Petrobras é ré de arbitragens sigilosas que envolvem bilhões

A divulgação das investigações de esquemas de corrupção na Petrobras pela operação “lava jato” fez com que a estatal congelasse pagamentos a fornecedores e prestadores de serviços e se recusasse a rever e atualizar os contratos que tem com eles. Por causa disso, diversas empresas estão iniciando processos arbitrais por inadimplemento contratual contra a petrolífera. Os valores envolvidos estão na casa dos bilhões.

O grande problema é que os investidores não sabem dessas arbitragens, devido à natureza sigilosa desse tipo de procedimento. Mas advogados ouvidos pela revista Consultor Jurídico afirmam que a Petrobras deveria divulgá-las em suas demonstrações financeiras, tendo em vista as grandes quantias envolvidas.

Para o professor de Contabilidade e Finanças da UFRJ Adriano Rodrigues, os processos arbitrais devem receber abordagem semelhante aos judiciais nas demonstrações financeiras. Ou seja, é preciso que cada ação seja avaliada quanto à probabilidade de perda e receba uma classificação de risco: remoto, possível ou provável. As que são enquadradas na primeira categoria não precisam constar do balanço.

Porém, as dos dois outros tipos devem estar mencionadas no documento. As possíveis, embora não impactem o passivo, devem ser citadas nas Notas Explicativas. Já as prováveis também precisam ter os seus valores contingenciados incluídos no passivo e descontados do lucro líquido.

No entanto, nas informações relativas ao terceiro trimestre de 2014 (não auditadas) e ao segundo trimestre do mesmo ano (as últimas assinadas pela PricewaterhouseCoopers), e no balanço do exercício de 2013 da Petrobras, não há dados de nenhum processo arbitral específico.

Risco genérico
O Formulário de Referência de 2014 da estatal segue a mesma linha das demonstrações financeiras. Há um fator de risco genérico, presente em todos os documentos do tipo, no qual a empresa informa que pode “ter prejuízos e perder tempo e dinheiro se defendendo em possíveis processos judiciais e de arbitragem”. A petrolífera ainda garante no formulário não haver “processos sigilosos relevantes” em que ela seja parte.

Como a Petrobras não inseriu essas informações em suas demonstrações financeiras, ela deveria publicar fato relevante divulgando os processos que envolvem valores mais altos. Caso não tome nenhuma dessas duas providências, a Comissão de Valores Mobiliários pode aplicar penalidades à petrolífera e aos seus administradores quando os resultados vierem a público.

Sigilo em baixa
Há quem aponte que o sigilo vem perdendo importâncias nas arbitragens e defenda que a confidencialidade não se aplica para procedimentos arbitrais envolvendo entidades públicas, pois violaria o princípio da publicidade, estabelecido no artigo 37 da Constituição Federal.  

Mas essa opinião é controversa. Uma outra corrente entende que apenas as entidades da Administração Pública direta (como a União, os estados e municípios, além de órgãos vinculados a eles, como ministérios e secretarias) deveriam expor todos os seus litígios em câmaras arbitrais.

Segundo Caio Rocha, do Rocha, Marinho e Sales Advogados, o sigilo nas arbitragens existe para proteger segredos industriais e impedir que os termos dos pactos comerciais venham a público. 

“A confidencialidade é um elemento muito importante para as empresas, por isso elas buscam a solução pela via arbitral. Quando uma empresa, mesmo que seja pública, não se submete a esse tipo de resolução de conflitos, ela fica em desvantagem competitiva em relação a suas concorrentes”, explica Rocha. Mas ele concorda com a divulgação das sentenças das câmaras especializadas quando o procedimento chegar ao fim.

Indenização a investidores
Diferentemente da questão da não apresentação do balanço auditado pela Petrobras, não há consenso entre os advogados se os investidores têm direito a reparações pela omissão das informações sobre os processos arbitrais.

Profissionais ouvidos pela ConJur acham que quem tem ações da Petrobras pode pedir indenizações à estatal e a seus administradores por conta da não divulgação de processos envolvendo valores vultosos, os quais podem afetar o resultado operacional da empresa e diminuir o valor dos papéis e dos dividendos.

Por outro lado, Rocha afirma que o fato de estatal manter em sigilo suas arbitragens não enseja, por si só, medidas judiciais dos acionistas minoritários contra a petrolífera e seus executivos. De acordo com ele, quem investe no mercado de capitais “tem ciência dos riscos” e sabe que não terá acesso a todas as informações referentes à operação da companhia.

Outro argumento nessa mesma linha é que não cabe reparação da Petrobras aos investidores, uma vez que crise da estatal está sendo amplamente divulgada pela imprensa. Na visão dele, o que resta ao investidor é vender as ações da petrolífera. Ou esperar até que elas voltem a se valorizar.

Sérgio Rodas

é editor da revista Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.

