O decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, compareceu ao funeral do jurista alemão Peter Häberle, que morreu no último dia 6.

Decano do STF foi uma das autoridades do Direito internacional a discursar no funeral do alemão Peter Häberle
Häberle deixou como legado uma vasta e influente obra no Direito Constitucional. Um dos principais conceitos defendidos por ele é que o texto da Carta Magna deve ser interpretado de maneira aberta, de modo que consiga interagir com a sociedade como um todo.
Grande estudioso da obra de Häberle, Gilmar foi uma das personalidades do Direito a discursar no funeral do jurista. Leia abaixo a tradução do discurso do ministro, proferido em alemão:
“Recebi com tristeza a notícia da morte do amigo e grande jurista alemão Peter Häberle. Uma das personalidades mais influentes do pensamento constitucional contemporâneo.
Sua obra transformou profundamente a interpretação constitucional ao desenvolver a ideia de uma ‘sociedade aberta dos intérpretes da Constituição’, teoria que rompeu com o formalismo fechado da interpretação jurídica e a abriu para uma participação plural na construção do sentido constitucional. Tive a honra de traduzir para o português essa obra fundamental, que marcou de forma duradoura a dogmática constitucional brasileira e inspirou uma nova compreensão do papel democrático da interpretação da Constituição.
Recentemente, a publicação espanhola de seu livro Libro constitucional, de lectura y de la vida latinoamericano confirmou mais uma vez sua constante atenção ao Brasil e à América Latina — regiões com as quais manteve um intenso e generoso diálogo intelectual. A obra traz um posfácio do professor Raúl Gustavo Ferreyra, destacado constitucionalista argentino e discípulo de Häberle, que tem contribuído decisivamente para difundir e aprofundar o legado de seu mestre no mundo hispano-americano.
O legado de Peter Häberle transcende fronteiras e gerações. Seu pensamento humanista e pluralista continuará a iluminar o caminho daqueles que veem na Constituição não um texto fechado, mas uma obra viva — comprometida com a dignidade humana, a paz e a cooperação entre os povos.
À sua família, expresso meus mais sinceros sentimentos e meu respeito por um homem que foi — e continuará sendo — uma das figuras mais significativas do pensamento jurídico e constitucional”.
Amor pelo Brasil
Em 2011, Häberle concedeu entrevista à revista eletrônica Consultor Jurídico. Na ocasião, o jurista declarou seu amor pelo Brasil. “O escritor austríaco Stefan Zweig escreveu que o Brasil é o país do futuro. Na minha opinião, o Brasil é o país do presente e do futuro.”
Ele também disse ser um grande admirador do STF e de Gilmar Mendes. “Eu gosto de caracterizá-lo na Europa com um construtor de pontes entre a Alemanha e o Brasil, e entre o STF, sobretudo, e o Direito Processual Constitucional. Ele recepcionou a minha proposta do amicus curiae, por exemplo.”
Na entrevista, o jurista defendeu conceitos como a “pedagogia da Constituição”. Para o teórico, países como o Brasil devem transmitir os princípios mais importantes do texto constitucional aos jovens tanto nas escolas quanto nas universidades, por meio de uma linguagem simples e próxima dos cidadãos. Segundo ele, esse papel também cabe aos jornalistas.
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