desembargador, esse processo não vai para o final da fila. Assim que o advogado trouxer todas as informações e documentos solicitados, o responsável por aquele processo vai retomá-lo e dar a devida resposta.

A tecnologia aliada a servidores especializados e a “despachos padrões” para casos que se repetem ajudam a dar celeridade aos processos. De acordo com Herkenhoff, as discussões de família, sobre tráfico de drogas e sobre questões previdenciárias não costumam ser muito diferentes uma das outras. Por isso, é possível o uso de padrões de sentenças. Ele é consultado pelos servidores quando há peculiaridades no caso.

A linguagem escolhida é objetiva e foge do rebuscamento. Esse estilo foi um dos principais problemas de adaptação para Maria Sylvia Verta, que trabalha no gabinete. Há 19 anos como servidora, ela se acostumou a trabalhar com termos mais complexos e sentenças longas. Hoje, afirma, venceu o desafio e considera a tática do desembargador uma boa saída para a lentidão na Justiça.

Cerca de 80% das decisões do gabinete são monocráticas porque tratam de assuntos repetitivos e que, portanto, não precisam ser levados para a análise da 2ª Turma, da qual Herkenhoff é integrante. Pelos cálculos do desembargador, 20% de suas decisões são alvos de recurso. “O juiz precisa ser um gerente jurídico, mas não foi treinado para isso. Se ele não procura se aperfeiçoar como administrador, vai continuar com muitos processos. Estudar Direito não é suficiente. É preciso saber gerenciar”, afirma o desembargador à Consultor Jurídico.

Herkenhoff diz que não lê apenas livros de administração e gestão. Acompanha as mudanças legislativas por meio de livros de Direito e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal pelos clippings produzidos pela área de comunicação do TRF-3.

O respeito à jurisprudência é importante, não só para evitar recursos e prestigiar o pensamento dos ministros, mas, principalmente, para não se gastar tempo com o que já tem uma resposta. Segundo o desembargador, com o desenvolvimento do sistema e a consolidação do processo virtual, em pouco tempo, uma busca na rede do tribunal poderá trazer a sentença praticamente pronta. Os servidores terão de lê-la para se certificarem de que não há peculiaridades no caso que mereçam uma resposta específica, e copiar e colar.

Todas as suas estratégias para acabar, de forma rápida, com os processos que chegam em seu gabinete foram transformadas no Manual de Celeridade Judiciária — Autobiografia não autorizada de um juiz sem processos, que deve ser lançado até o final do ano. O livro está em fase de finalização. De forma bem humorada, ele revela as dificuldades, os percalços e as táticas bem-sucedidas que o levaram a ter 400 processos no estoque.

A carreira
Henrique Herkenhoff é jovem. Tem pouco mais de 40 anos. Começou na Justiça Federal como motorista da juíza federal Virgínia Procópio Oliveira Silva, da 1ª Vara Federal Criminal de Vitória (ES). Ela foi a primeira mulher na magistratura federal capixaba e se aposentou este ano.

O desembargador também foi bancário, até passar no concurso para ser procurador do INSS, em Vitória. Depois de alguns anos, tornou-se membro da Procuradoria da República no Espírito Santo. Formado pela Universidade Federal do Espírito Santo, especializou-se em Direito Penal e Processual Penal e Direito do Estado. Em 2003, foi para São Paulo, já como procurador regional da República. Ficou no cargo até 2007, quando foi nomeado para o TRF-3. Termina agora o mestrado em Direito Civil na USP.

Lilian Matsuura

é repórter da revista Consultor Jurídico.

Moacyr Pinto Costa Junior disse:
25 de outubro de 2009 às 17:04

Parabéns ao Desembargador pela eficiência no julgamento dos feitos. É, sem sombra de dúvidas, um grande modelo a ser seguido.
MOACYR PINTO COSTA JUNIOR
Advogado e Professor Universitário
http://mpcjadv.blogspot.com

Thiago disse:
25 de outubro de 2009 às 20:34

No TJ também conseguimos "zerar" nosso acervo. Hoje trabalhamos com o que é distribuído mensalmente, e isso com 4 servidores apenas. Tudo com muito empenho e as vezes sacrifícios pessoais.
A Justiça Estadual Paulista é a mais defasada em termos de estrutura de gabinete. Só tem paralelo com a Justiça Estadual do RS, que conta, s.m.j., com o mesmo número de servidores.
Seria um estudo interessante para a mídia desenvolver, bem como alertar nosso Exmo. Sr. Governador quanto à precáriedade das condições de trabalho. Os dados estão todos disponíveis no site do CNJ (Justiça Aberta); números de processos e servidores disponíveis.

Sunda Hufufuur disse:
25 de outubro de 2009 às 23:50

Well, well, well...
.
O Mestre Sunda Hufufuur, no alto dos ultraplanos escutou essa e ficou preocupado: "Henrique Herkenhoff entende que é preciso especializar o servidor em temas e, a partir daí, responsabilizá-lo por todos os processos que chegarem sobre aquele assunto, independente de ser um pedido de HC ou um Agravo."
.
Terei lido bem? Então alguém com sua liberdade afligida espera que "o direito tornado homem" (definição de juiz) analise, do alto de sua excelência, analise um HC e os processos são simplesmente filtrados pelo "leigo tornado juiz preliminar"(definição que se dá no Transimalaia para "assessores" que fazem um primeiro julgamento)?
.
Esta impressão que temos do parágrafo acima, ou seja , de que um funcionário com connhecimentos rudimentares de direito tem a primeira palavra sobre processos é no mínimo preocupante.
.
Ora, um pouco mais os julgamentos serão feitos por um OCR (programa que scaneia textos)...Mas calma...há um desembargador no RJ que julga todos os embargos de declaração com uma etiqueta.
.
Bem, eu não sei exatamente como é essa tal de "especialização do servidor", mas em virtude dela proponho um recurso a ser inserido no processo civil, a saber, o recurso de "socorro quero minha mãe", com efeito suspensivo.....
.
Sunda Hufufuur
www.hufufuur.com/quemsomos.html

WLStorer disse:
26 de outubro de 2009 às 05:56

O significado destas palavras no dicionário pode dar várias interpretações a tal proeza. Nunca é demais lembrar que a pressa é inimiga da perfeição, no caso, inimiga da Justiça!

