Trovão Brito: Farc brasileiras e poder paramilitar ativista

Mais uma vez preciso falar do ativismo. Essa praga por essas plagas. Juiz não é legislador. A tripartição de poderes foi forjada pelos teóricos políticos para estabelecer freios aos agentes do Estado. Vejam bem, até quem teorizava sobre política conseguiu perceber que os poderes devem ser independentes. E quem fez Direito não consegue ter essa percepção.

O Direito é o braço mais forte do Estado. A política é a ferramenta institucional para gerar o bem viver no seio da sociedade. Direito e política não são adversários. Eles são programas para civilizar o indivíduo na comunidade. Quando a política vai mal, o Direito deve ser chamado para salvar a todos.

Quando a Covid-19 estava em alta, muitos locais adotaram o termômetro como uma forma de medir a temperatura das pessoas para lhes permitir o acesso a esses lugares. Ali temos uma clara demonstração de democracia. Todos eram submetidos ao termômetro. Ele era o passaporte para ingressar no recinto. Assim funciona a democraticidade. Todos, sem exceção, passam pelos protocolos.

Ativismo é democracia? Penso que não. Ele nasce como um fenômeno que rompe com as pretensões democráticas de um Estado de Direito. As facções ativistas do sistema judiciário aniquilaram a autonomia da ordem jurídica. É preciso mudar essa cultura antilegalidade ou do contrário transformaremos o país em um grande cemitério de regras jurídicas.

A condução do processo da lava-jato pelo Juiz Sérgio Moro e as jogadas ensaiadas entre ele e Dallagnol demonstrou mais uma vez que o nosso sistema jurídico precisa mudar as suas práticas. Nessa operação em especial, Moro converteu o Poder Judiciário nas Farc brasileiras. Explico. Farc (Forças Ativistas da República de Curitiba).

O ativismo é o poder paramilitar dos sistemas jurídicos. Ele é a tropa de assalto da democracia. Ele captura os sentidos da lei para aplicar o Direito à la carte. Não podemos compactuar com isso. Se vivemos em comunidade de regras e princípios, esses devem valer contra tudo e contra todos. Sim, eles valem até mesmo contra nós.

Já fui questionado o que tenho contra os juízes. Dou a mesma resposta que dei para o meu inquisidor. Não tenho nada. Sou amigo de juízes, respeito o serviço de relevante que eles exercem em prol do Brasil e do mundo. Sem juízes, a democracia não é a mesma. Mas com o ativismo, a democracia também não é democracia. É ditadura.

Sou a favor do Direito. Desde criança até hoje respeito as regras jurídicas. Pau que dá em chico dá em Francisco. Vejam. Chico e Francisco são a mesma pessoa, mas ao mesmo tempo são diferentes. Esse é a grande sacada das democracias. Ao mesmo que temos diferenças, somo iguais pela força da lei. Pela força do Direito. E Direito não é adereço.

Passei a faculdade inteira me perguntado como um país repleto de faculdades de Direito é um país cheio de irregularidades jurídicas. A questão é que devemos acreditar naquilo que falamos. Naquilo que fazemos. Acredito no Direito. Ele também acredita em mim. Utopia? Não. O Direito é real.

A força vinculante do Direito é a condição de mudança para um novo agir jurídico. As Farc brasileiras devem gerar no cidadão a tomada de consciência para uma nova realidade normativa. Ou abandonamos o ativismo ou a ordem jurídica será abandonada por ele. As escolhas irão ditar o rumo da nossa história.

Alexandre José Trovão Brito

é advogado em São Luís, especialista em Direito Penal e Processo Penal pelo Complexo Educacional Damásio de Jesus e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB Seccional Maranhão.

sim, disse:
16 de maio de 2022 às 11:17

Pela primeira vez vejo/leio aqui um texto proativo, sóbrio e elucidativo sobre o efetivo "ativismo judicial", que, nas palavras do articulista chamou-se " FAC", com a razão pura e indubitável de René Descartes (159601650).
Essa brilhante explanação intelectual bem que deveria ser lida por alguns daqueles que hoje nas mais altas cortes de justiça do Brasil fazem questão de "comer o texto legal e constitucional) criando tipo penal à revelia do legislador, aplicando pena e constrição de liberdade sem o devido processo legal e TUDO mais de "terrível" que se poderia numerar aqui em termos de sistema de justiça penal. E dizem que isto é viver em "democracia". Deve ser a "DEMO"cracia à lá Coreia do Norte, Venezuela, Cuba e outras. Data máxima vênia.
Parabéns ao intelectual pelo texto que é uma aula aos que insistem (conscientemente) em viver na escuridão e à revelia do Direito brasileiro, com aquiescência do Poder Legislativo que recebeu do cidadão a procuração para bem lhe representar.

Servidor estadual disse:
16 de maio de 2022 às 13:12

Os Tribunais superiores também tem praticado o ativismo, incluindo em suas jurisprudências posições refutadas ou não votadas pelo Congresso Nacional. Uma reforma constitucional limitando a essa ação é fundamental, não se pode fugir tanto da letra da lei, nem reformar o sistema legal através da interpretação, criando até modus operandis para operações policiais.

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