O bolsonarismo conseguiu se firmar como força permanente do cenário político brasileiro nestas eleições. O Partido Liberal (PL), que hoje abriga o presidente Jair Bolsonaro, elegeu as maiores bancadas na Câmara (99, de 513 deputados) e no Senado — onde agora conta com 14 dos 81 senadores — mais a base aliada do "Centrão", os partidos que apoiam o governo.
Esse resultado indica que, ainda que Lula vença a eleição presidencial no segundo turno, dependerá dos partidos que estão com Bolsonaro para governar. Igualmente, se reeleito, o atual presidente precisará da oposição comandada por Lula para administrar o país.

As diversas vitórias de políticos conservadores não é mera coincidência, afirma Volgane Carvalho, secretário-geral da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político).
Segundo ele, o movimento bolsonarista se profissionalizou e conta com a estrutura de um partido político tradicional para financiar um modelo de comunicação, "que os outros partidos ainda estão aprendendo a utilizar", afirmou. Os bolsonaristas têm enorme capilaridade nas redes sociais e conseguem mobilizar sua base por meio de grupos no WhatsApp e no Telegram. "Normalmente esses candidatos não precisam ter propostas, basta ter um discurso de impacto, que possa ser repetido pela sociedade, com um visual eficiente", afirmou.
O cientista político e professor da FGV, Sérgio Praça também chama a atenção para o aumento do financiamento das campanhas. "A campanha em 2018 do bolsonarismo teve poucos recursos financeiros. Agora não, essa foi uma campanha com grande fundo eleitoral, bastante dinheiro oriundo do orçamento secreto também", destacou.
Praça ainda destaca que a campanha dos bolsonaristas foi, de fato, mais articulada que dos adversários. "Acho que eles tiveram boas estratégias de campanha. Os oponentes em vários estados não conseguiram se juntar, se coordenar para fazer frente ao bolsonarismo."
Evidente que o sucesso nas urnas dependeu menos de partidos e estruturas que da opção do eleitorado pela visão conservadora que toma conta do país — e, num patamar abaixo, a situação econômica. Bolsonaro deu sua explicação ao final da votação: "Estamos no terceiro mês com deflação, o preço do combustível baixou, energia elétrica baixou, criamos o pix, houve queda número de mortes, os assaltos a bancos caíram pela metade, o desemprego diminuiu” — o que, segundo ele, a imprensa tenta esconder, mas o cidadão enxerga. Claro que o presidente tem viés peculiar. Para ele, a situação só não está melhor porque a população ficou em casa no auge da epidemia de Covid, em vez de sair para trabalhar.
A persistência do bolsonarismo como força política não se revelou nas pesquisas — mas no saldo das urnas, sim. No Rio Grande do Sul, o atual vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) se elegeu senador, desbancando o ex-ministro Olívio Dutra (PT), líder das pesquisas eleitorais até então. O mesmo ocorreu com o candidato Onyx Lorenzoni (PL), que foi ao segundo turno para o governo do estado, à frente de Eduardo Leite (PSDB), que por poucos votos não ficou de fora da disputa, em uma briga acirrada com o petista Edegar Pretto (PT). A diferença foi pouco mais e 2 mil votos.
Em São Paulo, Fernando Haddad (PT) era apontado como favorito nas pesquisas, enquanto Rodrigo Garcia (PSD) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) disputavam uma vaga para o segundo turno. Em uma virada imprevista, o ex-ministro do presidente Bolsonaro terminou a disputa à frente de Fernando Haddad.
No Senado, o bolsonarismo também mostrou sua força: o astronauta Marcos Pontes (PL) venceu o candidato apoiado por Lula (PT), Márcio França (PSB). Vale ressaltar que entre os deputados federais eleitos por São Paulo estão Carla Zambelli (PL), Eduardo Bolsonaro (PL), Ricardo Salles (PL) e Mario Frias (PL).
No Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) liquidou a fatura no primeiro turno. No senado, a ex-ministra Damares Alves (Republicanos) foi eleita para o Senado com folga. Ambos tiveram o apoio do presidente da República — embora, no caso de Damares, Bolsonaro tenha deixado a tarefa nas mãos da esposa, para não se indispor com o próprio partido, que tinha lançado Flávia Arruda como candidata.
Situação semelhante ocorreu no Rio de Janeiro. As pesquisas indicavam que a disputa pelo palácio Guanabara iria para segundo turno, mas Cláudio Castro (PL) foi reeleito com 60% dos votos. O senador Romário (PL) também foi eleito com discurso alinhado ao do governo federal. Mas a surpresa maior foi o sucesso do general Pazuello, que foi descrito como responsável por milhares de mortes por Covid.
Frente ampla
Se o partido de Bolsonaro elegeu sozinho 99 deputados, seus aliados mais orgânicos também não decepcionaram: o Partido Progressista (PP), do presidente da casa Arthur Lira, elegeu 47 deputados. O Republicanos, por sua vez, mais 41. Somada, essa bancada inicial de Bolsonaro é de 187 parlamentares, segundo aponta Rudolfo Lago, no Congresso em Foco.
