Abdelmassih teve condenação pública antes mesmo do julgamento

Em 1984, nos EUA, o carpinteiro John Stoll foi acusado de molestar sexualmente seis crianças.

As acusações: Stoll e mais dois homens faziam as crianças posar nuas e depois as estupravam, enquanto sua mulher fazia sexo com o próprio filho.

As crianças testemunharam no julgamento e confirmaram todas as acusações. Stoll e seus comparsas foram condenados a penas de até 40 anos.

Caso encerrado. Só havia um problema: era tudo mentira.

As crianças inventaram a história, estimuladas por policiais e promotores sedentos por uma condenação.

Quase 20 anos depois, as "vítimas" voltaram ao tribunal, dessa vez para admitir que não houve abuso.

Stoll foi solto, depois de quase duas décadas encarcerado. Sua mãe morreu enquanto o filho estava preso, seu casamento acabou, a carreira, idem.

O caso teve notoriedade pois o embuste foi revelado. Mas basta um conhecimento superficial de psicologia forense para saber que deve haver milhares de pessoas injustamente condenadas devido à junção de quatro vieses correlatos da mente humana.

Primeiro, sabe-se que nossa memória é bem menos confiável do que imaginamos e pode ser profundamente influenciada por eventos ocorridos quando a memória é formada e pela maneira como ela é recuperada.

Segundo: nosso respeito, beirando a submissão, por autoridades.

O terceiro problema é o desejo de agradar e de pertencer. A maioria das pessoas não gosta de ser do contra, de decepcionar os outros. É frequente que testemunhas digam o que acreditam que o interlocutor quer ouvir — ainda mais quando esse interlocutor é um representante do Judiciário.

Finalmente, damos grande valor a um testemunho ocular. Se alguém lhe disser, com convicção, que viu fulano fazendo isso ou aquilo, provavelmente você acreditará. Acreditamos na bondade e na acuidade alheias.

Junte esses quatro fatores e veja como é difícil a absolvição de um réu quando a Promotoria está convencida da sua culpa e tem testemunhas para confirmar sua história.

O enredo se repete amiúde. Um crime hediondo é revelado. Suspeitos são rapidamente apontados. Testemunhas aparecem. Surge um furor coletivo pela punição dos suspeitos. O clima de linchamento propicia o surgimento de novos testemunhos, cada vez mais detalhados e terríveis. O direito de defesa é suprimido, as vozes dissonantes, sufocadas.

O Brasil já viveu caso assim, em 1994, no episódio da Escola Base. Donos e funcionários foram acusados de estuprar alunos. Os envolvidos tiveram suas vidas destruídas. A escola foi depredada e fechada. Um programa de TV pediu pena de morte aos "pedófilos". Anos depois, a investigação foi concluída e o casal foi inocentado.

Não havia evidência do crime. Mas era tarde. O dano já havia sido feito.

Hoje a história se repete com o dr. Roger Abdelmassih. Dezenas de testemunhas atestando os abusos sexuais do médico. O mesmo furor. Capas de jornais e revistas, matérias na TV: um escroque de última categoria.

O Judiciário vai mais longe e o coloca em prisão preventiva. O conselho de medicina suspende sua licença.

Não sei qual será o desfecho dessa história. Tampouco sei se o dr. Abdelmassih cometeu os crimes que lhe são imputados. Não ficarei surpreso se todas as acusações forem verdadeiras.

Acredito que os picaretas, pulhas e psicopatas são distribuídos aleatoriamente dentre todas as profissões. Não conheço as supostas vítimas, mas seria improvável que tantas mulheres acusassem um homem de um mesmo crime sem ter razão para isso.

Por outro lado, tampouco me surpreenderia se o dr. Abdelmassih fosse inocente. As 56 acusadoras não são nem 0,2% das pacientes que ele atendeu. Se fosse o predador sexual que pintam, imagino que o número de vítimas seria maior. Também é estranho que tenham demorado tantos anos para acusá-lo e tenham prosseguido o tratamento depois do abuso.

