Governo não pode patrocinar evento religioso

Escrevo constantemente sobre questões de comportamento institucional, margeando o relacionamento entre os poderes republicanos e, algumas vezes, trato da questão da religião, pinçando alguns exemplos de preferências governamentais que não podem surgir, na configuração republicana brasileira. De um lado, os católicos não concordam porque acreditam que manifestações tipicamente católicas são (ou se tornaram) essencialmente culturais. É um bom argumento, mas não convence. De outro lado, os evangélicos reclamam, argumentando que a preferência histórica dos governos é católica e, assim, eventos protestantes deveriam ser incentivados. E, finalmente, outros ainda, pensam que difere Estado laico do Estado ateu, o que concordo plenamente.

Paulatinamente, vamos desfazendo alguns equívocos e reafirmando mais rigorosamente a posição. Primeiramente, assiste razão àqueles que afirmam que o Brasil não é um Estado Ateu. Por certo que não! A Constituição da República de 1988 prevê a mais ampla liberdade de culto, o que significa que não orienta qualquer cidadão a não manifestar a preferência religiosa. Em meu ver, ocorre o contrário – com as isenções tributárias e os incentivos municipais e estaduais em doações de terrenos e outros benefícios, o Estado promove um incentivo à liberdade de culto, o que é um avanço de sincretismo numa nação exemplar em matéria de convivência pacífica.

Dito isto, devo distinguir: a profunda liberdade de culto não significa a preferência ou a exposição pública da tendência católica, evangélica ou de qualquer outra manifestação. Se o catolicismo tem precedência ostensiva em favores públicos, seja a prática afastada de imediato, discernindo o que é público e o que é manifestação fervorosa individual ou mesmo popular. Sessões públicas não podem abrir os trabalhos com orações, cultos, rezas, mantras, invocações, enfim, cada qual deve praticar a sua própria crença individual, mas não pode impor aos expectadores determinada orientação ou fazer do espaço público um palco para essa exposição preferencial.

E, no Brasil, discutimos tanto uma cisão entre catolicismo e evangélicos, porque são francas minorias os budistas, hindus, judeus e umbandistas. Ora, o umbandismo é o sistema religioso gerado da miscigenação tipicamente brasileira e ainda sofre enorme carga de preconceito, o que é um absurdo. Em termos culturais, poderíamos afirmar que aí sim reside uma manifestação que carreou claríssimos desdobramentos na música popular brasileira, por exemplo. A comunidade islâmica, extremamente forte e organizada no país, convive pacificamente com a comunidade judaica, enraizando-se nos mais diversos setores da vida nacional, assim como os budistas saem lentamente de guetos para ganhar força nas mais variadas cidades brasileiras.

Isso tudo é ótimo e faz mostra de que o Brasil é, deveras, um Estado Laico, não orientando a população e permitindo o fortalecimento de todas as crenças que convivem simultaneamente. A questão não é esta. O problema reside no patrocínio, com dinheiro público, de determinados eventos populares que são religiosos. Aí peca o administrador público que faz da preferência pessoal ou coletiva de seu staff um desvio de recursos para valorizar quem quer que seja. Por exemplo. As festas católicas de santo, por mais centenárias que sejam essas tradições, não devem ter qualquer centavo do erário. Outro exemplo. Os shows evangélicos, por mais populares que sejam os encontros, não devem ter um centavo do erário. E, se fôssemos declinar todas as religiões, diríamos exatamente o mesmo: os umbandistas, os islâmicos, os judeus, os hindus etc.

É a velha máxima do equilíbrio – se o poder público faz por uma crença religiosa, deve fazer por todas. Então, o Estado Laico republicano e democrático, surgido da ordem constitucional, desde 1891 até 1988, não deve fazer por nenhuma doutrina, mormente usando-se de dinheiro público, até porque os tributos são recolhidos indistintamente da fé, o que naturalmente não pode ser gasto para qualquer preferência. Aliás, já é hora do Estado Brasileiro discutir profundamente o empenho de verba pública para a conservação de Igrejas Católicas. Convenientemente, as igrejas mais antigas são classificadas como patrimônio público, de um lado, para beneficiar a Igreja com verba federal e estadual. Mas, de outro lado, o espaço conservado com recursos públicos está sob controle exclusivo e, algumas vezes, egoísta da própria Igreja Católica. Noutras palavras – quando é conveniente, é de todos e, quando não é, apenas de uma religião. Penso eu que a Igreja, enquanto instituição mais rica do mundo ocidental, deva cuidar de seus próprios templos. Mas se o poder público injetar qualquer real, deverá tomar para a sociedade o controle, a gestão, a fiscalização do espaço.

