O poeta persa Saadi Shirazi, numa das histórias de sua obra “Jardim de Rosas” (“Gulistão”), narra o episódio em que recorreu a um governante para reparar a injustiça causada por um mal-entendido. Tendo obtido sucesso na questão, usou uma metáfora para agradecer ao soberano e desculpar-se pelo incômodo; é que, afinal, justificou-se Saadi, “ninguém joga pedras em uma árvore sem fruto”, ou seja, só se atrevia a incomodá-lo porque sabia haver chance de êxito.

O criminalista Roberto Podval
Ao longo dos séculos, a frase, porém, ganhou outra conotação pelo uso popular: a de que só são alvos de ataques aqueles que agem, que produzem, que têm opinião e a expressam (“só se atira pedras na árvore que dá frutos”).
A frase de Saadi, em seus dois sentidos, original e popular, adequa-se às recentes críticas dirigidas ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal.
Ainda movidos por aparente inconformismo com o tratamento que segmentos políticos da operação “lava jato” têm merecido por parte do Poder Judiciário, sobretudo após serem reveladas as relações incestuosas entre juiz e acusação, os censores do ministro desfiam críticas a suas recentes decisões envolvendo a famigerada operação; mais do que isso, buscam resumir seus quase 15 anos de Corte aos últimos 12 meses.
Desde que assumiu uma cadeira no STF, em 2009, o ministro Toffoli sustentou posições emblemáticas, como a derrubada de decreto que segregava alunos com deficiência em escolas especiais, reafirmando o compromisso do Brasil com a educação inclusiva; contra o chamado “direito ao esquecimento”, a proibição de divulgação de informações sobre eventos passados, tendo defendido a liberdade de expressão e o acesso à informação como pilares da democracia; ou ainda a de considerar inconstitucional a tese da legítima defesa da honra em casos de feminicídio, eliminando essa justificativa odiosa e arcaica da ordem jurídica brasileira.
Mesmo sua decisão, tanto polemizada, de determinar a abertura do chamado “inquérito das fake news” para investigar a disseminação de notícias fraudulentas e ameaças contra o STF, se mostrou acertada, pois já mirava o germe do golpismo de janeiro 2022, revelado pelas investigações que se surgiram ao fatídico 8 de Janeiro.
Críticas irascíveis

Apesar dessas e tantas outras contribuições significativas, Toffoli continua a ser alvo de críticas irascíveis, as quais miram também sua índole conciliadora, como se fosse algo negativo, esquecendo-se que a função precípua do Poder Judiciário e, por decorrência, do juiz, é buscar a pacificação social.
No entanto, esses ataques são, em grande parte, uma reação às suas ações decisivas e corajosas que, embora impopulares para alguns, são essenciais para a defesa da justiça e da democracia.
A trajetória de Dias Toffoli ilustra como o verdadeiro impacto de um líder judicial não se mede pela ausência de controvérsias, mas pela capacidade de tomar decisões contramajoritárias sem se ater a rótulos ou perfis ideológicos. Suas contribuições para o sistema jurídico brasileiro, embora muitas vezes contestadas, são resultado de um compromisso inabalável com a Constituição e os direitos fundamentais.
Em última análise, as pedras lançadas contra ele são o testemunho de sua relevância e do impacto de suas decisões. Como o governante que inspirou a alegoria de Saadi, Toffoli dispensa sua atenção e recepciona argumentos contrários a questões tidas como resolvidas (pelo menos para o clamor público), ainda que sob a constante pressão de críticas e ataques. Na dura tarefa de pertencer à cúpula do Poder Judiciário e desta forma moldar e influenciar o cenário jurídico brasileiro, não seriam essas características fundamentais de um juiz?
Uma árvore não precisa ter ou dar frutos para que alguém jogue pedras nela, basta que na árvore esteja algo que se precise derrubar jugando pedras.
O Ministro Toffoli não é criticado pelas decisões tomadas no âmbito da lava-jato, esse teatro que envergonhou o Poder Judiciário como um todo e especificamente os juízes e juízas honestos desse Brasil. É criticado, ao que parece, por não se declarar suspeito em ações patrocinadas pelo escritório em que sua mulher atua ativamente, essa é a questão.
O Ministro Toffoli não é criticado pelas decisões tomadas no âmbito da lava-jato, esse teatro que envergonhou o Poder Judiciário como um todo e especificamente os juízes e juízas honestos desse Brasil. É criticado, ao que parece, por não se declarar suspeito em ações patrocinadas pelo escritório em que sua mulher atua ativamente, essa é a questão.
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