Mas por que essas mulheres viriam agora a público se fosse tudo mentira?

É possível que algumas tenham falsas memórias, que outras sejam aproveitadoras e que outras tenham sido estimuladas por promotores sôfregos. É improvável. Mas é possível.

E o sistema Judiciário brasileiro respeita uma premissa básica dos sistemas republicanos: todo cidadão é inocente até prova em contrário. Essa é uma garantia fundamental do Estado de Direito, sem a qual todo e qualquer cidadão está sujeito à arbitrariedade. A supressão desses direitos individuais é ao mesmo tempo sintoma e prenúncio de uma sociedade que resvala rumo ao autoritarismo.

Não quero defender o dr. Abdelmassih. Se for culpado de um terço do que lhe acusam, é um torpe. Mas quero, sim, reivindicar o direito de defesa e de liberdade desse e de qualquer cidadão, acusado de qualquer crime, até sua condenação, a não ser em casos de possibilidade de fuga ou quando a liberdade do réu representa perigo.

A mídia deveria tratá-lo como réu, não como condenado. O lugar de seu julgamento é um tribunal, não a praça pública. O Estado foi criado para garantir o usufruto das liberdades individuais. Como disse o jurista inglês William Blackstone (1723-1780): é melhor que 10 culpados escapem do que 1 inocente sofra.

Fico consternado de pensar na possibilidade de que estejamos sujeitos a ataques sexuais daqueles a quem confiamos nossa saúde. Mas fico mais preocupado ainda de saber que nossa liberdade e dignidade podem ser arbitrariamente confiscadas por quem deveria salvaguardá-las. Se hoje nossa Constituição não valer para um estuprador ou um assassino, amanhã não valerá para ninguém.

[Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, na edição de 24 de setembro de 2009.]

Gustavo Ioschpe

é economista, mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Yale

Roland Freisler disse:
24 de setembro de 2009 às 18:37

E do casal Nardoni, ninguém fala nada? Também tiveram a condenação pública antes do julgamento. Feliz mesmo só o Pimenta Neves - julgadoe condenado pela Justiça, está ai livre, leve e solto. Não vai cumprir um dia de cadeia, vão ver só.Essa é a nossa "justissa".

Observador.. disse:
24 de setembro de 2009 às 19:12

Nos faz pensar este artigo.Muito lúcido.

wagner-cam disse:
24 de setembro de 2009 às 19:28

Realmente este artigo nos faz pensar....pensar na dor, sofrimento e humilhação que as dezenas de vítimas passaram com os crimes cometidos por este senhor...nos faz pensar que se ele respondesse solto ao processo, com a protelação que as (legais) chicanas processuais poderiam causar ao processo, muitas outras potenciais vítimas poderiam ser molestadas, quando o caso, esquecido pelo tempo e pelos jornais, saísse das manchetes e tudo "voltasse ao normal", inclusive, este senhor, ao exerício da medicina...nos faz pensar se o garantismo que só vê direitos fundamentais aos acusados, se esquece dos direitos fundamentais da sociedade de ser cautelarmente protegida de criminosos hediondos, ainda mais em situações patentes como esta em que se demonstra que o réu reiteradamente pratica o delito...
Realmente, ele pode ser inocente...mas pontuais erros do passado, não justificam que o Estado permaneça inerte e desproteja a sociedade e potenciais vítimas de perigosos criminosos, seja de quais classes sociais eles sejam...

