A melancolia em Pindorama e as faculdades que incentivam delações

Spacca

Nestes tempos em que a delação premiada assume relevância – quase como único modo de investigar – recebi e-mail de um professor universitário, professor-doutor com excelente formação e competência reconhecida, vítima de “delação não-premiada”, algo do tipo “dou o tapa e escondo a mão”, na linha de personagens já inseridos no imaginário social como “amigos-da-onça”.

Explico: descobri em 1996, em sala de aula do curso de Direito, uma prática que vige até hoje: a “avaliação” dos professores por um formulário de marcar com x e um espaço para observações escritas ao final. Ali o professor é dissecado pelos alunos. Até aí, tudo bem. Accountability é condição de possibilidade para a democracia e para a efetividade das práticas de uma profissão. Todavia, descobri que a ficha de avaliação não necessitava de assinatura. Mais ainda, garantia-se o sigilo.

Passaram-se tantos anos e tantas vezes falei disso em palestras e na sala de aula dos cursos de mestrado e doutorado, já que, ainda em 1997, afastei-me da graduação, embora a ela ficasse ligado por outros meios e modos (portanto, não sujeito à alcaguetagem).

O assunto volta à baila com o e-mail do professor, que relata ter sido vítima de ofensas do mais baixo escalão. Reclamou para a faculdade, que se negou a tomar qualquer providência. Fiz pequena pesquisa, perguntando para vários professores, que me contaram cobras e lagartos provenientes de avaliações feitas por alunos descontentes com reprovações ou discordâncias de sala de aula. Dizem que é absolutamente sintomático: o aluno que tira notas baixas se vinga do professor de forma anônima. Pior: o anonimato é assegurado pelas direções dos cursos de Direito.

Que feio é isso, não? A Constituição proíbe o anonimato. Parece óbvia a proibição do anonimato quando este envolve um ingresso na seara do direito alheio. Trata-se de uma questão ética. Uma República não se faz escondendo identidades. Cada um deve ser responsável pelo que diz e escreve, principalmente se se tratar de uma faculdade de direito, que tem a incumbência de formar futuros advogados, promotores e juízes. Ora, não parece aos milhares de leitores desta coluna que é exatamente uma faculdade de Direito que deveria dar o exemplo e coibir esse tipo de alcaguetagem? Ao contrário, penso que uma faculdade deveria dar todas as garantias aos alunos fazerem reclamações, desde que assinem. E garantir que nenhum professor faça retaliações.

Sempre defendo os alunos, mormente os de Direito. Em boa parcela são explorados no plano do conhecimento. Vendem-se-lhes gatos por lebres. E, convenhamos, lebres de cinco patas. Despiciendo repetir, aqui, minhas críticas ao modelo ultrapassado de ensino jurídico. Quem quiser saber minha opinião a fundo, leia os volumes Compreender Direito I, II e III (neste último estão as colunas sobre o aluno e o professor ideais). Mas não posso aceitar que estudantes de Direito possam fazer críticas do tipo “disque 171 para delatar o professor”.

É grave isso. Professores ofendidos, dependendo do caso, poderão ir a juízo para buscar reparação por dano moral. Fácil, fácil. Talvez assim as faculdades aprendam.  Talvez esse seja um problema de nosso país. Vivemos um individualismo descomprometido. Não assumimos nossas atitudes. Tempos de fragmentação. Claro que há uma herança patrimonialista por trás disso. Pindorama é o lugar do “você sabe com quem está falando”. Logo, o contraponto é o medo de denunciar assumindo a responsabilidade. Entendo bem isso.

Regra geral, os alunos têm medo de assinar queixas contra professores. Sei disso. Mas, se continuarmos nesse círculo vicioso, não avançaremos. Não me parece que dois erros deem um acerto. Ou dois problemas deem uma solução. Uma sociedade não se faz de indivíduos. Indivíduo é “não dividido”. E só um cidadão é o “dividido”. Ele reconhece o outro. Cidadãos fazem uma República. Indivíduos fazem… um país como o nosso, recheado de síndromes de Jeca Tatu, Caramuru e amigos-da-onça. E recheado de corrupção, porque o crime mais egoísta é a corrupção, em face do prejuízo difuso que causa.