Surge, paralelamente à questão das manifestações religiosas e a proximidade com o poder público, a teoria da conspiração evangélica. A enorme comunidade protestante acredita que o objetivo da pregação da liberdade extrema de culto e de expressão, revelando mesmo os destinos do dízimo (tanto católico, como evangélico), significa uma espécie de preconceito. Errados. A imprensa pode e deve fazer o fiel observar exatamente o crescimento da organização e do patrimônio particular de seus gestores. E essas matérias não têm com objetivo atingir quem quer que seja, apenas revelar se este ou aquele administrador aplica recursos dos fiéis em benefício próprio ou não.

Qual o problema em saber que o Vaticano arrecada, armazena, financia bancos e outras tantas empresas, beirando alguns escândalos históricos e qual o problema em saber que os bispos com mitra e sem mitra, tornam-se bilionários com o dízimo? O fiel católico e o fiel evangélico continuará doando, provavelmente. Mas todos têm direito de saber, pelo menos, que seus donativos revertem-se para a sociedade como está na pregação ou não – são amealhados como patrimônio particular. Não vejo qualquer óbice à livre investigação jornalística.

O que vejo é uma enorme ignorância coletiva sobre o tema. Ora, se há um crucifixo num espaço público, pode-se livremente pregar a Estrela de Davi. E se há uma imagem de santo no espaço público, pode-se livremente fixar o símbolo do Islã ou mandalas budistas. Igualmente sagradas, igualmente divinas. Urge o aprendizado já realizado noutros países. Opção religiosa é um direito, deve ser exercido livremente, inclusive na educação, cultura e hábitos de um povo. Não se pode vedar o acesso de uma mulher islâmica, apenas porque porta o vestuário diferenciado, assim como não se pode discriminar o umbandista ou budista por suas roupas características. Mas o pior de tudo não é discriminar: é preferir, por meio do poder público e dos recursos públicos.

Como ser humano, tenho as minhas convicções. Como cidadão, arco com os tributos independentemente da minha crença e sei que milhões de brasileiros fazem o mesmo. Se assim é, não autorizo os mandatários a gastarem o meu dinheiro num culto, numa missa, numa sessão espírita, num terreiro, num mosteiro, porque saberei que outros cidadãos-contribuintes também não autorizaram e recursos públicos são de todos e não de facções. Aí está o problema — a contaminação sectária de alguns governantes que querem manifestar a fé no espaço público, encomendando missas em palácios, cultos em ginásios, financiando estes ou aqueles eventos.

Felizmente, ainda é uma minoria que pensa constranger a liberdade de expressão. Fazemos votos que não haja fanatismos, sectarismos ou extremismos. Vamos formatar no Brasil a mais completa liberdade religiosa e cultural. Concomitantemente, vamos fomentar a separação definitiva entre o Estado e qualquer religião.

Eduardo Mahon

é advogado em Mato Grosso e Brasília, doutorando em Direito Penal e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

A.G. Moreira disse:
12 de abril de 2008 às 10:07

O autor acredita que a sua vontade, a sua interpretação da lei e a sua aversão pela Igreja Católica , poderão fazer com que o Estado ( submisso, absoluto, do povo ) não aceite as manifestações religiosas públicas e os símbolos sagrados do povo, em lugares públicos , esquecendo que o cidadão, ao se submeter ao Estado, tem a certeza, pela sua fé, que também o Estado está abaixo e submisso a Deus e só aceita a justiça dos homens, por considerá-la ( enquanto JUSTA) a vontade de Deus ! ! !