Eri Coelho - Jornalista disse:
24 de setembro de 2009 às 19:55

Está achando que somos todos idiotas?
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Alguns comentários você lê e concorda, outros discorda parcialmente, este é daqueles que o deixa irritado: Está achando que somos todos idiotas?
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Não dá para imaginar que mais de 70 mulheres estejam mentindo! Ao contrário, é possível imaginar que há centenas ou milhares de mulheres que também foram abusadas, porém, por vergonha não queiram prestar queixa ou sequer se apresentar.
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Por outro lado, seria bom colher amostras de sangue do dito cujo para eventuais exames de DNA, pois, através dos seus métodos nada ortodoxos é possível imaginar que ele tenha engravidado algumas pacientes.
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Só idiota para acreditar na inocência do dito cujo.

Mauricio_ disse:
25 de setembro de 2009 às 00:43

No caso de médico, é difícil - senão impossível - acreditar que dezenas e dezenas de mulheres com problemas de fertilidade, sem vínculos entre si, residentes nos mais diferentes rincões, tenham formado um conluio ou tenham entrado em ilusão coletiva para imputar ao médico atos de violência sexual, pondo em risco seus próprios casamentos, em dúvida a maternidade dos próprios filhos e se expondo publicamente em uma situação tão constrangedora.
Por outro lado, em outros casos, sabemos que uma parcela da imprensa abusa de seu direito de informação e não admite nenhuma regra que venha a regulamentar sua atividade.
Vemos verdadeiros absurdo em alguns programas sensacionalistas, cujos apresentadores não relutam nem um pouco em chamar alguém não condenado de bandido, de vagabundo, ao vivo, pouco se importando se aquela pessoa será inocentada mais à frente das acusações pela Justiça.
Esses abusos sim precisam ser combatidos. Não se trata de censura, mas de impor limites ao abuso no direito de informar. Todas as profissões têm regras, mas apenas a imprensa quer viver no mundo da auto-regulamentação, onde cabe ao próprio profissional impor seus próprios limites. Aí também não, porque ninguém tem o direito de xingar pessoas ao vivo, à frente de câmeras de TV, nem de promover, muita vezes com base em informações desencontradas, no calor dos acontecimentos, verdadeiros linchamentos morais, cujos danos nunca poderão ser reparados.

Habib Tamer Badião disse:
25 de setembro de 2009 às 00:57

Quem conhece Roger Abdelmassi sabe que tudo que estão produzindo contra este excelente médico é um monte de mentiras que só serve para enriquecer a imprensa suja deste país. Mulheres que vendo a oportunidade de ter de volta o dinheiro pago num procedimento médico aproveitam lançar contra o honra deste cientista e faturar!!!!
A verdade vai triunfar ....Abdelmassi é inocente!!!

Edson Sampaio disse:
25 de setembro de 2009 às 10:46

Devemos ter o cuidado de não condenar extemporaneamente este médico Roger Abdelmassih. A polícia deverá aprofundar-se nas investigações e produzir as provas cabais contra ele. As denúncias são gravíssimas. Há, em tese, existência de vítimas. As provas são elementos basilares para o julgamento. A imprensa e o povo leigo têm lançado condenações exorbitantes que, depois do trabalho policial investigativo se consegue provar inocência. Talvez não seja esse o caso do médico que a imprensa noticiou mas, se chegar ao conjunto de provas de que ele realmente cometeu esses crimes, deverá receber uma pena, para cada um deles, que deverá servir de exemplo para toda a classe porque, a meu sentir, muitos outros médicos praticam esse tipo de crime. Só não são denunciados. Vale aqui ressaltar que o dinheiro que esse médico tem e que ganhou de nada valerá para sua condenação ou eventual absolvição porque a Justiça deverá prevalecer. Por isso, melhor esperar para que se comprove seu ilícito para então comungarmos com a Lei e a Justiça de nosso país. Por enquanto, muito bom está manter o médico preso porque as investigações acerca do crime, nesse caso, fluem melhor.

acs disse:
28 de setembro de 2009 às 21:14

Aqueles que teceram comentarios smpáticos ao medico preso,eu sugiro que façam um teste simples;Permitam que suas esposas e mães sejam sedadas e examinadas pelo acusado e depois tirem suas proprias conclusões...

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