Por isso é que vivemos sob o predomínio do solipsismo. Como já expliquei em colunas anteriores, somos viciados em nós mesmos. Essa é a tradução do sujeito solipsista da modernidade.  Sim. Por isso é que dizemos “sabe com quem está falando”; “a minha vara”; “a minha promotoria”; “o meu tribunal”; “tomei posse do meu cargo”; e assim por diante. Pronto. É nesse caldo de (in)cultura que as faculdades, em vez de ensinarem responsabilidade para os alunos, incentivam o anonimato, cuja consequência, sem tirar nem por, é a delação dos professores, “dando o tapa e escondendo a mão”. Revoguemos isso imediatamente. É inconstitucional. E comecemos a construir cidadãos e não indivíduos preocupados apenas com seu próprio umbigo.

Post scriptum 1: Como disse, escrevo esta coluna em face do e-mail que recebi do professor, que escreveu-me para falar sobre esse assunto. Mas, por favor, não há qualquer relação desta coluna com a da semana passada. Sem qualquer ironia. Não existe inconstitucionalidade no uso de apelidos ou codinomes, se é possível identificar o autor. Isso é óbvio. Minha crítica, para quem leu, era de outra cepa.

Post scriptum 2: Leio que o MEC autorizou mais de 1.800 novas vagas em Direito em Pindorama. Foram autorizados novos cursos…  Sempre achei que era isso que estava faltando nos lugares citados na Portaria do MEC. Qualquer pessoa sabe que o progresso chegará com…um curso de direito (sobre um olhar irônico acerca desse fenômeno, ver o artigo de Diego Ribeiro aqui). Aonde enfiaremos toda essa gente? Claro: no Estado. Onde mais? E quando todos forem funcionários públicos, será o nirvana. E todos estarão no Judiciário; no Ministério Público; na Defensoria; na Polícia; nos cartórios; no Banco Central; tribunais de contas dos estados e da União; na Advocacia Geral da União; e nas procuradorias em geral (esqueci alguém?). Daí a pergunta: sobrará algo não-estatal em Pindorama? Alguma atividade privada ainda terá condições de ter sucesso na área do direito? Ora, se tudo é, nada é… Como o paradoxo do queijo suíço (minha LEER me permite repetir): o melhor queijo é o suíço; é o melhor porque tem muitos furos; assim, quanto mais furos, menos queijo e, consequentemente, melhor o queijo. Moral da história: o queijo ideal-fundamental (o Grundqueijo) é o não-queijo; é o “queijo só-furos”, se me entendem a alegoria em tempos de Gelassenheit (oficialmente se traduz essa palavra por “serenidade”; para mim, ao contrário, a tradução é “deixamento” ou “melancolia”, porque terrae brasilis está melancólica, como no filme de Lars Von Trier – Melancholia -, à espera do planeta que acabará com tudo). Cartas para a coluna.

Adendo metafórico: quando vejo que todo-mundo-quer-cursar-Direito-para-ingressar-no-Estado, lembro de uma metáfora que já contei aqui. É a do povo que vivia na floresta (terrae florestalis) e só comia vegetais. Vivia feliz. Pela falta de predador, os porcos foram se multiplicando. Um dia, fortuitamente, houve um incêndio e muitos porcos foram assados. E todos sentiram, vez primeira, o cheiro de leitão-a-pururuca. E caíram de boca. Desbragadamente. No dia seguinte, queriam mais porcos assados. E o que fizeram? Incendiaram mais florestas para queimar porcos e assim comer carne assada. Houve um momento em que faltou… floresta. Solução: plantaram mais florestas para poder queimá-las. E foram criando instituições para cuidar da burocracia do plantio de árvores, regulação dos incêndios, vendas de fósforos, exame da OAF (Ordem Ardentis Florestalis), cursos para plantar florestas mais rapidamente, florestas já com tempero  etc. E mais e mais criaram estruturas. Cursinhos para treinar para o exame da OAF e para os concursos aos cargos de plantadores de florestas. E dos que cuidavam dos porcos a serem queimados. E dos incendiadores. Por vezes, havia briga pelos porcos. E, interessante: todos eram independentes. E cada setor (plantação, fogos, criação etc) tinham autonomia financeira.  Os gastos e a poluição aumentavam… Mas mesmo assim novas florestas eram queimadas e plantadas, queimadas e plantadas. Só quem era do Estado-Florestão se dava bem. Na periferia, plantavam-se pequenos arbustos… Era o que sobrava para a patuleia florestalis. Até que um dia chega alguém e diz: “Não entendo o porquê de tudo isso. Não era mais simples terem construído churrasqueiras?” Ao que um floresteiro-vestindo-terno-Hugo-Matagal, com os beiços ainda cobertos da gordura da casquinha do porco, redarguiu: “Disso já sabemos há muito tempo”. E, farfalhando, complementou: “Se construirmos churrasqueiras, o que faremos com tudo isso-que-está-aí?”

