Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é um romance histórico publicado postumamente em 1958. Ambientada na Sicília do século 19, durante o período do Risorgimento italiano, a obra narra o declínio da aristocracia siciliana por meio da figura do príncipe Fabrizio Salina, um nobre lúcido e melancólico que observa, com resignação, as transformações políticas e sociais de sua época.

A famosa frase se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi (se queremos que tudo permaneça como está, é necessário que tudo mude, em tradução livre), dita por seu sobrinho Tancredi, sintetiza o espírito do romance: uma crítica sutil e desencantada às ilusões da mudança social. A obra é considerada um dos grandes clássicos da literatura italiana do século 20.
Nos últimos anos, especialmente no último quinquênio, o mundo do futebol tem se acostumado a debater, discutir, criticar e observar as chamadas SAFs: Sociedades Anônimas do Futebol. De um lado, defensores indicando se tratar da única solução para o futebol brasileiro; do outro, crítica ao sistema, indicando que a transformação implica na perda da identidade do clube, na falta de participação dos torcedores nas decisões e na dependência de um único investidor, que pode levar a decisões prejudiciais se sair ou não cumprir suas promessas.
O fato é que, quer gostemos ou não, a Lei das SAFs completa quatro anos de vigência em 2025. Ao transformar associações sem fins lucrativos em empresas e viabilizar a entrada de capital por meio de investidores externos, o modelo contribuiu para que alguns grandes clubes superassem crises financeiras e retomassem o protagonismo no futebol nacional.
Crises acarretam em críticas às SAFs
Ocorre que, ainda que o mercado tenha bons exemplos de SAF — Botafogo e Bahia —, basta uma única crise em um clube SAF para que toda crítica retorne e questione o modelo, atribuindo toda falha e crise do clube ao novo modelo.
E aqui entra Il Gattopardo: será que o problema é o novo modelo, ou antigos gestores que, mesmo com a mudança, mantiveram práticas ultrapassadas? Realizaram a transformação societária, mas não o modo de fazer gestão? Com essa ideia, a SAF se torna vítima perfeita: ela é feita para apanhar, ela é boa de cuspir.
Mas será mesmo a culpa é da SAF? A crise existe apenas pela transformação? E aqui entra o Atlético Mineiro. Em dezembro de 2024, o endividamento do clube superou R$ 1,4 bilhão.

Nos últimos dias, especialmente na terça-feira (22), diversos jogadores do Atlético-MG notificaram extrajudicialmente o clube devido a pendências financeiras. Entre os nomes estão os meias Igor Gomes e Gustavo Scarpa, além do lateral-esquerdo Guilherme Arana. Já o atacante Rony ingressou na Justiça com um pedido de rescisão contratual com o Galo, mas voltou atrás.
O motivo seria o atraso superior a dois meses no repasse do fundo de garantia. Diante da situação, outros jogadores cogitariam adotar a mesma medida. Segundo a diretoria, o atraso atual é de apenas dois dias, o que não justificaria esse tipo de iniciativa por parte dos atletas. O clube entende que sua situação financeira com o elenco é igual ou até superior à de grande parte dos clubes do país.
A culpa é da SAF?
Instalada a crise, o culpado logo aparece: SAF.
Segundo Rica Perrone,[1] que relatou uma conversa com um jogador do elenco, o grupo atribui a responsabilidade pelos atrasos salariais ao sócio gestor da SAF, o empresário Rubens Menin. De acordo com o atleta, o entendimento entre os jogadores é de que, uma vez transformado em SAF, o clube passa a ter um CNPJ com proprietário definido — e, portanto, a dívida recai diretamente sobre a empresa e seus controladores:
“Um jogador do Atlético me disse o seguinte, e esse era o entendimento de vários no grupo: ‘quando é um clube, a gente releva um pouco mais. Mas quando vira SAF, quem nos deve é uma empresa. E essa empresa a gente sabe quem são os donos, conhecemos a vida financeira deles, sabemos o patrimônio que têm’”, relatou.
A imprensa esportiva também não deixou barato [2]. Para Alicia Klein, fala-se muito que a SAF é a solução, que vai resolver os problemas administrativos, que vai profissionalizar [o futebol] e essas coisas não vão mais acontecer. E não é o que a gente está vendo. Os problemas do Galo não vêm de hoje, mas, aparentemente, há um desgaste que pegou o elenco como um todo.
A comentarista Milly Lacombe também adotou o mesmo tom, ao mencionar que “o Rony não está errado e os outros jogadores também não. Quando a gente fala em SAF, a gente pensa em uma solução para todos os problemas. E não é. A SAF é uma solução ruim para um problema real – nosso futebol tem problemas de administração. […] Sabe qual é a solução que o Conselho vai votar? Mais aporte de dinheiro e entregar mais percentual para a holding”.
Renovação da gestão
A SAF tem seus problemas, mas não representa um ponto de chegada, e sim um instrumento de transformação. Criar uma pessoa jurídica não garante, por si só, a viabilidade do projeto, especialmente se as mesmas práticas e lideranças forem mantidas.
Para que o modelo funcione, é essencial uma renovação profunda na gestão, o que frequentemente exige também a substituição de pessoas. Os clubes devem buscar profissionais altamente qualificados, alinhando-se aos padrões já consolidados no mundo empresarial e no mercado financeiro. Um dos aspectos mais delicados desse processo é justamente a redefinição do comando do departamento de futebol.
A esperança é de que a Lei da SAF represente um caminho para uma nova realidade na gestão dos clubes brasileiros. Já existem exemplos consistentes de boa administração mesmo dentro do modelo associativo tradicional — mas que, em um futuro próximo, devem migrar para o modelo de sociedade por ações —, o que evidencia que, mais do que a mudança legal, é a transformação na mentalidade dos dirigentes que realmente faz diferença.
Seja em uma empresa ou em um clube social, com ou sem remuneração, o que muda um clube é a forma como ele é conduzido. Uma nova lei pode abrir as portas para uma nova era, mas isso só se concretiza se o ecossistema como um todo evoluir.
É fundamental promover uma mudança de cultura na liderança dos clubes e federações. Por fim, além dos casos pontuais de sucesso que a SAF pode proporcionar, será necessário que o futebol brasileiro passe a se enxergar como um produto. Bons investidores não olham apenas para o clube, mas para todo o ambiente em que ele está inserido.
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