Streck: Perversão, tortura e o gozo com o sofrimento: fracassamos!

Abstract: Indignai-vos…ou pereçais!

Spacca

Pois a morte do homem negro (e morreu provavelmente mais por ser negro) de nome Genivaldo Jesus Santos mostra a dura face do fracasso dos direitos humanos no Brasil. Nosso fracasso esculpido em carrara. Ou cuspido e escarrado.

Minha tese: como um espelho da história, (ess)a morte por tortura, com método nazi, deveria ser confrontado ao Brasil ideal. Esfregado na cara do "outro Brasil". Ao Brasil que "flutua". Ao Brasil dos que gostam de avatares.

Quem sabe coloquemos um avatar para representar os policiais que torturaram Genivaldo?

O vídeo abaixo…pensemo-lo como um "flutuante avatar…"! E perguntemos: esse é o nosso país? É isso aí? Vejam:

E que tal o linguajar dos agentes da PRF. Ouçam. Vejam. Meditem. Prato cheio para qualquer psicanalista.

Se alguém continuar insensível depois desse vídeo, é melhor buscar tratamento urgente. Está doente.

Por isso: indignemo-nos. Ou nos internemos.

O ensino da tortura como política de Estado
Mas, atenção. O porta-voz da Polícia Rodoviária Federal, Marcos Terrino, disse, pateticamente, que na PRF não se ensina isso. Céus. Que bom. Que genial. Imaginem se ensinassem.

Todavia, o porta-voz não disse tudo.

Explico. O "fessor" Ronaldo Bandeira, exibindo seu intelecto muscular, dá um espetáculo, desmentindo Marcos Terrino. Em cursinho de preparação para concurso da PRF, o "fessor Bandeira", membro da PRF, ensina, sim, como se tortura. Sim, ele ensina, ri, ejacula perversão na frente dos alunos.

Se, após assistirem esse segundo vídeo, não entrarem em processo de indignação, internem-se. Urgente. Porque estão doentes.

Eis o vídeo.

E que tal este outro vídeo, também da PRF? Coincidência, Dr. Terrino?

Pronto. Eis a tragédia.

Só tenho uma palavra, imitando o veterano da segunda guerra Stephane Hessel, que resistiu ao nazismo como partisant: Indignai-vos!

E eu complemento: indignai-vos ou pereçais!

Post scriptum: A macabra travessia do Rubicão da decência e da vergonha

Isso tudo é muito sério. Ultrapassaram o Rubicão da decência. Vamos deixar isso assim?

Estamos sendo testados!

O promotor de justiça João Linhares publicou no Estadão agora no domingo um belíssimo poema denominado Viatura macabra. Extraio pequena parte. João conseguiu pegar o "isto é" do fenômeno:

Uma voz se calou
abafada,
contrita,
torturada…
Até quando esse teatro medieval será encenado?
Até quando a plateia aplaudirá o coringa?
O passarinho não pia mais.
Seu canto foi asfixiado pelo gás
venenoso do ódio.

Flávio Marques disse:
30 de maio de 2022 às 10:35

Nem mesmo o ataque das "hienas" da segurança(?) pública à Vila Cruzeiro causou tanta repulsa quanto o caso de Sergipe. Não há imprecação à altura de tamanho ato típico do nazismo. Fez-se verdadeira "câmara de gás" contra o cidadão esquizofrênico. A cada dia que passa, as "hienas" das forças(?) de segurança pública assemelham-se mais e mais às "ações nazistas": ora invadindo favelas para promoverem execuções de forma indiscriminada, ora com a nova modalidade de execução por meio de "câmara de gás". Seria de suma importância uma firme atuação dos órgãos estatais; contudo, na prática, sabe-se que MP e judiciário - não todos os membros - são covardes em sua fiscalização (controle: MP) e repressão (punição: judiciário) às "hienas" . A situação "de nazismo" que vemos hoje decorre do fato de boa parte dos integrantes do MP e do judiciário ratificarem (no vulgo popular: "passar pano") inúmeras ações arbitrárias e covardes praticadas pelas "hienas".
P.S1: A forma que as "hienas" trataram o cidadão doente só me fez lembrar do meu livro "Waffen-SS: Soldados da Morte", de John Keegan.
P.S2: A vil e medíocre atuação da "hienas" da segurança(?) pública visa a manter um controle e repressão às camadas mais pobres da sociedade, como forma de criar um "horizonte de consciência" nessa camada social de qual a sua posição na pirâmide social. Por natureza, as "hienas" são covardes, porquanto só agem em bando e contra os desvalidos. Nunca vi essa forma de ação na zona sul, ou contra alguém de status social. Exemplo de como são naturalmente covardes, o famigerado vídeo do Alphaville (www.youtube.com/watch?v=PJCxS4eFn70): devidamente humilhadas, as "hienas" ficaram inertes, acovardando-se diante dos brados de um "pseudoleão". Ficariam inerte se fosse um favelado/pobre?