Marcuspc disse:
23 de abril de 2015 às 09:47

Este circulo vicioso-destrutivo que se instalou no país esta longe de acabar. Acabo de escutar na rádio, no carro, uma ouvinte comentado que em brasólia tudo é concurso, ou você é "concursado ou é concursando", ai ela fala da prova de domingo e criticando pergunta que é Marcelo Neves. Este é o tipo de "profissional" que o Estado esta contratando? Talvez ela quisesse que perguntasse sobre a novela, afinal perguntar sobre Marcelo Neves foi "pegar pesado". Fui ver a prova (o professor Marcelo Neves conheço, sou "fã", o estudo me levou a conhecê-lo, pessoalmente até), de qual concurso, foi o concurso para a Sesipe (agente penitenciário), e a pergunta era sobre a constitucionalização simbólica. Imagino a cara da "concursanda" se a pergunta fosse sobre os livros "Entre Hidra e Hércules" ou "Entre Têmis e Leviatã".

deffarias disse:
23 de abril de 2015 às 10:10

Concordo com o Lênio, acerca da importância da identificação. Entendo, porém, que a questão não é tão simples de resolver. O Brasil é o país da retaliação. Em todas as esferas, inclusive familiares. O problema é que não há instituições que assegurem, efetivamente, o exercício da queixa, da reclamação, o que faz com que o queixoso fique à mercê do reclamado, principalmente quando este tem algum poder em relação àquele. Também não temos condicionamento cultural para repudiar coletivamente, por inaceitável, esse tipo de retaliação. As pessoas se escondem. Dizem que é assim mesmo, isso quando não culpam o queixoso pelo seu próprio infortúnio. Acho que esse problema é muito mais enraizado na nossa cultura, a demonstrar nossa imaturidade civilizacional.

Marcos Alves Pintar disse:
23 de abril de 2015 às 10:13

A questão de fundo tratada pelo prof. Lenio vai além das faculdades de direito. Trata-se do crescente desrespeito aos profissionais de uma forma geral, um comportamento coletivo que está se tornando regra na decadente sociedade brasileira. Vejo isso com clientes do escritório de advocacia, da mesma forma que diversos outros profissionais de diversas áreas fazem a mesma reclamação. No nosso caso, basta que o cliente visualize já ter explorado tudo o que poderia obter do advogado para que o profissional a partir desse ponto passe a ser a própria figura do demônio, mesmo se a atuação for a melhor possível. Para não pagar honorários, o sujeito inventa toda espécie de construção artificiosa visando denegrir o profissional. Ao longo dos últimos anos, recebi centenas de clientes qurendo que eu ingressasse em ações já ganhas, cobrando honorários "baratinho", com graves (e falsas) acusações em face a colegas apenas como pretexto para sem justificativa mudar de advogado e não pagar o que deviam. Essa situação parece se repetir em quase todas as áreas. Em periferias, poucos médicos se aventuram em atender nos plantões, tamanha é a falta de respeito dos usuários do serviço público. Obviamente para que o bom professor, o bom advogado, o bom médico, etc., atuem de forma plena é preciso que esses profissionais sejam respeitados, pois de outra forma não vão desenvolver a profissão com a plenitude necessária, e quem perde é a própria sociedade.

Marcos Alves Pintar disse:
23 de abril de 2015 às 10:22

Por outro lado (e sempre há um outro lado), o Brasil precisa resolver esse problema da perseguição contra quem com a cara lavada contesta aqueles que de alguma forma ostentam situação de poder. Trata-se de uma mazela da República, que atinge principalmente o meio jurídico. Vá dizer, por exemplo, que é contra aumento de salário de juízes. Basta isso para estar definitivamente na "lista negra" dos magistratura, e o que receberá para o resto da vida é "paulada decisória". É por isso que não se encontra, entre os candidatos a uma vaga na magistratura, um único crítico, e o resultado obviamente não é bom para a sociedade.

