Decepcionante, sob qualquer prisma, o projeto de lei que acaba de ser aprovado pelo Senado, exigindo um ano de habilitação para que o motorista possa dirigir em estradas. Segundo o referido projeto os novos motoristas terão apenas uma permissão para dirigir em perímetros urbanos durante esse período, só depois podendo sair para as rodovias.
Trata-se de mais uma proposição destinada a esconder a ineficiência do sistema de fiscalização do trânsito e atribuir uma vez mais ao cidadão culpa que não tem.
Não quer o governo assumir sua exclusiva responsabilidade pelo caos na administração do trânsito em todos os níveis da federação.
Antes, para justificar a compra e instalação de radares como armadilhas nas ruas e estradas, indicava-se o excesso de velocidade como o responsável pela maioria dos acidentes. Há pouco tempo, passou-se a acusar o bêbado pelos acidentes nas vias públicas. Aprovou-se a chamada lei seca, até com inaceitáveis abusos de inconstitucionalidade. A fiscalização continuou deficiente. Vê-se agora que de nada ou pouco adiantou a referida lei. Agora, aponta-se o novo motorista como o culpado pelos mesmos acidentes. A fiscalização continuará falha e, então, diante da ineficácia da futura lei, as autoridades governamentais já terão outro bode expiatório.
O certo é que a administração de trânsito não existe ou é absolutamente inoperante.
De fato, o único sistema de fiscalização a funcionar na prática é o dos radares foto-eletrônicos que, de forma muito suspeita porque instalados ou mantidos por empresas remuneradas pela quantidade de autuações lançadas, registram supostas ocorrências de excesso de velocidade.
Infrações muito mais graves, de responsabilidade de velhos, novos, dopados, embriagados ou sóbrios motoristas, deixam de ser objeto de autuação.
Na cidade de São Paulo, aqui citada como exemplo porque, é de pasmar, segundo as autoridades nacionais de trânsito, é localidade em que a lei tem elevado nível de cumprimento, gravíssimas infrações de trânsito são constatadas a cada segundo por quem quer que utilize as ruas, seja como motorista, seja como pedestre.
Ônibus e caminhões, sempre conduzidos com excesso de velocidade, não observam qualquer sinalização, estacionam inadequadamente e em locais proibidos, fazem ultrapassagem indevida a todo o momento, avançam em sinais vermelhos e sobre pedestres mesmo nas faixas de travessia, sob equipamento foto-sensor e, pior, sob o nariz de agentes da polícia de trânsito, numa indicação de que a fiscalização falha deliberadamente e com aparente corrupção de seus agentes. As motocicletas atentam sob todas as formas contra o princípio básico da ordem no trânsito, que é a previsibilidade, sempre agindo com irregularidade e surpreendendo outros condutores e pedestres, com violência e malabarismos indescritíveis. Fazem das estradas e das ruas da cidade um verdadeiro rali de camicases e, por isso, não se preocupam também com a vida alheia.
Além disso, as vias públicas são mal acabadas, mal sinalizadas, mal iluminadas, com faixas divisórias de pistas apagadas, quando não fixadas sem margem de segurança para a movimentação de veículos, invariavelmente cheias de obstáculos (veículos, caçambas, carroças, entulho, lixo, buracos, inclinações e lombadas em situação visivelmente irregular), numa demonstração inequívoca de que o maior responsável pelos acidentes fatais na cidade é o próprio governo. E isso não é diferente nas rodovias.
Aliás, nas autovias nacionais, todo dia e toda hora, há os chamados viajantes da pista da esquerda, donos do mundo. Em geral andam em baixa velocidade. Não permitem que ninguém os ultrapasse, senão pela direita. Há os privilegiados ou da vantagem, únicos com o direito de chegar na frente, os escolhidos, que tomam em alta velocidade os acostamentos. Esses, mesmo velhos de carta, como se diz, deveriam ter suspensa a habilitação, porque não raramente causam transtornos e acidentes, com danos a toda a sociedade.
Todavia, para eles, não há fiscalização e conseqüente punição.
É necessário considerar, de qualquer modo, que as infrações, praticadas, ao contrário do que se propaga, tanto por velhos como por novos motoristas, poderiam ser evitadas, em grande parte, com suficiente campanha educativa, através de orientação pessoal de agentes da administração pública ou por meio de sinalização, com placas mais informativas do que ameaçadoras.
O que sucede, na verdade, é que, na medida em que se tornou conveniente transformar o Código de Trânsito em Código Tributário, um instrumento de arrecadação, quanto mais infrações existirem, melhor para o orçamento dos governantes.
O que ninguém quer tornar transparente é a real destinação que tem sido dada à arrecadação das multas de trânsito que, de acordo com o CTB, deve ser aplicada, exclusivamente, em sinalização, engenharia de tráfego, de campo, policiamento, fiscalização e educação de trânsito. Uma coisa é incontestável: a sociedade não tem visto esse retorno.
Ora, qualquer projeto para tornar mais rigorosas as sanções contra os motoristas ou restringir-lhes os direitos deveria pressupor uma situação ideal ou exigir, primeiro, a implantação de uma malha viária sem falhas e um sistema de fiscalização comprovadamente eficiente. Só é possível aprimorar o que já funciona em condição de regularidade. Em outros termos, não é possível melhorar o que não existe.
