
O criminalista Alberto Zacharias Toron nunca esqueceu o conselho que recebeu do pai, um imigrante judeu, no dia em que contou-lhe de sua intenção de estudar Direito: "Não meu filho, não faça Direito, pois sua família não é relacionada com ninguém e você vai ter muita dificuldade". A trajetória vitoriosa do estudante e, posteriormente, do advogado provaram que o velho Toron não estava certo. "Com estudo, garra e sorte você pode ir além e construir uma carreira", diz Toron, o filho, que recebeu a revista Consultor Jurídico em seu escritório, para falar da sua vida, carreira e dos livros que marcaram a sua vida.
Já no seu primeiro ano de Direito, em 1977, Toron decidiu prestar outro vestibular. Desta vez para o curso de Ciências Sociais, na PUC-SP. Passou e teve a oportunidade de integrar a diretoria do DCE (Diretório Central dos Estudantes) clandestino da escola. Ele conta saudoso que a chapa chamava-se A todo vapor e era composta pelas tendências Libelu, uma das mais influentes correntes do movimento estudantil, de tendência socialista, nos anos 1980.
“Eu sempre tive uma vocação, um horizonte aberto para outros ramos que não o do Direito. Quando acabei Direito comecei mestrado em Filosofia do Direito e, paralelo a isso, fui trabalhar com Márcio Thomaz Bastos”, conta Toron. No escritório de Thomaz Bastos, o advogado ficou uns cinco anos. Nesta época nasceu a vocação para o Direito Penal. De lá para cá, não parou mais. Atuou na defesa dos juízes Nicolau dos Santos Neto e João Carlos da Rocha Mattos, na acusação de Suzane Richtofen, além de ser o defensor de boa parte dos envolvidos nas grandes operações da Polícia Federal, nos últimos anos. Está, ainda, entre os 12 advogados criminalistas mais admirados no Brasil, segundo a Análise Advocacia de 2007, 2008 e 2009.
Como conselheiro da OAB, foi o articulador da proposta transformada em Súmula Vinculante 14, que garante a advogados e defensores públicos o acesso a provas documentadas levantadas em inquéritos policiais, mesmo que ainda em andamento e sob sigilo.
Para ele, contudo, a Advocacia não é um dom, “oralidade talvez seja, mas tudo isso você pode construir, aprender, aprimorar, desenvolver. O estudo e a sorte são fatores fundamentais também", diz.
“Numa interpretação cabalística, a palavra sorte em hebraico é expressa por um vocábulo que se chama Mazal. São três letras em hebraico, que expressa ideia de tempo, lugar e estudo. Não basta estar na hora certa, no lugar certo e não ter discernimento, pois você não vê as oportunidades. Quando eu falo de sorte, me refiro a isso, uma combinação, pois só o estudo vai te possibilitar enxergar”, explica o criminalista.
O que mais fascina o advogado no campo do Direito Penal é a ideia de competição. O tal do ganhar e perder. Para Toron, esse jogo o motiva tanto quanto a busca da Justiça. “Eu já apanhei muito, mas sempre tive a preocupação de fazer um bom trabalho, cliente bem atendido é um cliente grato a você do ponto de vista humano, mesmo quando você não ganha a causa”, conta.
Em matéria de leituras, Toron conta que começou lendo jornais. Foi influenciado pelo pai, que usou a leitura diária dos jornais para aprender, na raça, a língua portuguesa. O advogado não sabe precisar a quantidade de livros que tem, mas seu escritório dispõe de uma bem sortida biblioteca. As paredes de sua sala são forradas de prateleiras, com livros que começaram a ser colocados ali na época em que fez mestrado, há quase duas décadas. Na música, o advogado é apaixonado por MPB e por Bossa Nova. O grande hobby é navegar em sua lancha, com a família, e desfruta da casa numa ilha de Paraty, no Rio de Janeiro.
Literatura
Devorador de livros técnicos, o criminalista lamenta não ter dedicado mais de seu tempo à literatura. Mesmo assim, Toron cita alguns livros que marcaram a sua passagem por este gênero literário. Dentre eles, está Mar Morto, de Jorge Amado. O livro, publicado em 1936, trata do nascimento, vida e morte de Guma, um personagem dos cais baianos, uma lenda. A obra também descreve, de maneira detalhada, o modo de vida miserável do povo do mar, a morte sempre latente, náufragos e amores. Corações Sujos, de Fernando Morais e o Mundo de Sófia, de Jostein Gaarder, também estão na lista de obras literárias que deixaram marcas na formação do advogado, bem como Entre o passado e o Futuro, de Hannah Arendt, este no campo das ciências sociais .