Professor Edson disse:
30 de maio de 2022 às 11:43

No caso George Floyd o policial foi condenado a 22 anos de prisão, um caso até menos brutal do que o ocorrido no Brasil, a diferença é que aqui no país do "punitivismo" do código penal "rigoroso" se algum desses policiais pegar 5 anos no semiaberto será muito, e mesmo que pegue uma condenação por homicídio qualificado não ficaria mais do que 5 anos preso no fechado, esse país precisa de educação, oportunidades, treinamento adequado para as forças de segurança e leis mais rigorosas.

sim, disse:
30 de maio de 2022 às 12:08

A priori, pelo video, forma de abordagem e o "gás" em uma viatura "trancada", penso que, após o devido processo legal (nunca sem este) esses "policiais" não tem condições, preparo e nem perfil para atuar em segurança pública. É só uma humilde e "distanciada" opinião.

Ion Andrade disse:
30 de maio de 2022 às 12:31

Nenhuma palavra sobre os dois policiais mortos em Fortaleza, uma semana antes.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
30 de maio de 2022 às 12:42

O professor Lenio Luiz Streck gosta de "surfar nas ondas das indignações da imprensa falada, escrita e virtual", principalmente quando a vítima é integrante da base da pirâmide social.
Mas, o jurista é seletivo. Essencialmente, seletivo.
E aqueles dois policiais federais, no Estado do Ceará que, a pretexto de preservar a vida de um mendigo, foram por este trucidados? (https://www.pragmatismopolitico.com.br/2022/05/morador-de-rua-que-matou-policiais-federais-foi-filmado-momentos-antes-do-crime.html).
Agora, esquecidos.
Ser vítima, aqui, no Brasil, é sofrer duas vezes. Pelo ato e pelo esquecimento.
E as questões de ciganos, LGBTQIA+, semitas, negros, índios e de outras minorais, que não são "tocadas em seus textos', aqui na Conjur?
Qual o receio de escrever, professor, sobre a LGBTQIA+ ou sobre ciganos ou judeus? Seria a possibilidade de ser criticado? Lembro-me de vários textos escritos por V. Sa., sobre direito constitucional, eleitoral e do trabalho, os quais foram objeto de acerbas críticas por parte dos comentaristas.
Escrevendo sobre esse grupo, V.Sa., poderia ir se preparando sobre eventuais críticas, quando, como Ministro no STF, lhe for distribuída uma ação ou medida (o falecido professor de direito processual, Ovídio B. Silva, do RS fez sutil distinção) sobre essas minorias desprezadas, integralmente pelas elites econômicas, política, jurídica, opinativa e da gestão do Estado.

Vinícius Quarelli disse:
30 de maio de 2022 às 13:35

Outro sintoma do nosso fracasso: o desprezo. Uma sociedade que despreza a sua barbárie é uma sociedade que caminha em direção a ela... Ou será que já não a abraçamos?

MACACO & PAPAGAIO disse:
30 de maio de 2022 às 14:20

Sem fundamento atribuir mais essa morte bárbara ao fato de a vítima ser "provavelmente" negro.
Quando os 2 PRFs da semana retrasada foram mortos por alguém que tomou a arma deles, não vi nenhuma menção desse tipo, com essa apologia sensacionalista idiota e racista.
Além disso, a pele não importa, a não ser para quem quer aparecer.
Que todos sejam julgados na forma da lei, independentemente dessas instigações patológicas, sedimentada por juristas oportunistas.

olhovivo disse:
30 de maio de 2022 às 15:03

Procurar justificar a conduta desses covardes com a morte de dois policiais anteriormente é caso de internação.

Eduardo. Adv. disse:
30 de maio de 2022 às 15:14

Para quem diz que basta polícia ganhar bem, está aí a resposta: bem pagos, estabilidade, mas... sadismo puro contra o mais fraco, o quase miserável.
E há mais uma turma do mesmo estilo desse "professor" aí do vídeo "formando o futuro da segurança"... Talvez até da mesma escola. E busque no youtube por "formatura PRF/PF" para ver o resultado... chega a ser assustador.

José C. de Oliveira disse:
30 de maio de 2022 às 15:27

Se o caro emulador de animais não consegue distinguir a diferença entre um crime bárbaro perpetrado por agentes do Estado contra um homem desarmado, e o crime bárbaro de um bandido contra homens da força de segurança, sinal que o papagaio não precisou da ajuda do macaco para "falar". De bandidos se esperam bandidagens, de homens da lei, que a respeitem, essa é toda a diferença.

FAB OLIVER disse:
30 de maio de 2022 às 17:48

O bandido sem farda nao pode descumprir a lei, recebe duras penas e responde o processo preso etc. (quem joga bola, sabe [leia-se, que advoga, sabe]). Já os de farda, são remunerados $$$$, podem descumprir a lei, são legitimados a matar, para o Poder Judiciário são uns santos, sempre dizem a vdd, daí podem fazer o que quiser. É a POLICIA quem dita o judiciário, o MP, a advocacia e a Defensorisa. A POLICIA decide a casa ou o POBRE q ela vai abordar, se vai ou não levar pra delegacia, qual versão irão sustentar etc. O MP é alimentado pelas decisões q os POLICIAIS tomam diuturnamente. Acontece q a POLICIA só aborda pobre. Enfim.. não é uma sistema de justiça, mas de injustiça, q pensado ou não, serve pra moer o pobre.

