Opinião

Muito além do mercado da bola: os desafios jurídicos das transferências internacionais

A janela de transferências de janeiro é tradicionalmente marcada por intensa movimentação no futebol internacional. Enquanto os campeonatos do hemisfério norte seguem a pleno vapor durante o inverno, o hemisfério sul atravessa o período de recesso desportivo, momento em que os clubes aproveitam para planejar e reforçar seus elencos por meio de novas contratações.

Neste ano de 2026 já são anunciadas algumas transferências, tais como as de Andrew do Gil Vicente para o Flamengo (negócio avaliado em € 1,5 milhão); Rayan pode sair do Vasco para o Bournemouth da Premier League (€ 35 milhões); Oskar Pietuszewski chegou ao F.C.Porto (€ 8 milhões + € 2 milhões de remuneração variável) com autorização da Fifa e documentação detalhada por se tratar de atleta de 17 anos; Jurásek sai do Benfica para o Slavia Praga com a cessão de 50% dos direitos econômicos do atleta pelo valor de € 3 milhões.

Também circulou o anúncio do acerto do Flamengo com Lucas Paquetá, enquanto ainda negocia os valores com o West Ham, clube detentor de seus direitos federativos. Esses tipos de negociação evidenciam não apenas a complexidade financeira, mas também os aspectos jurídicos envolvidos.

Formalidades na transferência internacional

Do ponto de vista legal, a transferência internacional exige etapas formais, como a negociação entre clubes, a assinatura do contrato de trabalho pelo jogador, o registro junto à federação nacional e a Fifa por meio do Transfer Matching System (TMS) e a emissão do Certificado Internacional de Transferência (CIT), que valida a mudança de registro do atleta entre países.

Os contratos de jogadores devem conter cláusulas essenciais que garantam segurança jurídica, como prazo de duração, remuneração, cláusulas indenizatória e compensatória desportivas, bônus por desempenho, luvas, direitos de imagem e multas rescisórias. Em negociações ainda pendentes entre clubes, cláusulas condicionais ou memorandos de entendimento são frequentemente utilizados para formalizar intenções sem gerar obrigações imediatas, evitando litígios internacionais.

Spacca

Agentes e intermediários desempenham papel relevante nas transferências, mas sua atuação é regulada, exigindo registro junto às federações e observância de limites de comissão, sob pena de responsabilidade civil e disciplinar.

Regime jurídico no Brasil

No Brasil, o atleta profissional possui regime jurídico próprio, regido pela Lei Pelé e pela Lei Geral do Desporto (a CLT não se aplica ao atleta, somente de forma subsidiária), com obrigações de registro, remuneração e direitos trabalhistas. Os clubes devem assegurar o cumprimento dessas normas para prevenir conflitos ou ações judiciais futuras.

Além da legislação nacional (Lei nº 9.615/98 e Lei nº 14.597/23), as transferências internacionais estão sujeitas às regras da Fifa, que disciplinam janelas de negociação, idades mínimas, registro internacional e mecanismos de compensação de formação. O descumprimento dessas normas pode acarretar sanções financeiras, suspensão de atletas ou anulação de contratos.

Em síntese, transferências internacionais de atletas profissionais envolvem uma complexa rede de direitos e obrigações contratuais, normas trabalhistas e regulamentos internacionais. A segurança jurídica depende da formalização adequada dos contratos, do cumprimento das obrigações legais e da observância das normas internacionais, garantindo proteção a clubes e atletas.

Mauricio de Figueiredo Corrêa da Veiga

é advogado, mestre em Ciências Jurídicas pela Universidade Autónoma de Lisboa, professor a contrato do Master Diritto & Sport da Universidade La Sapienza de Roma, membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), do Instituto dos Advogados do Distrito Federal (IADF) e da União Internacional de Advogados (UIA), membro honorário da Academia Petropolitana de Letras e sócio do Corrêa da Veiga Advogados.

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