Kelsen da Silva disse:
23 de abril de 2015 às 10:56

O brasileiro de uma forma geral tem certeza que só tem direitos e nenhum dever. Não se contenta com opiniões diversas, não sabe debater de forma democrática. Experimente estudar o nível debate nos EUA sobre teísmo x ateísmo. Absolutamente inimaginável em Pindorama.

Somos patéticos quando o tema e respeito à opinião alheia.

A decadência moral dos estudantes que delatam sob máscara é consequência da péssima educação fundamental e dos pais.

Observador.. disse:
23 de abril de 2015 às 11:12

É metodo. O que acontece no Brasil é resultado de anos de método. Nosso Estado inchado, um Partido hegemônico, a destruição de valores, tudo é fruto de um método.
Quem leu um pouco sobre o pensamento daqueles pertencentes à escola de Frankfurt e conhece, um pouco que seja, a doutrina gramsciana, verá que tudo o que ocorre no Brasil nada tem a ver com acaso ou decadência.Decadência é consequência, não causa.
A delação e outras medidas mais agudas, talvez questionáveis até, procuram atacar esta doutrina e este método que, apesar de sutis, estão destruindo nossa sociedade, tornando-a (propositalmente) mais fragilizada, sem valores e primitiva.Até nossa cultura tem ficado mais rasa, valorizando mais instintos primários do ser humano. Basta assistir algum filme nacional ou escutar as músicas que fazem sucesso hoje em dia.
Não precisa ser sábio ou gênio para intuir que sociedades fragilizadas, mais primitivas, sem mecanismos de proteção algum (incluindo armas), se tornam reféns de grupos que passam a se eternizar no Estado, no poder e em seus órgãos de controle. Alguns grupos privados são eleitos para, conjuntamente e sob a gerência deste mesmo Estado, se eternizarem nas benesses e ganhos pelos seus serviços prestados.
Enfim...basta olhar com serenidade para nosso país, inclusive para fatos como a medalha dada àquele grande amigo do Estado de Minas e perceberemos o que vem ocorrendo, há anos, com nossa nação.

Flávio Marques disse:
23 de abril de 2015 às 11:39

O anseio do prof. Streck é até compreensível; contudo, esquece-lhe que os alunos são sempre a parte fraca nas Universidades. Quantas e quantas vezes presenciei colegas serem perseguidos em decorrência de reclamações feitas ao Colegiado. Ao final do curso, nós, alunos, fomos arguidos, por meio de formulário, sobre a qualidade dos professores, ensino etc. Fiz duras críticas a certa grei feudal. Em que pese ser garantido o anonimato, identifiquei-me. Não fui processado pelos criticados (arduamente)... UFA! É cediço que nas Universidades existem grandes massas de universitários pobres e, por consequência, desprovidos de influência política-social-econômica. Um processo em seu desfavor teria um peso muito maior se comparado com aquele que tenha como réu um filho de juiz, promotor, secretário de Estado etc. E mais: sabemos o quão corporativa são certas classes... em especial a da magistratura. Basta analisar que as maiores indenizações por dano moral são pagas a juízes que figuram com autores nesses processos. Um corporativismo repugnante! Nas próprias Universidades, os professores são intocáveis! Exemplo clássico e recente: o professor da UFMG que teve atitudes homofóbicas (caso amplamente divulgado no CONJUR). Quando os alunos se indignaram com a sua atitude, ameaçou-lhes processar! Detalhe: ele é DESEMBARGADOR, ou seria DE(U)SEMBARGADOR? Não, tenho sérias dúvidas!!! E, pior, o corporativismo que citei: a direção da UFMG disse que a denúncia não iria dar em nada! Sendo assim, não resta (infelizmente!) outra forma a não ser as denúncias anônimas. O dia em que esses pequenos-GRANDES ditadores aceitarem críticas como sendo algo comum na democracia, far-se-á sentido exigir a nomeação do denunciante. Até então, não resta opção que não seja a clandestinidade!

Observador.. disse:
23 de abril de 2015 às 12:29

Professor Lênio, seus adendos metafóricos, geralmente, são impagáveis. Com estorinhas as pessoas conseguem visualizar melhor, o ridículo em que uma situação, que parece cheia de pompas e circunstâncias, pode deixá-las.
Pois é isto que penso, muitos vezes, quando estou por Brasília e observo comportamentos e opiniões de alguns. Só consigo pensar no ridículo trágico que estamos vivendo.
Quanto ao pensamento que levou ao "não seria mais fácil construir churrasqueiras", não interessa ao status quo e a quem dele tira seus ganhos e obtém poder, como bem demonstrou o cidadão de terno Hugo-Matagal (um terno muito bom, por sinal).
Acredito, todavia, que esta é uma fórmula datada, pelo desgaste que gera na sociedade, que vem demonstrando cansaço.

