Morreu nesta terça-feira (2/9), o jornalista Mino Carta, aos 91 anos. Nascido em Gênova, na Itália, mudou-se para o Brasil nos anos 40. Foi um dos criadores das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé, Carta Capital e do Jornal da Tarde.

Mino Carta foi um dos mais importantes jornalistas do Brasil
Teve papel importante na resistência ao regime militar (1964-1985). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu amigo, decretou luto de três dias e qualificou-o como “referência para o jornalismo brasileiro”.
Mino, cujo verdadeiro nome era Demetrio, tinha visão extremamente crítica dos donos de jornais e jornalistas brasileiros. Sua visão dos jornalistas de Brasília passava um pouco do que seja considerado preconceituoso.
Veja aqui, com exclusividade, um depoimento de Mino, dado em janeiro de 1989:
O jornalismo brasileiro piorou muito. E o jornalista de Brasília consegue ser pior que os demais. É muito mimético, o que é típico das pessoas despreparadas que sabem pouco ou nada e que, portanto, não acreditam em coisa alguma, senão na sua própria necessidade de sobrevivência. Nessa direção, o jornalista pode chegar à profundidade de um verme com a ferocidade de um coleóptero.
Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o padrão do jornalista são os seus patrões. Então, eles passam a julgar, pensar e se parecer com os seus patrões. Em Brasília, os modelos são outros. São os políticos, os ministros. Em suma, modelos ruins.
Brasília é a cidade mais nordestina, primitiva e vulgar do país. São Paulo e Rio de Janeiro têm algumas esquinas que se aproximam do mundo contemporâneo. Menos do que pensam os paulistas e cariocas, mas em alguns lugares há essa proximidade.
O jornalismo de Brasília acompanha esse clima e por isso se encontra num patamar abaixo do jornalismo de São Paulo e do Rio. Em todo o país, no entanto, o jornalismo nunca viveu uma fase tão negra. Nunca foi tão oficialista, envolvente, capilar, uma incompetência notável. Sempre foi provinciano, mas nunca tão baixo.
O regime militar fez com que o jornalista estivesse do lado da luz. Isso deu absolvições coletivas (conta episódio da véspera do Plano Verão com Alexandre Garcia e Marilena Chiarelli). E gerou um oficialismo venal, pelo que os donos são mais culpados que os repórteres.
O Estado de S. Paulo defende o ACM para ter o direito de publicar listas telefônicas. Com o dinheiro que eles recebem dessas listas, eu faria cinco jornais melhores que o Estado. Os donos das empresas jornalísticas todos ganham por fora. Quem não ganha agora ganhou no passado.
A Folha ganhou uma praça para fazer uma rodoviária. A Abril me trocou por um empréstimo de US$ 50 milhões. Um empréstimo legal, que viria do Morgan Guaranty Trust, que seria autorizado pelo Rischbieter, mas cuja autorização foi parar na mão do Armando Falcão.
O Estado de S. Paulo odiava o ACM, mas hoje… Não tenho grandes ilusões com a imprensa em todo o mundo. Mas aqui chegou a um ponto em que não se sabe nem ortografia.
Mutatis mutandis, a situação da imprensa é a mesma situação do Brasil. Há quem ganhe mal e há quem ganhe bem, num desequilibro brutal. Mas o que ganha bem, supera os níveis internacionais. Nos Estados Unidos, como aqui e na Europa, um editor ganha em média US$ 4.000 — mas como o custo de vida, aqui, é a metade do que lá, então o salário real do brasileiro é de US$ 8.000, e não há muita gente no mundo ganhando isso.
O duplo emprego é insuportável. Lamento muito que um jornalista prefira ganhar Cr$ 2.000 (cruzados novos, à época) no Senado, e não Cr$ 1.200 na Istoé/Senhor. Mas mesmo que todos os jornalistas, repentinamente, passassem a ter um só emprego, não estaria resolvido o problema da venalidade, porque os donos dos jornais são caudatários do poder.
A primeira função do jornalista é fiscalizar o poder e exercer seu espírito crítico sobre ele. Mas se o profissional é rigoroso, ele acaba num beco sem saída. O Cláudio Abramo quis lutar contra o poder, mas o jornal em que ele trabalhava era o próprio poder. Ele foi apeado do jornal por um ministro do Exército que caiu um mês depois. Ora, por que ele não foi reposto no cargo?
O suborno e a venalidade não me interessam. O que me interessa é o resultado. Mas se o jornalista for chapa branca, ele sempre justificará a suspeita sobre seu trabalho.
Eu explicaria assim o seu trabalho: “Olha, eu escolhi esse assunto, mas é preciso esclarecer que os patrões não são melhores. São eles que fazem os grandes negócios”. Eu não estigmatizaria a categoria, porque a dos patrões gosta disso, porque isso a favorece.
A maneira pela qual se exerce o poder no Brasil é medieval. A concepção da estrutura social fez com que abaixo do lumpem houvesse a miséria absoluta. Enquanto as relações empregado-empregador estão no estágio pré-revolução francesa.
O Executivo e o Legislativo investem no roubo de verdade. Escamoteiam. Você não precisa de censura, você compra o jornalista — uma maneira branda e suave de interferir, já que o dono já se tornou confiável.
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