Hudson Resedá disse:
26 de outubro de 2009 às 07:17

Inicialmente, antes de tecer comentários despropositados em torno da pessoa do Desembargador Henrique Herkenhoff, devemos sim, na condição de operadores do Direito, fazer elógios por sua trajetória vitoriosa, pois, como abordado pelo CONJUR, o mesmo tem pouco mais de 40 anos e começou na Justiça Federal como motorista. Um exemplo a ser divulgado mais amplamente.
Contudo, conforme venho sustentando ao longo dos anos de constante e incansável luta em defesa dos clientes do nosso escritório, preocupa-me e muito a situação do nosso Judiciário, em especial, quando sabemos que a maioria dos Juzes, Desembargadores e Ministros lançam mão de meros "auxilares", alguns com pouco e outros sem nenhum conhecimento jurídico, para avliar e decidir em torno de peças que são elaboradas e circunstanciadas após longas horas de estudo e pesquisa por parte de nós verdadeiros operadores do Direito. E tais "auxiliares", em sua esmagadora maioria, ressalte-se, são operadores frustrados, que por incompetência, despreparo ou mesmo por desilusão ou falta de oportunidade, trocaram o campo de batalha que é a advocacia diuturna, por gabinetes de Juizes, Desembargadores e Ministros, onde recebem polpudos salários, gratificações e "vantagens outras", às vezes sem o conhecimento dos seus Comandantes.
Espero que o jovem Desembargador, repita-se, digno dos nais sinceros elogios, efetivamente saiba administrar e manter sob conefetivo controle seus "auxiliares" e "carregadores de piano", pois, assimcomo o sucesso, a derrocada também merecerá destaque e ampla divulgação.
A situação é muito delicada.
da juíza federal Virgínia Procópio Oliveira Silva, da 1ª Vara Federal Criminal de Vitória (ES). Ela foi a primeira mulher na magistratura federal capixaba e se aposentou este ano.

Neli disse:
26 de outubro de 2009 às 08:20

Não me conformo com juizes/desembargadores que demoram tempo para sentenciar e outros que ficam falando em sobrecarga de trabalho.
Se acha que está trabalhando demais,vaza,pede aposentadoria,exoneração etc.
Incrível a demora em dar um mero despacho.
Ressalto que isso não ocorre nas varas da fazenda pública(onde atuo) os juízes(não conheço pessoalmente nenhum),são excelentes,rápidos,dignos enfim,de receberem o nome de Magistrado.
Sou contra o quinto constitucional,mas, por esse desembargador,é de se cumprimentar quem o indicou:nasceu para ser magistrado.

Ricardo T. disse:
26 de outubro de 2009 às 12:41

Parabéns ao senhor Desembargador. É preciso limpar as prateleiras. Só uma questão. Conforme demonstra a matéria, o gabinete possui 15 servidores. Com base nisso, é preciso que se invista na contratação de servidores e que estes sejam capacitados e bem remunerados, conforme ocorre na Justiça Federal. A titulo de ilustração, tenho mais de 8.000 processos em minha Vara e não tenho sequer 15 servidores. Mesmo trabalhando mais de 10 horas por dia, sem prejuízo de alguns finais de semana, não consigo baixar o acervo. Inclusive, estou escrevendo esta mensagemn em meu horário de almoço (das 12 horas às 13 horas), pois faço minha refeição no Fórum, para o fim de ganhar tempo, pois começo a trabalhar às 09 horas e só paro depois das 19 horas. Em síntese: Enquanto não houver estrutura, não será possível prestar um trabalho adequado, mesmo com grande esforço do juiz.

Sunda Hufufuur disse:
26 de outubro de 2009 às 21:59

O caso, aliás, o caos, é o seguinte: precisamos mesmo é de mais juízes e não de mais servidores. Vejam que absurda inversão os comentários abaixo: agora por causa da quantidade é louvável que direitos basilares como a liberdade ganhem tratamento burocrático com filtros de auxiliares num HC!!!! Passa a valer a operacionalidade do direito e não sua garantia, o processo e não seu objeto material!
.
Precisamos é de mais juízes. Só que não há mais juízes, a uma porque os gordos salários não poderiam ser mantidos, a duas porque trata-se de uma casta formada nos desvãos da democracia que mais age como uma corporação do que qualquer outra coisa, o que é típico de um país onde a autoridade sente-se mais servida do que servidora. Isso vem desde o Brasil Colônia.
.
Ora, então um servidor, sem estar habilitado para a judicatura agora filtra o oxigênio da liberdade que é o HC? Um pouco mais não serão os membros do Ministério Público a serem indicados pelo quinto, mas o próprio ministério público que julgará!
.
Sunda Hufufuur
www.hufuufur.com/quemsomos.html

Você precisa estar logado para enviar um comentário.