Opinião

A transição para um regime remuneratório uniforme

A maior contribuição da recente decisão do Supremo Tribunal Federal talvez não tenha sido apenas solucionar uma controvérsia remuneratória. Seu principal legado foi oferecer segurança jurídica a um tema que, durante décadas, conviveu com interpretações fragmentadas e soluções que variavam conforme o órgão, a carreira ou a unidade da Federação.

Gustavo Moreno/SCO/STF

stf fachada sede prédio

Esse cenário produziu um efeito que raramente recebeu a devida atenção. Instituições organizadas nacionalmente passaram a conviver com regras cuja aplicação se tornava desigual ao longo do país. O resultado foi um ambiente de incerteza que estimulou disputas sucessivas, dificultou o planejamento administrativo e consumiu energia institucional que deveria estar voltada ao cumprimento de funções essenciais à sociedade.

Não se trata de um problema restrito à magistratura ou ao Ministério Público. Toda instituição que exerce funções permanentes de controle, fiscalização ou garantia da ordem jurídica depende de regras estáveis para desempenhar sua missão com autonomia. É uma realidade que alcança igualmente os Tribunais de Contas e outras carreiras estruturadas em bases nacionais. Quando os parâmetros deixam de ser uniformes, o sistema inteiro perde coerência.

Foi justamente esse o avanço proporcionado pelo Supremo. A decisão cria um ponto de referência comum para uma matéria que, durante muitos anos, evoluiu de forma dispersa. Uniformizar critérios não significa eliminar diferenças legítimas entre carreiras nem impedir o aperfeiçoamento do direito. Significa reduzir a fragmentação que transformava questões semelhantes em controvérsias permanentes.

Há uma razão prática para isso

Segurança jurídica não interessa apenas aos agentes públicos. Ela melhora o funcionamento da administração, reduz litigiosidade, favorece o planejamento e fortalece a confiança da sociedade nas instituições responsáveis pela aplicação da Constituição e pelo controle da gestão pública.

Por isso, o julgamento não deve ser compreendido como o encerramento de uma discussão. Ele inaugura uma nova etapa. A partir de agora, o desafio deixa de ser interpretar múltiplos entendimentos e passa a se consolidar um regime nacional capaz de oferecer previsibilidade às instituições e coerência às decisões administrativas e judiciais.

Esse é um compromisso que exige maturidade institucional. Caberá às administrações públicas, aos órgãos de controle, às entidades representativas e às próprias carreiras transformar os parâmetros fixados pelo Supremo em práticas consistentes e duradouras. Grandes decisões judiciais produzem seus melhores resultados quando deixam de alimentar novos conflitos para servir de fundamento à construção de consensos.

O Brasil amadurece institucionalmente quando substitui soluções fragmentadas por referências comuns. A decisão do Supremo oferece essa oportunidade. Agora, cabe às instituições transformá-la em estabilidade, previsibilidade e confiança. Esse será o verdadeiro legado do julgamento.

Tarcísio Bonfim

é presidente da Conamp (Associação Nacional dos Membros do Ministério Público).

Edilson Silva

é presidente da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) e conselheiro corregedor do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (TCE-RO).

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