O autor perde o seu tempo discutindo estes temas nesta tribuna, pois os que aqui atuam, pouco ( ou nenhum ) compromisso têm com Deus e com a Sua Justiça ! ! !

Que o autor ( profeta das trevas ) vá para a praça pública e tente convencer o povo que a sua crença e religião são um êrro hereditário , condenável e inaceitável ! ! !

jose brasileiro disse:
12 de abril de 2008 às 10:44

O estado que colabora com carnaval, paradas e outras coisas.
Pode ajudar sim a igreja (povo), pois o estado não estara cometendo pecado.

Tem muita coisa, que não concordamos com a igreja catolica, mais a nação brasileira, deve muito a ela....

veritas disse:
12 de abril de 2008 às 10:54

Se fosse mensalão, cartão corporativo ...

A G esta sua constatação e muito dura e triste mas parece ser a mais pura realidade.

veritas disse:
12 de abril de 2008 às 10:55

Imagina gastar dinheiro público com carnaval, enquanto meses depois milhares ficam doentes por dengue, isso quando não morrem.

Antônio Macedo disse:
12 de abril de 2008 às 20:18

Segundo a boa doutrina moderna, são elementos do Estado: povo, governo e território. Sem um desses elementos, conclui-se que não existe Estado - a exemplo da Palestina. Se o Estado é laico, a grosso modo, subentende-se que o povo também é laico, bem como o governo. Isso geraria uma discussão sem fim. Mas, quanto ao assunto em tela, entendo s.m.j., que nada impede que o Estado colabore com as instituições religiosas, o que não pode é o Estado interferir.

Luís da Velosa disse:
12 de abril de 2008 às 20:28

A separação pretendida, é impossível. Infactível.

As crenças religiosas, estão incrustadas no inconsciente coletivo, na alma do Povo do mundo. O poder do Estado emana do Povo e o deste emana de Deus. só o Povo tem o poder de decidir sobre o assunto.

Se o Brasil ou outro Estado alimentar idiossincrasias e secessões religiosas, será uma catástrofe.

Lembremos o que aconteceu com o leste europeu depois que "buliram" com a Polônia e um polonês foi eleito S.S. João Paulo II. Os valores se diluirão (AINDA MAIS) e o homem fenecerá em vida.

Aliás, Rui Barbosa escreveu um livro que todos nós deveríamos ler: AS BASES DA FÉ.

É o que penso, mas tenho a certeza que um assunto dessa magnitude deve ser discutido profunda e ecleticamente.

Permissa maxima venia, mas um Estado que deixa os recursos do povo esvairem-se de forma tão ideofrênica, não tem condições morais para negar-se a nada.

Mas, certamente, vale a boa intenção.

Neli disse:
13 de abril de 2008 às 01:06

Faltou o articulista dizer que a Imunidade Tributária para os templos,seitas de qualquer culto constitui uma aberração constitucional.
Um absurdo os ateus, ou não, ficarem sustentando ,por meio da imunidade tributária, templos,seitas etc.

Não cobrar imposto de renda de igrejas e,no entanto, cobrar dos brasileiros uma altíssima carga tributária,isso constitui uma aberração.
Disse,Jesus Cristo:dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus:paguem impostos...seitas e igrejas.
Sou Católica Apostólica Romana e não vejo nenhum problema ter um Crucifixo em um local público,mas,vejo uma aberração constitucional,o contribuinte ficar sustentando de modo indireto todas as Igrejas,sejam quais forem.

Os evangélicos se apegam em feriados de dia Santo,mas,se esquecem que o Natal também é um dia santo e feriado;e,se esquecem da aberração constitucional chamada imunidade.
Liberdade de culto não pressupõe um ateu ou um agnóstico sustentar igrejas,seitas...

Se se o estado é laico,pq ter essa aberração constitucional?

In Corde Jesu, semper.