Gustavo Mantovan Silva disse:
23 de abril de 2015 às 14:38

Data maxima venia, professor, mas há uma contradição irredutível na coluna de hoje na passagem “o aluno que tira notas baixas se vinga do professor de forma anônima“.

Se são anônimas as avaliações (feedback) de aluno para professor, como podemos afirmar, sem arranhar a presunção de inocência, que as críticas mais ferinas partem daqueles alunos com as piores notas? Afinal, não se pode condenar as ovelhas pelo sumiço das galinhas, não é mesmo? Ora, não só os maus alunos participam da avaliação, não apenas estes querem bons professores...

Por certo que a Constituição veda o anonimato, assegurada que é a liberdade de expressão, entretanto, seria livre a opinião do aluno que tiver que se identificar para realizar o feedback a respeito do professor(?), sobretudo no atual estágio precário do ensino jurídico no Brasil, em que os professores mais fazem jus a críticas do que elogios.

Abraços

Ps.: na minha avaliação, Dr. Lenio, és o melhor professor que já tive...

Gabbardo disse:
23 de abril de 2015 às 14:41

Hegel dizia que a História se repete. Marx o complementou, dizendo que a História se repete - primeiro como tragédia, depois como farsa.

Pouco sabiam. Essa coluna é tragédia e farsa, simultaneamente.

Fiquei literalmente escandalizado com essa coluna. Me parece que os professores do curso de Direito no País são feitos de açúcar. " o aluno que tira notas baixas se vinga do professor de forma anônima". Se vinga como, sr. Streck? Rodando o professor? Quebrando suas pernas? Cospe na sua cara? Ou só fica xingando muito na Internet?

Me escandaliza e revolta que, no momento em que um juiz decide pela prisão (cautelar, ainda!) de um indivíduo por um X, o sr. Streck diga que "apaguei o seu nome a Comarca, porque o que interesse é o fenômeno e não a pessoa" (http://www.conjur.com.br/2015-mar-26/senso-incomum-juiz-decretou-prisao-marcando-sentenca-ou-quiz-show). Pode passar. Tá tranquilo. O fenômeno importa, não a pessoa.

Ah, mas quando é reclamação (ou choro mesmo) de aluno no final de semestre da universidade, Aníbal está nos portões. Pobres professores - correm risco de derreter, a qualquer momento, por lamúrias de alunos. A Direção, então, é cúmplice. Que se trate de uma relação de poder, que o direito dos professores de não derreterem como se de açúcar fossem feitos não é mais importante que a autonomia universitária e o direito do aluno se proteger de retribuição - isso não interessa, nem sequer como fenômeno.

Aliás, o jeito que Streck (des)tratou o Pretor nas colunas mostra que esse medo não é irrelevante. É real.

Me pergunto, então, qual seria o próximo passo de Streck. Atacar o peer-review (que depende, fundamentalmente, da revisão anônima e protegida dos artigos submetidos por especialistas do ramo)? Sair do Conjur?

Giancarlo disse:
23 de abril de 2015 às 15:09

No meu primeiro ano da graduação o Centro Acadêmico pediu para que os alunos avaliassem os professores anonimamente, mas os resultados seriam divulgados no Jornal do CA por Turma. O professor que estava em sala conseguiu dissuadir boa parte da turma a não responder o questionário (composto apenas de um formulário para marcar um x) dizendo que 1. Não seríamos capazes de avaliar ninguém porque acabávamos de entrar na faculdade e 2. Estaríamos avaliando quem nos avaliaria no final do semestre. No segundo ano, na primeira vez que a instituição realizou avaliação própria, o único aluno que se identificou foi prejudicado na nota depois que um dos professores foi tirar satisfação sobre o quesito "pontualidade". O pior era que, de fato, o professor sempre chegava atrasado. E a Turma foi coletivamente prejudicada por outro professor mal avaliado. Em todas as avaliações que seguiram o medo de se identificar e sofrer represálias sempre existiu. Até no cursinho (sim, cursinho para concursos públicos) teve professor reclamando de avaliação, também um professor ruim. A prática da avaliação anônima é um sintoma do medo de retaliação, pois se os alunos fosem obrigados a se identificarem, ou se recusariam a fazer ou os professores, mesmo os ruins, seriam todos muito bem a avaliados, o que seria inútil. Acho que cabe à faculdade abrir canais e criar métodos para permitir as reclamações e as críticas sem represália, assim como muitos professores deveriam aprender a conviver com as críticas sem levar para o lado pessoal.

