Alexandre Ferreira: Custo Brasil da falta de segurança é elevado

Já que ocupar o degrau mais alto do pódio na triste estatística mundial do país com o maior número absoluto de homicídios não está afetando as autoridades e a população brasileira, com mais de 58,5 mil homicídios registrados no ano passado, será que se fizermos uma abordagem econômica da falta de segurança poderemos, finalmente, chamar a atenção das pessoas para a grave situação da segurança pública brasileira?

Muitas vezes ouvimos o termo “custo Brasil” e logo o relacionamos à falta de infraestrutura de estradas, ferrovias, portos e aeroportos. Então, se relacionarmos o termo à falta de segurança pública?

Para qualquer bem, serviço ou produto que compramos/contratamos sabemos da elevada carga tributária cobrada, inclusive dos impostos sobre impostos incidentes desde sua origem até a venda ao consumidor final. Entretanto, não paramos para pensar nos custos embutidos pela falta de segurança.

No Brasil se costuma dizer que o alto custo dos produtos se deve somente às altas taxas tributárias e condições de transporte/armazenamento, mas vemos que ele aumenta ainda mais por causa da contratação, em todas as fases da cadeia produtiva, de serviços e seguros, bem como aquisição de equipamentos, necessários por causa da insegurança pública.

Desde o início da cadeia produtiva, passando pela distribuição, até à venda ao consumidor, o empresário investe em segurança para garantir a entrega de seus produtos e para que seus clientes se sintam seguros no ambiente de compra. A questão é: quem pagará o custo adicional provocado por isso tudo? O consumidor, claro.

Alguns problemas enfrentados pelos profissionais da segurança pública são: excesso de trabalho, má gestão, carga horária extenuante que causa cansaço e afastamento do seio familiar, péssimas condições de trabalho, falta de equipamentos de proteção individual e de terceiros, baixos salários, falta de perspectiva e oportunidade profissionais, falta de apoio biopsicossocial, vícios e baixa qualidade de formação profissional e humanizada.

Este sucateamento proposital dos órgãos de segurança e a falta de reforma do arcaico e burocrático modelo de segurança pública brasileiro refletem na baixa qualidade do trabalho apresentado pelos policiais.

A quem é garantida a segurança pública neste cenário catastrófico?

Por outro lado, as indústrias da segurança privada e eletrônica crescem cada vez mais diariamente em resposta à esta política de degradação da segurança pública. A quem interessa o sucateamento e, consequentemente, terceirização da segurança pública?

A falta de segurança pública reflete ainda no crescimento vertiginoso dos condomínios horizontais e verticais fechados que promovem falsa sensação de segurança. Entretanto, movimenta grandes cifras no mercado imobiliário.

Da mesma forma a indústria bélica, através de parlamentares defensores do belicismo, se aproveita do caos provocado pela insegurança pública para estimular a discussão da flexibilização do porte e compra de armas. A quem realmente interessa o armamentismo?

O ataque aos direitos humanos, reduzindo-o à pastoral carcerária, reproduzindo a frase de que “bandido bom é bandido morto”, como se tivéssemos o direito ao justiçamento, ou à pena de morte, não contribui em nada na formação de uma sociedade civilizada e sequer não aponta o caminho para a solução do problema da violência, ao contrário, estimula-a ainda mais, a violência pela violência, o “olho por olho, dente por dente”.

Outra falácia é a teoria de que a redução da maioridade penal reduzirá a ocorrência de delitos envolvendo menores de 18 anos.

A solução não é simples, mas existe e mexe principalmente com o interesse de grupos econômicos e políticos que estão se sobressaindo ao de toda a população que, diga-se de passagem, paga muito caro diariamente com centenas de vidas. Este é o verdadeiro Custo Brasil.

Alexandre Cavalcanti Barretto Ferreira

é agente especial da Polícia Federal há 19 anos, ex-Diretor de Relações do Trabalaho da Fenapef, Integrante do FOSEG-RN (Fórum de Segurança Pública do RN) e Associado à OPB (Ordem dos Policiais do Brasil).