Antonio Carlos Kersting Roque disse:
31 de maio de 2022 às 09:01

Marieli, Genivaldo e outros tantos elevados a ícones da barbárie, terão sempre destaques nessas grandiloquentes defesas, aliás, isso dá holofotes.
Os milhares de policiais que são mortos, para proteger a população, inclusive, tu, Lenio, não merecem uma linha, não "lacra", né?
Hoje essa parcialidade em se indignar pende só para um lado e sabemos todos qual é, longe estamos de um mínimo e miserável equilíbrio.
Uma pena.

Claudia E disse:
31 de maio de 2022 às 10:15

É de assombrar os comentários postados. O articulista está alertando a necessidade de formação adequada para quem, em tese, deve resguardar a sociedade! Distorcem e fogem do ponto central da questão!

Aparecido de Oliveira Pereira disse:
31 de maio de 2022 às 14:26

Que assusta professora, é que os comentários provém de pessoas que tem tese, passaram pelo ensino superior e ao que parece, não tiveram formação adequada. Devem ter tido a mesma formação daqueles policiais, ou seja, sem a menor noção de que pertencem à espécie humana.

André Pinheiro disse:
31 de maio de 2022 às 15:50

Quando o servidor público usa o serviço público para fins privados, não temos um servidor público temos um servidor privado.
O milicianismo é a formação obscura das relações privadas com uso da máquina pública, mas há várias outras formas de uso indevido das relações públicas para fins privados.
O corpotativismo é outra relação obscura, há um excesso de lobbies de associações públicas fazendo fazer direitos diferenciados para determinada categoria pública.
O corportativismo também defende e protege a categoria e em alguns casos segue a metodologia do silêncio e das verdades não confessáveis, há ordenamentos paralelos consuetudinários.
Nesse ambiente obscuro sobrevive o proibido permissível, é defeso por lei, é crime, mas determinada categoria compreende que esse crime é apenas para fazer propaganda internacional ou para " inglês vê".
No caso específico, a probabilidade de todos os policiais ali presente serem psicopatas é quase nula, possivelmente, um psicopata e os demais sugestionáveis a psicologia de grupo.
O problema que essa psicologia transcende o grupo ali presente, por vários indícios, principalmente por comentários dos membros da segurança pública em rede sociais denotam que o problema é institucional.
Penso que está na hora de fazer um novo censo sobre o que as forças de segurança pensam sobre tortura, direitos humanos e extermínio, o resultado pode ser surpreendente.
Até porque está na hora de separar o trigo do joio e fazer uma limpeza nos servidores públicos que se negam por razões privadas seguir o ordenamento jurídico e a Constituição.
No caso em tela, foi um caso claro de execução e diversão com o sofrimento absoluto alheio, triste saber que o caso odioso de Jesus Santos seja usado para uma tentativa de resgate da cidadania.

Rubens Cavalcante da Silva disse:
02 de junho de 2022 às 07:32

Primeiro a PRF disse que Genivaldo "resistiu ativamente a uma abordagem" e que, "em razão da sua agressividade, foram empregados técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção" [Valha-nos Deus!], depois o o chefe de comunicação institucional da PRF, Marco Territo, declarou que os procedimentos realizados pelos PRFs em Umbaúba 'não estão de acordo com diretrizes de cursos e manuais da instituição', e que a “disciplina de direitos humanos não deixou de ser aplicada durante a formação de novos policiais”.

Fico imaginando o que mais teria acontecido com o pobre Genivaldo se a disciplina de direitos humanos não constasse do curso de formação dos PRFs.

O Código Penal dispõe seguinte:

Art. 121. Matar alguém:
Pena - reclusão, de seis a vinte anos.
(...).
§ 2º Se o homicídio é cometido:
(...);
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum;
IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossivel a defesa do ofendido;
(...).
Pena - reclusão, de doze a trinta anos.

Esse episódio de Umbaúba se junta ao outro de Fortaleza, no qual 2 PRFs foram mortos com a própria arma de um deles por uma pessoa abordada na via pública, para revelar o quanto os PRFs estão despreparados para lidar com essas situações.

Outro dia três policiais federais reagiram a um assalto em um restaurante em Belém (PA) e um cidadão foi morto na troca de tiros. Os assaltantes fugiram ilesos.

Mas tá tudo certo, o "mito" já disse que "Genivaldo era um bandido, deverá ser feita justiça, sem exagero, e voltará tudo à normalidade," ou seja, não haverá mais com o que se preocupar.

Continuará tudo como dantes?

Você precisa estar logado para enviar um comentário.