Opinião

Desafios da democracia brasileira no bicentenário da Câmara dos Deputados

Em um país relativamente jovem como o Brasil e com pouca tradição democrática — basta que se verifique a sequência de golpes, contragolpes e rupturas políticas testemunhadas desde a sua independência —, alguns marcos temporais precisam ser celebrados e, acima de tudo, aproveitados como uma rica oportunidade de reflexão. É precisamente este o caso da efeméride, há pouco festejada, dos 200 anos da Câmara dos Deputados.

Pedro França/Agência Senado

Fachada do Congresso

Instituída por determinação da Constituição de 1824, a Câmara dos Deputados foi efetivamente instalada em 6 de maio de 1826, com a inauguração de sua primeira legislatura. Desde então, na vigência da monarquia ou, posteriormente, com a república vindoura em 1889, a Câmara dos Deputados permaneceu não como mera testemunha, mas como protagonista dos principais acontecimentos e decisões que a consolidaram como instituição basilar do sistema político brasileiro ao longo desses dois séculos.

Desde sua criação, a Câmara dos Deputados, com alguns sobressaltos, manteve-se relativamente sob o mesmo formato, tendo sido concebida e mantida, em maior ou menor medida, como a casa representativa da população brasileira, ainda que a forma dessa representação tenha mudado ao longo da história, tanto em relação a quem poderia votar, quanto em relação ao número de deputados e ao sistema eleitoral pelo qual são escolhidos.

Não se pode subdimensionar, ainda, que a Casa do Povo — expressão consagrada como sinônimo da Câmara dos Deputados — sofreu duros ataques ao longo do tempo, tendo sido dissolvida com a Proclamação da República, em 1889, e reconstituída a partir da Constituição de 1891; novamente dissolvida com o golpe de 1930; além de ter sido fechada em diferentes momentos, como no Estado Novo em 1937, que perdurou até meados de 1945, e durante a ditadura militar, com a edição do  Ato Institucional nº 2, de 1966, do Ato Institucional nº 5, de 1968, e do Pacote de Abril de 1977.

Pilar da democracia em meio a crises

Em que pesem essas rupturas, a Constituição de 1988, que se aproxima do seu aniversário de quarenta anos, teve a virtude de restabelecer o Estado de Direito em um sistema político relativamente estável, consagrando o período democrático mais duradouro de toda a nossa história. Ao longo desse tempo, a Câmara dos Deputados permaneceu aberta, funcionando em sua plenitude e mantendo-se, apesar das crises e desafios, como um dos pilares da democracia brasileira.

Spacca

Mas não se pode repousar sobre louros já alcançados. A democracia precisa ser permanentemente cuidada e protegida, e fatos recentes atestaram a importância desse dever cívico de senti-la. Há pouquíssimo tempo, uma horda tresloucada de pessoas travestidas de patriotas, insuflada por líderes sociopatas, executou o mais grave ataque contra as instituições republicanas brasileiras desde a redemocratização, invadindo e depredando as sedes dos Poderes em Brasília, em busca de um golpe de Estado que favorecesse os maus perdedores da eleição de 2022.

Felizmente, os Poderes constituídos, amparados pelo apoio da imensa maioria da população brasileira de índole democrática, reagiram a esse duro ataque, retomaram o controle sobre os espaços físicos invadidos, repararam os danos materiais causados e o sistema de Justiça foi capaz de investigar, processar e punir, com rigor, os responsáveis por essa tentativa de ruptura institucional.

Formação pelo voto popular

A celebração dos duzentos anos da Câmara dos Deputados serve, em primeiro plano, para atestar que, com altos e baixos, essa Casa consolidou-se como o berço da nossa democracia, da representatividade e da pluralidade do povo brasileiro.

Pode-se questionar a qualidade de parte dos representantes eleitos, criticar a atividade legislativa ou os valores e princípios que motivam algumas de suas decisões. Mas o que não se pode negar, sob nenhuma hipótese, é que, guardadas as peculiaridades circunstanciais, todos os seus membros passaram pelo crivo do voto popular, foram escolhidos por segmentos expressivos da sociedade e adquiriam, portanto, legitimidade democrática para o exercício de suas funções, concorde-se ou não com elas.

Revitalização político-institucional da Câmara

Quando a Câmara dos Deputados alcança 200 anos como uma das instituições políticas mais longevas do nosso país, faz-se necessário refletir sobre os desafios que precisam ser enfrentados pelo Estado brasileiro, em sentido amplo, com o intuito de promover a revitalização político-institucional da Casa.

