
Agradeço o convite para a sua posse como juíza. Lembrei-me de uma leitura da obra de Rainer Maria Rilke que sorvi décadas faz, e ofereço-lhe como gesto de gratidão pela lembrança estas singelas ideias para o seu percurso na carreira. Talvez sejam úteis. Almejo tenha pleno êxito em suas funções, estou certo de que, com discernimento, correção e dedicação galgará todos os degraus, e quem sabe um dia chegará à bancada de um Tribunal Superior, onde essas diretrizes poderão ainda ter sentido. Ei-las numa forma de singelo decálogo:
I — Honra a dignidade da jurisdição, pois “o magistrado deve atuar de modo a preservar a honra, a dignidade e a independência da função jurisdicional” (Resolução 60/2008, Anexo, artigo 1º).
II — Defende a independência do Poder Judiciário, porque lhe incumbe “zelar pela independência do Judiciário” (artigo 2º).
III — Exerce a jurisdição com liberdade de convicção, dado que o magistrado deve exercer a função “independentemente de pressões externas” (artigo 6º) e “não deve participar de atividade político-partidária” (artigo 5º).
IV — Guarda a imparcialidade como valor supremo, reconhecendo que “a imparcialidade é dever do magistrado” (artigo 8º) e que não deve adotar “comportamentos que possam refletir favoritismo, predisposições ou preconceitos” (artigos 7º e 10).
V — Fala com prudência e reserva, pois deve ser “prudente ao manifestar-se publicamente sobre processos pendentes ou casos que possam vir a ser submetidos ao seu julgamento” (artigo 12).
VI — Mantém integridade na vida pública e privada, uma vez que deve “adotar comportamento irrepreensível na vida pública e privada” (artigo 13).
VII — Rejeita vantagens, presentes ou benefícios, por isso que é vedado receber “benefícios, presentes ou vantagens de pessoas interessadas em processos” (artigo 14).
VIII — Pratica a urbanidade com todos, já que deve “tratar com respeito e consideração todos aqueles com quem se relaciona no exercício da função” (artigo 16).
IX — Guarda o segredo que a função lhe confia, visto que deve “guardar segredo sobre fatos de que tenha conhecimento em razão da função” (artigo 18).
X — Busca constante aperfeiçoamento, porquanto deve “zelar por seu aperfeiçoamento técnico e científico” (artigo 20).
Nada disso é novo. Não foram inventadas essas ideias. São citações literais que advém da Resolução nº 60, de 19 de setembro de 2008, do Conselho Nacional de Justiça. A iniciativa de compor a comissão para a realização de estudos destinados à elaboração de um Código de Ética Judicial foi da ministra Ellen Gracie, então presidente do CNJ, em 16 de novembro de 2006. E o Código de Ética, que orienta a conduta ética dos magistrados em toda a República Federativa do Brasil, foi aprovado por unanimidade em 2008, na gestão do ministro Gilmar Mendes.
Portanto, jamais esqueça: de acordo com esses princípios, o magistrado ou a magistrada deve adotar comportamento irrepreensível na vida pública e privada; e você deve atuar de modo a preservar a honra, a dignidade e a independência da função jurisdicional, incumbindo-lhe zelar pela independência do Judiciário, evitando condutas que possam prejudicar a confiança do cidadão na Justiça. Tais preceitos obrigam os magistrados no exercício de suas funções.
Mas atenção: a condição humana não é a da impecabilidade; é a de tentar, e se falhar, nas palavras de Samuel Beckett, ‘falhar melhor’. Todos podemos errar na vida. Prepare-se também para isso. Há equivocidades no percurso. Afinal, a perfeição não é destino humano; tropeçamos, recomeçamos e, a cada tentativa, aprendemos a cair menos e a levantarmo-nos mais fortes.
Como disse Rilke ao jovem Kappus — o poeta que foi destinatário da ‘carta’ escrita por aquele autor – mais do que aprender a escrever poesia, e no seu caso, de redigir despachos ou proferir sentenças, é preciso tornar-se apto a viver o mais plenamente possível o que faz, e de forma autêntica mais autêntica possível. Por isso, essas regras de conduta são necessárias e não apenas decorativas. Não devem ser um manual técnico para colocar na estante, mas sim verdadeiro comportamento cotidiano, simples como rima de oração.
Prezada juíza, minhas sugestões são outras, do ponto de vista de uma pessoa decepcionada com os lamentáveis rumos da magistratura nos últimos vinte anos: 1- Aprenda a dizer não desde o primeiro dia de judicatura (não uso aspas aqui, porque a página do Conjur trava com este símbolo). Com isso, você não se introduzirá na cultura da magistratura naquilo que ela tem de pior, como a normalização dos privilégios e dos pretextos que os sustentam, bem como outras condutas ainda piores que se formam com o passar dos anos; 2- Não troque sua honra por uma promoção, inclusive para subir de instância; 3- Seja uma juíza de primeira instância mais honrada do que um ministro de tribunal superior, que, assim, terá de mim um respeito que eles não tem. 4- Não manipule a jurisprudência. 5- Não espere reconhecimento por cumprir a sua mera obrigação, independentemente do que a maioria dos seus colegas propagarem (diga não também para isto!) 6- Boa sorte na vida!
Ele tem a certeza que somos todos desprovidos de pensamento crítico 🤦
XI - não se utilize da I.A para proferir decisões, posto que a atividade jurisdicional é dirigida para resolver conflitos humanos, os quais dependem de reflexão e sensibilidade, atributos que não são encontrados em robôs. Afinal, eles não presidem audiências!
Recomendo enviar cópia a seus pares do STF, mesmo afirmando, depois, que o fez por engano...
Exatamente isso!
Perfeito!
A melhor lição seria a leitura da Rule of Law Index 2025. Lá está a realidade do judiciário brasileiro.
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