Neli disse:
13 de abril de 2008 às 01:52

Quanto o Poder Público "restaurar" Igrejas...penso que o articulista se esqueceu que os maiores artistas do mundo ,no passado, se dedicaram ao Sacro: Gioto,Piero della Francesca Felipo Lipi, Leonardo,Michelangelo,Caravaggio.
As iluminuras!
O articulista se esqueceu que Aleijadinho foi o maior artísta brasileiro e outros escultores pelo mundo,como Bernini,Donatello e Pisani;e na música,Santa Cecília é padroeira e foi homenageada por inúmeros músicos eruditos; canto gregoriano, Vivaldi e José Maurício Nunes Garcia, então é fácil,jogar pedradas na religião,mas,graças a religião católica,hoje,pode-se olhar e apreciar os grandes gênios do passado.
E,se uma capela ou igreja histórica,de valor artístico merecer uma restauração,o Poder público pode ,e deve, protegê-la,fomentando o restauro,para legar aos brasileiros daqui a duzentos /trezentos anos uma obra de arte ;o que nos foi legado no passado.
Talvez porque ali no passado os que eram contra a Igreja Católica ,quebraram o sectarismo e apreciaram as obras de arte.

Repiso-me,o que o senhor deveria combater é o absurdo chamado imunidade tributária para todas as religiões...também o feriado de Natal,pois,se o Estado é laico,deve ser totalmente laico e não laico contra a Igreja Católica tão-só.

In Corde Jesu, semper

A.G. Moreira disse:
13 de abril de 2008 às 09:17

1 - Etiam scriptum est :

Os "cobradores de impostos", dificilmente, entrarão no Reino dos Céus ! ! !

2 - Quando o Senhor Jesus disse : "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" , foi para deixar claro que ELE não veio para "levar vantagem", "cobrar impostos ou tributos" , mas, pelo contrário, veio para dar e doar-SE, "tantum, quantum satis" , para "Resgatar" o que estava perdido ! ! !

3 - Quanto à Igreja Católica não ser "tributada", é necessário considerar, alguns pontos históricos :

a) - Que seja lida a "Concordata" entre a Igreja e o Estado ;

b) - Que os "cobradores de impostos" saibam distinguir "contribuinte" de uma Instituição que, além de não VISAR LUCROS, há séculos ajuda o Estado em Programas sociais, pelos quais a Igreja, nada cobra, além de subsídios para melhorar a ASSISTÊNCIA SOCIAL, que o Estado nunca deu conta de cumprir ! ! !

4 - Para quem acha que o patrimônio da Igreja é extenso, é necessário informar que a Igreja Católica do Brasil é DEFICITÁRIA e necessita e recebe auxílio, não só do Vaticano, mas, também, de várias Igrejas e Congregações Católicas de países mais ricos ! ! !

5 - Finalmente, incito que os "cobradores de impostos" façam uma comparação entre o que a Igreja Católica do Brasil receber do Estado ( que não foi para enriquecer, mas para auxiliar o povo , católico, cristão ou ATEU ) e o que as ONG'S do "PT" e outras que dizer cuidar do ambiente de bixos,(em vez de gente) etc., mas, os seus dirigentes, "et caterva", levam uma vida nababesca e aumentaram o seu patrimônio, isto sim, às custas da MISÉRIA do povo ! ! !

Não posso terminar, sem questionar o que os contestadores ATEUS, fizéram e fazem pelo povo, para poderem criticar a Igreja Católica ! ! !

Paulo disse:
13 de abril de 2008 às 16:03

vale repetir a indignaçao...

a esses que nao enxergam ofensa em um crucifixo dentro de repartiçao publica.. dentro de tribunal especialmente..duvido que deixariam alguem colocar um buda ou uma cabeça de bode com longos chifres pendurada na parede..ou uma oferenda para orixas...dessas para espantar essas coisas que eles acreditam...

Paulo disse:
13 de abril de 2008 às 16:17

Deuses existem?

Existe vida apos a morte? espiritos?

Porque até o Esta brasileiro nao criou ministerios de assuntos "inter espirituais"..?

Todo mundo tem medo de dizer que o Estado , pelo menos o nosso, é ateu. Se nao é, deveria...pois se nao é, é o oposto..o que nao faz sentido. rs

Paulo disse:
13 de abril de 2008 às 16:18

corrijo...ai em baixo é:(...) porque até hoje (...)

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