O primeiro deles é a necessária retomada do debate sobre o sistema eleitoral pelo qual os deputados são escolhidos. Não se negam os méritos do sistema proporcional, praticado no país para as eleições legislativas desde o Código Eleitoral de 1932. Contudo, no dia-a-dia das atividades legislativas, verifica-se grande dificuldade em estabelecer, nesse modelo, uma conexão efetiva entre  eleitores e representantes, especialmente porque o voto em um candidato pode resultar na eleição de outros, em razão das regras partidárias.

Diante da magnitude das decisões tomadas pela Câmara dos Deputados e do crescente protagonismo do Parlamento na formulação de políticas públicas e alocação do orçamento, fortalecer o vínculo entre representantes e representados é condição essencial para modernizar a instituição e fortalecer a própria democracia. Nesse sentido, ganha relevância a proposta de adoção de um sistema distrital misto, inspirado no modelo alemão, que combine representatividade regional, por meio de deputados eleitos em distritos, e a representatividade proporcional dos partidos, por meio de listas fechadas submetidas ao escrutínio da população.

Limite de cadeiras por estado

Outro desafio a ser enfrentado é a necessária correção de um erro histórico implementado a a partir da Constituição de 1934 e replicado em todas as Constituições anteriores, que fixou limites mínimo e máximos de deputados por unidade da Federação, atualmente definidos em 8 e 70 cadeiras, respectivamente.

Essa regra, criada para reduzir a predominância política dos Estados mais populosos, somada à transformação de diversos territórios federais em Estados — cada qual adquirindo uma banca mínima de deputados independente dos tamanhos de suas populações —, acabaram contribuindo para a distorção do princípio fundamental da democracia, o “one man, one vote”, que garante que o voto de cada pessoa deve ter o mesmo peso.

Nesse sentido, seria necessário enfrentar o problema, suprimindo o limite máximo de deputados por unidade da federação, permitindo que Estados mais populosos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia pudessem ampliar sua representação, adicionando mais cadeiras a suas bancadas, tornando o sistema verdadeiramente proporcional às respectivas populações.

Modernização de fiscalização e controle

Outros temas relevantes para um reforma política também merecem atenção, com o objetivo de revitalizar não apenas a Câmara dos Deputados, mas o conjunto das instituições políticas. Faz-se necessário, por exemplo, aprimorar a dinâmica do processo legislativo bicameral estabelecido entre a Câmara e o Senado; modernizar mecanismos de fiscalização e controle, a exemplo da obsoleta lei do impeachment de 1950; e rediscutir o papel do Legislativo na alocação das despesas e na elaboração do orçamento público — com ênfase para o enfrentamento do problema do volume vultuoso das emendas parlamentares.

Há, portanto, razões para celebrar os 200 anos da Câmara dos Deputados como instituição essencial do sistema político brasileiro, sem perder de vista a abundância de temas que exigem reflexão aprofundada e iniciativas corajosas para sua revitalização.

Duzentos anos depois, a Câmara dos Deputados segue sendo o espelho das tensões, esperanças e escolhas do povo brasileiro — e é na sua capacidade de ouvir, refletir, se aprimorar e representar os anseios e expectativas do povo que reside a força dessa instituição e da democracia brasileira para os séculos que virão.

Luís Gustavo F. Guimarães

é mestre e doutorando em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da USP.