Livro didático
São incontáveis os livros que Alberto Toron leu para formação da sua convicção intelectual. O livro O Que é Isso, Companheiro?, do jornalista, escritor e político Fernando Gabeira, foi o que mais influenciou em como enxergar a esquerda, quando o advogado entrava pelos seus 20 anos. Em 1979, após seu retorno ao Brasil vindo exílio, o autor conta sua experiência na luta armada contra a ditadura militar brasileira nos anos 1960, o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sua prisão e posterior exílio na Europa durante os anos 1970. Na época o livro foi grande sucesso de vendas. O Estado e a Revolução, de Lênin, também está na lista. A edição lida por Toron foi rodada em mimeografo, no centro Acadêmico de Economia da PUC-SP, na época em que fazia Ciências Sociais. A pirataria, no caso, se justificava, já que a circulação do livro, que fala de marxismo, proletariado e revolução, estava proibida. “Outro livro importante no campo teórico foi o do professor Luis Alfredo Galvão, Marx e Max”,diz Toron.
Livro jurídico
Toron cita diversos autores e que influenciaram a sua forma de pensar o Direito. Conta que leu quase todos de Nelson Hungria, obras que considera fundamental. Magalhães Noronha, Norberto Bobbio e Miguel Reale Júnior também colaboraram. Dos autores mais novos, ele gosta de ler Cezar Roberto Bittencourt e Luis Régis Prado. O pensador que mais o influenciou na forma de ver o Direito Penal, no entanto, foi o alemão Winfried Hassemer, com Fundamentos do Direito Penal e o italiano Túlio Padovani, com L’utopia punitiva. “Este último foi um trabalho que marcou na forma de encarar o direito Penal". Destaca também a obra de Munhoz Conde Direito Penal e Controle Social.
Li e recomendo
O deserto dos tártaros, do italiano Dino Buzzati. O romance, de 1940, é uma das mais belas obras que Toron já leu e, por isso, recomenda a leitura e releitura. Nas entrelinhas, o livro trata da maneira como as pessoas conduzem a vida. Para isso, o texto mexe com o leitor ao abordar os problemas do comodismo que conduz ao hábito e à aceitação de quase tudo que é imposto. Há também uma reflexão sobre o tempo, sobre a atitude do ser humano frente à vida e sua relação com a natureza e a sociedade. No enredo, o tenente Drogo é destinado à fortaleza de Bastiano, que se encontra na fronteira com o chamado deserto dos Tártaros, onde os oficiais levam uma vida sedentária à espera de um hipotético ataque. Passam-se os anos, e a tensão causada pela longa espera de um ataque leva a uma total desmoralização das tropas. Quando por fim este chega, a guarnição é incapaz de fazer frente ao inimigo devido à sua longa inatividade. Leia mais sobre a resenha no portal Recanto das Letras.
Desses todos, o único realmente bom é o Mundo de Sofia... o resto, não me despertaram o interesse.
livros de esquerda? Não se trata disso o problema de modo algum, mas sim o mau gosto literário de selecionar livros que acrescentam tão pouco à vida intelectual de uma pessoa. Gostaria de ver a lista de pessoas como o eminente Ministro Carlos Ayres Britto, indubitavelmente teria muito a ensinar sobre literatura ao aparentemente incipiente Dr. Toron... sem faltar de modo algum com a devida fidalguia a que faz jus o ilustre jurista, mas é apenas uma questão de gosto.
Mas só criminalistas gostam de criminalistas. Formam uma confraria na qual a admiração é mútua, mas dificilmente isso passa para outras áreas.
Por essas e outras que eu gostaria que existissem 2 OABs. Uma para os criminalistas e outra para os demais. São visões de mundo, ética e justiça diferentes. Nada mais justo que a classe fosse separada de acordo com a maior ou menor flexibilidade de suas conciências.
Mas só criminalistas gostam de criminalistas. Formam uma confraria na qual a admiração é mútua, mas dificilmente isso passa para outras áreas.
Por essas e outras que eu gostaria que existissem 2 OABs. Uma para os criminalistas e outra para os demais. São visões de mundo, ética e justiça diferentes. Nada mais justo que a classe fosse separada de acordo com a maior ou menor flexibilidade de suas conciências.
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