Luiz Edson Fachin: As eleições de 2022 à sombra do Capitólio

Encontra-se a democracia numa sala de emergência. Assim como nos hospitais, a racionalidade se preserva se forem seguidas as regras, as evidências e as ações pautadas na devida justificação.

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Recentemente, na condenável invasão do Capitólio norte-americano, o que ocorreu foi nitidamente o oposto: 1) a não aceitação do resultado eleitoral em eleição normal e legítima; 2) a incitação à usurpação de outro poder; 3) violência e mortes. Relevante observar o evento reprovável pela perspectiva inversa, daquilo que poderia ter acontecido e não ocorreu: não prosperou a violação da ordem jurídica democrática com um golpe de Estado, e isso por três razões fundamentais: as Forças Armadas e de segurança se mantiveram em suas funções; a reação protetiva da democracia das lideranças políticas e da sociedade foi enfática; e a comunidade internacional repudiou a tentativa de golpe.

O arbítrio não é um léxico fora de moda. O Brasil está sob a ameaça de repetir a nociva experiência e fazê-lo de modo agravado. Cumpre vigiar e proteger a democracia brasileira. Impende defender o sistema eleitoral. As eleições em 2022 serão o mais duro teste para a democracia após 1988.

Sabe-se que toda eleição, por si só, é um desafio, pois se trata da maior mobilização da sociedade em tempos de paz. Organizar o processo eleitoral e garantir eleições livres e competitivas exige um enorme esforço logístico. Mas, para isso, a Justiça Eleitoral está sempre pronta. A preparação de toda eleição tem início assim que a anterior se encerra e as sucessões na presidência do TSE não exercem qualquer impacto negativo na continuidade desses trabalhos, pois, além de contar com um corpo técnico permanente muito qualificado, sempre existiu um diálogo entre os presidentes para que a continuidade administrativa seja assegurada. Em 2022 não será diferente.

Obviamente que toda eleição guarda suas singularidades, na medida em que é muito sensível às disputas políticas. A polarização que guiou as eleições de 2018 ainda se faz presente e onde ela germina dificilmente se colhe entendimento, respeito pelo opositor e tolerância. Nesse ambiente, os principais desafios serão as fake news e o movimento de criação, às vezes dissimulado, às vezes indisfarçável, de um ambiente de inconformismo antecipado com o resultado das urnas, em uma espécie de disputa que só admite um vencedor. Isso é muito grave, pois atinge um dos pilares da disputa sadia pelo poder que é a incerteza dos resultados. Um concordância prática exigida nas democracias é a aceitação do resultado derivado das escolhas populares.

Em 2022 é possível que tenha sido controlada a pandemia, sendo para tanto imprescindível a universalização gratuita da vacina, e as eleições serão realizadas em um clima de normalidade. De qualquer modo, sob a liderança do ministro Luis Roberto Barroso, a Justiça Eleitoral deu provas de rápida adaptação às adversidades e soube, por meio de um diálogo republicano com o Poder Legislativo e por meio de parcerias cidadãs com a sociedade civil, congregar esforços para tornar possível a transição de cargos políticos de forma democrática. Essa experiência já integra nosso acervo de conhecimento e dá provas de que, mesmo em um ambiente de disputa pelo poder, existem consensos mínimos que precisam ser preservados. A sucessão democrática e o respeito à exata extensão dos mandatos foram protegidos.

A exigência da imparcialidade, simbolizada pela veste da toga, também impõe à magistratura eleitoral zelar pelo sistema eleitoral contra as ilicitudes de mentes autoritárias que propagam ruínas e disseminam confusões propositais. Até mesmo nas refinadas esferas do pensamento há quem embanane a herança de Jânio Quadros com o legado de Rui Barbosa, misturando, na curta sombra do anoitecer, gatos e lebres.