Veritas veritas disse:
23 de abril de 2015 às 16:47

Concordo com alguns comentaristas no sentido de que a "avaliação anônima" é eficaz antídoto contra possíveis retaliações. Cabe a quem é avaliado não ser excessivamente sensível às críticas que lhe são dirigidas, filtrando as que possam ser úteis ao seu aprimoramento.
Também compartilho da estupefação quanto à abertura de novos cursos de Direito no Brasil. O excesso de demandismo no Brasil tem aí sua causa primordial.

Miguel Teixeira Filho disse:
23 de abril de 2015 às 17:20

"Cabe a quem é avaliado não ser excessivamente sensível às críticas que lhe são dirigidas, filtrando as que possam ser úteis ao seu aprimoramento"

Uma observação que seria de bastante utilidade ser observada pelos agentes públicos em geral, e por alguns juízes em particular.

Infelizmente o que se vê uma grande distância entre discursos e a prática.

Gilberto Silva e Sousa disse:
23 de abril de 2015 às 21:16

“[…] as faculdades, em vez de ensinarem responsabilidade para os alunos, incentivam o anonimato, cuja consequência, sem tirar nem por, é a delação dos professores, “dando o tapa e escondendo a mão”.

Onde estudo há essa “avaliação” anônima todo semestre. Não serve para nada, senão talvez para prejudicar algum professor até injustificadamente. Não faz o menor sentido esse tipo de “avaliação”!

Mas as ideias-chave que pego dessa coluna são as RESPONSABILIDADES dos alunos e a EXPLORAÇÃO deles NO PLANO DO CONHECIMENTO.
De fato, pode até se dizer que responsabilidade e exploração são temas correlatos: se há exploração, não há como os alunos desenvolveram responsabilidades; inversamente, se não há responsabilidades, haverá exploração.

Isso porque, em geral, os alunos perdem 5 ANOS num curso de Direito. Como assim? Simples. Varamos do 1º ANO ao 5º ANO lendo LEIS. Como o ANTIGO CPC/73, que daqui a pouco não será mais aplicado. O CC é LIDO do 1º o 5º sem choro nem vela.
Como diz Streck (Compreender Direito III, p. 11), não aprendemos as matrizes que sustentam a legislação, as matrizes de interpretação dessa legislação.

Onde estamos? Decoramos aquilo para a prova e esquecemos em seguida. (Rubem Alves tem uma metáfora em que ele diz que os professores normalmente exigem que VOMITEMOS na prova EXATAMENTE aquilo dito em sala (não lembro o nome do livro).

Gilberto Silva e Sousa disse:
23 de abril de 2015 às 21:18

Por que precisamos que professores leiam códigos para nós? Geralmente não há pesquisa na graduação. Não problematizamos nada. Ficamos sempre no DADO. As coisas são apresentadas como se fossem assim desde sempre. Como pode então haver responsabilidade dos alunos se a escola/universidade exerce um tipo de PATERNALISMO frente aos alunos…! São “ENSINADOS” por cinco anos (na verdade, por uns 15 anos se levarmos em conta a escola básica). E quando chegarão a atingir a MAIORIDADE?

Salvo alguma exceção, se esse sistema de ensino, do fundamental à universidade, não é uma VERDADEIRA CORRUPÇÃO, o que seria então corrupção! (?) Como pode sairmos à rua para protestar contra um governo corrupto sem também cuidarmos de casa…!
Como diz Karnal, a “mudança tem de começar na escola com a não convivência com a fraude escolar.” Mas levo mais longe o que ele disse e estendo isso para o sistema em si, que é uma fraude. Karnal diz ainda que a “corrupção é histórica, estrutural; e ela não é do governo. “A corrupção é a negociata, é o bom negócio para o qual não me convidaram.” “A corrupção é parte estrutural da sociedade brasileira […]” (https://www.youtube.com/watch?v=j0WCvNyHaqE)

Adriano Las disse:
24 de abril de 2015 às 06:15

... vangloriam-se de que o réu, diante da justiça, de uma cpi ou da nação, até em casos envolvendo agentes, dinheiros e interesses eminentemente públicos, para além de, inconsequentemente, poder silenciar, possam até mentir, descaradamente, não deveria estarrecer o anonimato das vítimas que denunciam.