Fernando José Gonçalves disse:
25 de fevereiro de 2015 às 15:13

Isso é dinheiro de pinga, considerando o prejuízo causado pelas empreiteiras , diretores da empresa e políticos envolvidos (cerca de 86 bi). Entretanto, segundo a presidente Dilma, tudo está sob o mais rígido e absoluto controle, aliás como sempre esteve (pelo menos no que tange a ela, que não viu, ouviu ou soube de nada).

alvarojr disse:
25 de fevereiro de 2015 às 15:45

Ao comentar o rebaixamento da avaliação da Petrobras pela agência de risco Moody's a PresidANTA PosTe afirmou que isso se devia ao desconhecimento do que ocorria na empresa. Isso vindo de uma pessoa que aprovou a compra da refinaria de Pasadena sem ler o contrato e depois disse que se tivesse tomado conhecimento das cláusulas Marlin e Put Option não a teria aprovado.
Na cabecinha dessa senhora que ocupa o mais alto cargo público do país, o "ato em defesa da Petrobras" liderado pelo seu mentor (o cara que jura que não sabia de nada) é a medida mais adequada para sanear as finanças da companhia que um dia foi motivo de orgulho nacional.
Reunir um punhado de esquerdopatas acéfalos vestindo camisas com o rosto de Che Guevara (entre eles Chico Buarque, Marilena Chauí...) e entoando gritos contra a mídia é o bastante para resolver os problemas pelos quais passa a estatal.
Aliás, a petição pelo impeachment do PosTe no site da Avaaz já tem quase 2 milhões de assinaturas. A meta é chegar a 5 milhões.
No entanto, os esquerdopatas acéfalos seguidores do cara que jura que não sabia de nada já tentam retirar a petição do site.
Quanta cara-de-pau!
Álvaro Paulino César Júnior
OAB/MG 123.168

JALL disse:
26 de fevereiro de 2015 às 08:59

Não se passa um dia sem que as fraudes e mentiras que já eram uma constante nas práticas da Petrobrás e também nas demais estatais, autarquias e órgãos da administração pública direta venha se agravando. Parece que o governo mergulhou de cabeça numa empreitada suicida que levará certamente ao impeachment. Agora essa de inadimplência de R$ 4 bilhões, ser tratada às escondidas dos acionistas não resta senão concluir-se que só a privatização das estatais é o caminho para uma normalização da economia e a pacificação da sociedade.

Miguel Teixeira Filho disse:
26 de fevereiro de 2015 às 10:51

Saudades dos tempos em que escândalos governamentais limitavam-se a fotos comprometedoras de presidentes em camarotes de carnaval.

Roberto Armond - advogado disse:
26 de fevereiro de 2015 às 11:55

Infelizmente, no caminhar da Petrobrás, temos que a solução seja a privatização.
Afinal, todos os dias sai da cartola mais um problema, mais um fato desconhecido, mais alguns bilhões de prejuízo.
O sócio controlador da estatal, no caso a União Federal, não tem qualquer credibilidade, uma vez que os Diretores por ele indicado estão, em sua maioria, sendo processados criminalmente por corrupção.
É triste, mas não vejo outra solução.
Difícil admitir mas quebraram a Petrobrás!
PRIVATIZAÇÃO JÁ

Carlos Bevilacqua disse:
26 de fevereiro de 2015 às 12:06

Afinal, a ocultação de tal desvario só é de interesse dos que estão, direta e indiretamente envolvidos na falcatrua, principalmente dos que receberam propinas. Tal "sigilo" afronta diretamente os princípios contábeis de transparência e fidedignidade.

Citoyen disse:
26 de fevereiro de 2015 às 21:06

Sim, houve época, e a vale era uma estatal também, em que petrobrás e vale deram aval ao tesouro nacional, porque bancos internacionais não davam reconheciam liquidez ao tesouro. Aí, petrobrás e vale, por sua credibilidade internacional, garantiam a liquidez das amortizações que o tesouro nacional deveria efetivar, por conta de operações financeiras. Estou falando das décadas - não mais me lembro dos anos! - de setenta e oitenta. As operãções devem estar nos registros históricos das empresas e do tesouro nacional. Como é triste ver o que a elite governamental fez da petrobrás, mesmo se considerarmos a época em que a petrobrás distribuidora começou a atuar, em que os arquivos do judiciário guardam, no rio, são paulo, minas, no sul, norte e nordeste, as inúmeras ações propostas pelas distribuidoras existentes. E, no rio, basta verificar a fotos do aterro, em que os postos não eram petrobrás, mas uma "rescisão" do contrato firmado pelo estado com a shell, que tinha a exploração, acabou levando à nova concorrência, da qual a shell inabilmente participou, contra a opinião dos seus advogados de então, e da qual saiu vencedora a petrobrás, com o oferecimento de uma "vantagem indireta", consistente no uso do banco do estado, para pagamento da sua folha de pagamento. A shell, depois de ter participado, com base num parecer jurídico de um consultor externo, perdeu a disputa jurídica posterior, em que se envolveu, buscando voltar ao "statu quo ante", por esmagadora maioria de mais de trinta votos a favor da improcedência do seu pleito! Mas tudo isso, hoje, é história, que conto, por ter mais de trinta anos, e porque não estou nomeando aqueles que foram responsáveis pelo fracasso que sofreu a shell, que tinha uma impecável atuação no aterro.

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