Não se deve imputar ao cidadão unilateralmente a responsabilidade pelos defeitos de um sistema cujo funcionamento depende predominantemente do Estado.
E o projeto inicialmente mencionado, mesmo em circunstâncias ideais, revelar-se-ia ineficaz e até injusto. Basta, pois, imaginar o fato de que, para o cumprimento da nova lei, se aprovada, motoristas das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, por exemplo, que têm no seu território urbano vias com mais de dez quilômetros de extensão, com várias pistas de elevada velocidade, com um volume de milhares de veículos por hora, mesmo sendo considerados habilitados a conduzir veículos em situação tão complexa, só terão o direito de dirigir em pacatas estradas do interior depois de um ano da habilitação.
Para dizer com outras palavras, seria o mesmo que exigir do médico experiência em cirurgias neurológicas para dar a ele habilitação de clínico geral.
Esqueceu-se o Senado de que milhares de condutores de veículos nas cidades e estradas brasileiras, velhos ou jovens, nem mesmo contam com uma carteira de habilitação, ou porque nunca a tiveram ou porque tiveram o seu direito de dirigir suspenso. E sem fiscalização efetiva nas ruas e rodovias isso nunca mudará.
O que dizer daqueles que, em grande número, conseguem dos órgãos competentes, no endêmico esquema de corrupção, por meio de falsificação de documentos, sua carteira de habilitação, sem nunca ter freqüentado curso teórico ou prático de trânsito? Certamente as vias públicas nacionais continuarão ocupadas por incontáveis falsários, com carteira fajuta de habilitação de motorista datada de mais de ano.
Talvez fosse o caso, então, de exigir o povo que o deputado ou senador só tivesse autorização para apresentar projetos de lei depois de um ano de experiência na apresentação de projetos para alteração do regimento interno de sua casa legislativa.

É lamentável que este tema tenha passado até agora sem nenhum comentário. O que diz o nobre procurador de justiça é da maior importância uma vez que o trânsito no Brasil tornou-se para o poder público um meio de arrecadar dinheiro extra da população, e nada mais. O caos é visível e o que se nota por parte dos órgãos públicos responsáveis é tão somente o incremento na fiscalização visando a multa de infratores, para felicidade geral de prefeitos e governadores.
Eu só concordaria com essa proposta se:
1 - O processo de habilitação fosse realmente eficiente e não essa pasmaceira atual.
2 - O Estado fizesse a devida manutenção das vias (a gente dirige em zigue-zague para desviar de buracos, correndo risco de acidentes).
3 - Existisse realmente fiscalização de transito e não radares para multar os "loucos" que dirigem a 50 km/h em zonas de 40 km/h.
É muito comodo jogar a culpa nos motoristas. Como sempre nossos nobres deputados e senadores jogam apenas para a torcida, pois eles podem depois dizer, "Eu faço o que posso para resolver o problema".
Só um detalhe: na proposta do senador Mercadante, uma das alegações era de que motoristas jovens são inabilitados, porém, uma estatística do próprio governo indica que nos últimos 4 anos, 80% das novas habilitações foram para individuos com mais de 30 anos, portanto, teoricamente, mais responsáveis.
O Estado torna o cidadão um criminoso. Mais cedo ou mais tarde, o crime acontece, mas porque o Estado quer que assim seja.
Para quem é honesto tudo fica cada vez mais difícil, os bandidos há muito tempo nos chamam de otários.
Quem é o bandido? É alguém que nos tira tudo sem nada dar como contrapartida. Êpa, essa definição cabe também ao nosso governo!
Quanto a essa exigência de somente dirigir nas estradas quem tiver mais de um ano de carta, nossos filhos irão respeitar sob pena de pesadas multas, ao passo que, os maladros, os oportunistas darão um jeitinho.
O jeitinho é simples: ao emitir uma carteira de motorista falsa colocam a data de emissão anterior há um ano. Alguns vão vender, muitos vão comprar... É só esperar para ver.
Enquanto isso, nós os otários cada vez otários!
O que falta é conscientização do condutor, do excesso de velocidade, somado a achar que mesmo bêbado dá para dirigir. Vamos gastar com publicidade, mostrar acidentes nas escolas, educar, educar, falar, falar, até que entre nas cabeças dos jovens, os mais velhos, é mais difícil.
O texto poderia ser mais amplo. A transferência de responsabilidade do Estado para o cidadão é muito mais ampla que a simples proibição de condutores com menos de 1 ano de carteira dirigir em estradas. Começa das campanhas "educativas" da polícia militar (do tipo não pare seu veículo em ruas escuras, saia de casa sem jóias ou objetos de valor, instale alarmes em seu automóvel e/ou residência) ao invés de investigar a bandidagem, até a probição de bebidas nos estádios porque a polícia não consegue prender os baderneiros profissionais. A proibição em questão não é válida por um único motivo: o sistema de habilitações não prepara o condutor para nem nas cidades, que dirá nas estradas. Assim, só atrasará o condutor inexperiente a adquirir experiência, ainda que por conta própria, como a maioria dos motoristas brasileiros.
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