Adriano Las disse:
24 de abril de 2015 às 07:31

É muito jurista pra tão reles tema.

Temos a indecorosa condecoração mineira de ministro 'gente-nossa'; a sabotagem da missão institucional do CNJ; a estuporante questão Toffoli; a impunidade; etc. etc. etc.

Dentre tantos e tantos e tantos outros temas graves, cruciais importantes a merecer a reflexão de um jurista realmente independente e cioso da sua influência como formador de opinião.

O distinto articulista cuide para não virar inyerlocutor e mediador de bullying.

Miguel Teixeira Filho disse:
24 de abril de 2015 às 08:46

Hehe... Pelo jeito o Lênio arrumou outro admirador semanal. "Tás bem", hem, professor?

J.Koffler - Cientista Jurídico-Social disse:
24 de abril de 2015 às 09:30

Minha experiência em sala de aula e, atualmente, como orientador de mestrado e doutorado, me permitiram fundamentar uma convicção inarredável: substancial número de docentes dão aula como autômatas, e mais substancial ainda é o número de acadêmicos que sequer sabem que estão em sala de aula. Diante desta constatação, não há lugar para avaliação de professor, seja anônima ou não.
Os sistemas de avaliação, tanto de um estrato quanto do outro, devem ser sempre independentes, i.e., por indivíduos externos ao ambiente e que sopesam o desempenho desses estratos por meios técnico-científicos estranhos à relação docente-aluno-docente.
A meu humilde observar, são pouquíssimas as instituições que efetivamente ditam aulas educativo-formadoras, e ainda menores são os alunos comprometidos com o aprendizado - alguns até involuntariamente, porque assoberbados por um conjunto de atividades que não coaduna com a mínima necessidade de concentração em aulas, ao passo que outros por pura displicência e/ou desinteresse na relação ensino x aprendizado.
Mais. Acredito apenas num modelo didático-pedagógico para a relação educativa (nomeadamente na formação jurídica): o método de caso (como em Harvard, a pioneira nesta metodologia). Ou o aluno possui capacidade e formação para analisar de maneira racional e lógica e discernir objetivamente, ou nunca sairá da confortável posição de mero observador das perorações do professor, enquanto sua mente divaga sobre incontáveis outros assuntos de uma escala variadíssima de relevâncias.
Não estou menosprezando o sempre didático texto do Prof. Lênio, apenas não me parece que seja um tema que deva ser sobrevalorizado - com a devida vênia -.

Ô Sensatão disse:
24 de abril de 2015 às 12:43

com alguma facilidade liberdade com libertinagem. Liberdade pressupõe responsabilidade, isto é, estar disposto a sofrer a consequência de seus atos. Quer achincalhar o professor sem fundamento? Sem problema. Apenas entenda que a consequência pode ser responsabilização por danos morais.

Eu me lembro que na PUC fazíamos a avaliação online, dentro do site do aluno. O professor recebia a avaliação sem identificação mas a Universidade tinha como saber quem disse o que...

De outro lado, é fato que estamos demasiado sensíveis...

João Estagirita disse:
26 de abril de 2015 às 23:12

Li, sem espanto, que o colunista não ministra aulas para a graduação desde 1996! 19 anos!
Primeiro, notava que o colunista desconhece o perfil médio dos alunos que frequentam os cursos de Direito.
Segundo, notava que o colunista não consegue ir além da denúncia espalhafatosa e retórica. Não se encontra nos textos do colunista alternativas, propostas exequíveis, realistas, factíveis, criativas.
Terceiro, os textos são longos e repetitivos. Neles não se consegue identificar um plano de exposição ordenado e uma argumentação limpa, clara e distinta (Descartes). É próprio de quem não está em sala de aula. Com o nível de formação da maioria dos alunos que temos hoje (mal sabem ler, mal sabem escrever, não sabem argumentar, são apáticos), um professor precisa ser ao mesmo tempo denso, problematizador, claro, preciso e conciso, sem ser simplificador. Quem escreve sobre qualquer tema uma coluna quilométrica é porque não conhece seu público-alvo, especialmente os alunos de graduação.

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