Eduardo de Castilhos Fritz disse:
14 de maio de 2026 às 18:45

Parte - 1 - Dentro de algumas décadas A tecnologia vai criar novas formas de participação popular.O povo vai se perguntar, se diante de tanta tecnologia não poderia participar mais !!?? E o povo vai querer participar, vai querer ser ouvido, vai querer ser consultado e vai querer decidir. E por quê Não ????? A tecnologia mudou o mundo. Hoje não se usa máquinas de escrever. Em frente a uma tela uma única pessoa diagramava um jornal que a décadas atrás era feita por muitas pessoas. O jornal de papel está condenado, assim como revistas e enciclopédias. Mandar cartas pelo correio é coisa antiquada. Décadas atrás, ter um telefone fixo era um privilégio. Havia bolsas de telefone. Domingo se publicava em jornais impressos centenas de anúncios de quem queria comprar e vender telefones. Vieram os equipamentos de fazer cópias que qualquer pessoa podia instalar no Desktop. O mercado de CDs música e filme foram destruídos. O que dizer então das Fitas VHS e o videocassete ? Hoje nem mesmo se usa a tecnologia dos CDs ! Fazer uma ligação de telefone Internacional era cara. Hoje temos celulares. Cursos não presenciais são hoje uma realidade . Fazemos compras pela internet. Trabalhar em casa é possível. Pagamos contas pelo celular. E a tecnologia invadiu a vida das pessoas, da sociedade em todos os aspectos da vida. Temos moedas virtuais E criptomoedas impossíveis de serem penhoradas por via judicial. Aplicativos de comprar comida, a uberizaçao destruiu o serviço de táxis no mundo. Livros virtuais. E isso também vai um dia chegar na política. Novas formas de participação popular. Aquela forma de participação popular que está na Constituição de colher assinaturas está ultrapassada. Hoje você elege um deputado para te representar, dá um cheque em branco a ele, é de repente vota contrariamente aos interesses de quem o elegeu. Muitos politicos só pensam em Emendas e Reeleição e toda semana escandalos de corrupção aparecem. Por que precisamos de representantes ? Porque é impossível colocar no congresso nacional milhões de pessoas. Mas a tecnologia está aí ! As pessoas podem virtualmente se manifestar ou mesmo aprovar leis. Referendos populares e plebiscito serão coisas semanais. A tecnologia até derrubou ditaduras na África e Oriente médio. O povo, lembra: todo poder emana do povo, vai querer exercer o poder. Atos dos 3 poderes deverão ser referendados para ter validade. O povo vai voltar ao poder. Isso vai acontecer no mundo inteiro. Não será o fim do sistema representativo, mas o povo dará a última palavra. Vai haver muita resistência, será uma disputa entre representantes eleitos, autoridades e elites e o povo querendo participar, mas o povo imporá sua vontade. Uma leva de congressistas serão eleitos, e farão uma nova CF, e o povo será chamado a optar entre o Estado Democrático de Direito ou Supremacia da Vontade Popular. E implantação esse sistema de Plesbicito e Referendos. Chega de dar cheques em branco para politicos. Nada de elites que dizem sob que leis as pessoas tem que viver. Decorrente disso, o mundo caminhará para uma tremenda ditadura popular parecida com o comunismo. A media da vontade popular Não é boa. Hoje o povo não está satisfeito vendo autoridades e servidores públicos ganhando salários premiados. Pergunte ao povo se estão satisfeitos com esse Código Penal que está aí !! Dizem que na antiga Grécia, nas cidades estado, quando o povo se reunia (e isso era possível) os políticos se calavam pois o povo estava ali para manifestar sua vontade. Hoje temos a tecnologia. Imagine segurança que será. Poderemos votar pelo celular, há um custo ínfimo ao que é gasto nas eleições atualmente.

Eduardo de Castilhos Fritz disse:
14 de maio de 2026 às 18:48

Parte 2 - Nada de salvadores da pátria Muitos juristas por aí, falam de democracia, mas se perguntar aos mesmos: por quê, não deixar o povo decidir através de plesbicitos e referendos populares os temas como Drogas, armas, aborto, obrigatoriedade de votar e servico militar, Anistia, suicidio assistido, eutanásia, coisas do direito penal, como: Inimputabilidade de nenores, uma nova Constituição, saidinhas, pena de morte, prisão perpétua, progressão de regime ? Vão dizer - o povo é burro, são animais perigosos. E ainda vão dizer, que as maiorais eventuais e transitórias do Congresso Nacioanal, populistas, não podem decidir. Esses juristas, querem pertencer a uma elite (seja de esquerda ou direita) que se acham dotados de alta sabedoria e querem ditar sob que leis temos que viver. É só eles como seres iluminados são capazes de entender o que o povo precisa. Não precisamos de babás! A crise atual, é que o povo quer ser ouvido, consultado e quer também decidir. A tecnologia está aí! Acho que esqueceram: o poder emana do povo ! Chega de mediocridade ! Abram a mente. O povo deveria ser o quarto poder e dar a palavra final. Temas polêmicos deveriam ser dado o povo decidir. A escolha do povo, não seria nem pior ou melhor do que a decisão de um tribunal ou de congressistas mas seria a escolha do povo através de seus eleitores

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