Ao sinal do que aconteceu no Capitólio, o Brasil tem uma tarefa a cumprir. Desse encargo o futuro da democracia brasileira nos dirá. E será em breve. Um presidente da República não pode, nem deve, instigar a invasão de outro poder. A República exige responsabilidade de seus agentes. Não pode ser somente palco de coalizões de interesses e de oportunismo, nem de barganhas políticas de ocasião.

É grave o quadro. Atentados contra a liberdade de imprensa, apologia à ditadura, à tortura e à repressão política, retorno à militarização do governo civil, intimidações inadmissíveis a outros poderes, depreciação do valor do voto, xenofobia, misoginia, incentivo às armas e à violência, incitação à animosidade entre as Forças Armadas e instituições civis, o negacionismo, o silêncio cúmplice das elites e a naturalização da corrupção são alguns dos sintomas que compõem uma ameaça corrente.

A emergência democrática necessita do oxigênio que representa o respeito pelo processo e pelo resultado das eleições. Diante da situação urgente e complexa para o Estado de Direito, o paciente corre risco.

O câncer do autoritarismo mata. Sem democracia não há liberdade, nem garantias individuais ou racionalidade coletiva, muito menos segurança jurídica. É da democracia que deve emergir o vírus contra o arbítrio, e não do autoritarismo com verniz de populismo político.

Luiz Edson Fachin

é ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), alma mater UFPR (Universidade Federal do Paraná) e professor do programa de pós-graduação do Ceub (Centro Universitário de Brasília).

Rejane G. Amarante disse:
12 de fevereiro de 2021 às 18:31

Tudo o que disse sobre as eleições americanas e a invasão do Capitólio segue a narrativa da grande mídia americana que controla o partido democrata, pois a grande mídia é braço das grandes corporações transnacionais que desde sempre vem destruindo o nacionalismo, a soberania dos EUA e de muitos países do mundo. O mundo inteiro sabe que os policiais abriram os portões do Capitólio e incentivaram as pessoas a entrar. Diga-se de passagem que essas pessoas foram contratadas para fazer a invasão e estavam com fotógrafos e cinegrafistas para !captar" imagens midiáticas. Só que também havia pessoas patriotas, que foram à manifestação pacificamente, e filmaram, a partir de seus celulares, os ônibus chegando com os supostos apoiadores de Trump, na verdade mercenários dos democratas, e, também, filmaram os policiais abrindo os portões, bem como também filmaram pessoas de dentro do prédio entregando armas para os supostos apoiadores de Trump. Tudo muito bem documentado. E Trump não incitou a violência, pelo contrário, foi às redes sociais pedir para seus apoiadores voltarem para casa, e foi CENSURADO, bloquearam esse vídeo no TWITTER, Facebook, etc. Aqui no Brasil, quem já está implementando o autoritarismo é o STF com a censura do inquérito das Fake News. Inventou o inquérito dos "atos antidemocráticos", mas acontece que foi o STF que começou esse confronto em 2018, quando pessoas foram manifestar-se em frente ao STF, um grupo de idosos, crianças e adolescentes e alguns deficientes físicos, pela Lava Toga, e a "polícia" do STF respondeu com bombas de gás lacrimogênio, para intimidar um grupo pacífico. Depois acham ruim quando vai um grupo mais agressivo ? Eleições sim, fraude eletrônica, não ! Vacina obrigatória, máscaras, etc. A verdade prevalecerá !

Proofreader disse:
13 de fevereiro de 2021 às 19:52

Fonte: vozes das catacumbas da extrema direita digital.

Joro disse:
14 de fevereiro de 2021 às 09:13

Pena que essa democracia toda não seja a tônica das decisões que lavra na jurisdição penal! Lula que o diga e a Nação que o testemunhe!
Uso externo?

Rejane G. Amarante disse:
14 de fevereiro de 2021 às 11:31

São vídeos de pessoas que participaram das manifestações e filmaram a partir de seus celulares o que aconteceu no Capitólio. Pode ver no canal "TV AMARANTE", no Telegram. Número do telefone (11) 94249-1447

FCA disse:
14 de fevereiro de 2021 às 12:10

O Sr. não falou coisa com coisa, né?

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