Elvys Barankievicz disse:
30 de março de 2016 às 11:30

Tem razão o articulista! O custo da insegurança é altíssimo. Ele mencionou os gastos adicionais que as pessoas fazem para suprir a ausência do Poder Público naquela que é uma de suas prerrogativas mais tradicionais, mas há ainda outro custo: o oriundo da desistência do empreendimento.
Qual o prejuízo para uma empreita (e para o país) abortada porque o cidadão se convence que de os bandidos não a deixarão em paz e que ele não consegue arcar com os custos de segurança particular? Difícil dizer... mas basta ver que os empresários se desfizeram de caixas eletrônicos em seus negócios (antes estavam em mercados, postos e nas ruas), os assaltos às lotéricas (na mira porque movimentam muito dinheiro vivo mas não em o nível de segurança dos bancos) ou a dificuldade das agências e franquias de correio em implementar o serviço de banco postal (ninguém o quer porque precisariam investir pesadamente em segurança).
E o que dizer de atividades corriqueiras em áreas abertas ao público, como ir a um parque, a uma cachoeira, andar na rua, de bicicleta ou fazer uma trilha na mata? Eu já desisti várias vezes! É parte da rotina do “serviço” dos criminosos e vagabundos a tocaia, a espreita, ou seja, o cidadão faz qualquer dessas atividades e se torna uma vítima. A solução para quem quer desfrutar de tal lazer é ir a locais particulares fechados e caríssimos (resorts, hotéis fazenda, condomínios, etc.). Duvidam? Tentem buscar na internet o caminho para uma cachoeira ou trilha, e a primeira ocorrência será uma notícia de estupro, esfaqueamento ou qualquer coisa do gênero.
Quanto custa esta conjuntura de insegurança, por exemplo, para o mercado do ciclismo amador posto que as pessoal mal podem pedalar na rua (o profissional pedala em velódromo...)?

Elvys Barankievicz disse:
30 de março de 2016 às 11:32

Se tivéssemos segurança de verdade, será teríamos um mercado muitíssimo maior (como nos países escandinavos onde até 50% da população trafega de bike)?
É muito difícil fazer uma conta precisa e responder, mas a intuição sozinha é suficiente para dizer que o custo da insegurança é enorme, sem contar a dignidade e vidas perdidas, este um custo inestimável.
Portanto, muito oportuno o artigo. Apenas faço uma pergunta ao articulista: em que evidência se apóia para afirmar que o desmantelamento da segurança é proposital? Chegou a fazer algum estudo formal sobre isso? Não sei se posso concordar, às vezes tenho impressão que decorre do caos, de incompetência generalizada mesmo, até porque, desmantelar intencionalmente dá trabalho e exige muitas competências. De qualquer forma, ótimo artigo.

Sérgio Renault disse:
30 de março de 2016 às 12:17

Excelente texto. Apenas uma observação diante da falência da segurança publica:

" Em comunidades novas e selvagens, onde impera a violência(Brasil), um homem honesto pode proteger a si mesmo, e até que sejam concebidos outros meios para garantir sua segurança(hj inexistentes), seria a um só tempo algo tolo e perverso persuadi-lo a entregar suas armas enquanto os homens q são perigodos p/ a comunidade conservan as deles"
T. Roosevelt -Conferência internacional do premio Nobel 1910.

Eri Coelho - Jornalista disse:
30 de março de 2016 às 15:38

"O Brasil é hoje um grande lugar para você desperdiçar sua vida. O brasileiro não é respeitado como cidadão. O Estado não lhe fornece um mínimo de segurança individual.

Sua vida, sua propriedade e seu bem-estar são ameaçados todos os dias. As chances de progresso pessoal estão cada vez mais limitadas. Quase tudo que o governo diz é mentira. Tudo o que tem é roubado: tiram de seu bolso em impostos o dinheiro que você ganhou com seu trabalho, e não devolvem, em troca, os serviços que têm a obrigação de prestar.

O tesouro nacional transformou-se em patrimônio particular de quem manda no governo. O mérito pessoal é visto como um insulto, e a recompensa material por ele, é tratada como um delito social. Quem não é descrito como 'pobre' é automaticamente culpado. O Brasil é um País ruim para educar os filhos. Aqui o homem mal dorme bem."

Trecho do artigo "A vida é frágil", do jornalista J.R. Guzzo, publicado na edição deste fim de semana da revista Veja
http://didocarvalho.blogspot.com.br/2015/04/a-vida-e-fragil.html

Você precisa estar logado para enviar um comentário.