Por sua vez, a Federação Brasil, que inclui PT, PV e PCdoB, elegeu 80 deputados; o PSB de Alckmin, mais 14; a Federação Psol/Rede, mais 14. Assim, a bancada inicial de apoio a Lula seria de 108 deputados.
Qualquer dos candidatos eleitos, portanto, deve continuar a depender das bancadas que ficaram neutras ou lançaram candidatos próprios: o União Brasil, de Soraya Thronicke, tem 59 deputados; o MDB, de Simone Tebet, 42; o PSD elegeu 42; o PDT, de Ciro Gomes, 17; e o Podemos, mais 12.
Os dissidentes
Os candidatos que pularam do barco bolsonarista acabaram fracassando nas urnas. Joice Hasselman, Alexandre Frota, Luiz Henrique Mandetta e Carlos Albertos Santos Cruz estão entre os grandes fenômenos de derrotas depois do desembarque do bolsonarismo.
Mandetta (União Brasil) se candidatou ao Senado por Mato Grosso, mas foi derrotado por uma ex-colega que permaneceu no barco bolsonarista: Tereza Cristina (PP).
O ator Alexandre Frota foi um dos grandes cabos eleitorais de Bolsonaro em São Paulo, fazendo forte campanha de rua em 2018. Se elegeu deputado federal com mais de 155 mil votos pelo PSL, que era o partido do presidente, mas rompeu com o bolsonarismo ainda em 2019.
Após um mandato de oposição aberta a Bolsonaro, Frota migrou para o PSDB e resolveu tentar outro cargo: deputado estadual em São Paulo. Com menos de 25 mil votos, ficou longe dos líderes e sem emprego parlamentar.
Já a jornalista Joice Hasselmann fez caminho parecido com o de Frota. Disputando pelo PSL, teve cerca de um milhão de votos em São Paulo e ajudou a eleger uma grande bancada para o partido, mas acabou trocando pelo PSDB. Como tucana, concorreu à reeleição como deputada federal pelo PSDB e perdeu, ficando com menos de 15 mil votos.
Os irmãos Weintraub também tentaram se eleger, mas não conseguiram.
Como o partido do atual presidente e seus aliados conseguiram eleger tantos deputados e senadores, além de governadores e deputados estaduais, ficou em segundo lugar no primeiro turno para presidente, e o partido daquele ex-presidente, que ficou bem atrás, conseguiu ficar em primeiro lugar para presidente no primeiro turno. Tudo muito suspeito.
Os institutos tradicionais acertaram (Presidência) tendência e aproximaram-se bastante do percentual esperado para o 1º colocado.
Já o "DataPovo" errou a tendência (posicionamento + primeiro turno) e diferença (no mínimo 60%)...
Essa "profissionalização" é natural, e já ocorreu há décadas no lulopetismo, do que o bolsonarismo é efeito-rebote.
Essa "profissionalização" é natural, e já ocorreu há décadas no lulopetismo, do que o bolsonarismo é efeito-rebote.
...chega de ficar procurando pelo em ovo, Dra. Rejane.
O eleitor vota de forma separada nos candidatos e pode escolher partidos distintos em cada uma das votações.
Não há impedimento em votar num deputado/senador alinhado ao Bolsonaro e votar no Lula para presidente.
Até parece que a colega nunca acompanhou a apuração de uma eleição no Brasil... Seguindo a sua lógica, nos anos 2000 a imensa maioria dos parlamentares deveria ser de esquerda e não foi isso o que aconteceu...
Por favor, colega, pense um pouquinho sobre o que escreveu e verás que não tem fundamento algum. A Dra consegue!
Conquanto não seja obrigatório votar em candidatos do mesmo partido, pois o voto vinculado deixou de existir há muito tempo, o que sucede nessa eleição polarizada é que NINGUÉM que vote no PT ou PL, ou mesmo na esquerda ou direita irá eleger parlamentares de um determinado partido e na hora de votar para presidente irá escolher o espectro ideológico oposto. Principalmente, os eleitores bolsonaristas. É disso que se trata.
Tenho pensado sobre o assunto e concluo que os eleitores identificados com direita e esquerda não formam a maioria. Talvez tenhamos uns 25% de esquerda e uns 35% de direita.
A maioria do eleitorado não se importa muito com a orientação ideológica do candidato, votando porque ouviu um parente ou alguém que considera influente (amigo, conhecido, pastor, padre, professor, etc...).
Outro fator importante é que, no interior, a escolha de deputados é feita muito mais na base do regionalismo do que do partido.
Mesmo com eleições polarizadas (que ocorrem desde 2014, pelo menos) o eleitor acaba dissociando a escolha das eleições "legislativas" e eleições "executivas".
Por fim, outro fator importante e que me ocorreu agora é o fato de que não são necessários muitos votos nas eleições legislativas (um deputado se elege com poucos votos, senador, contudo, precisa de mais).
Reconheço, por fim, que o eleitor médio é mais "conservador" e acaba se importando com pautas que não têm muita relevância ou impacto para o futuro do país.
Um abraço para a colega.
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