Profissionais do Direito precisam se preparar para conflitos

Spacca

Dia 19 de setembro, em longa viagem de avião dentro do território nacional, surge um conflito ao meu lado. Um casal ainda jovem senta-se na primeira fila e coloca suas maletas de mão no colo. É proibido. O comissário de bordo se aproxima e informa que as valises devem ser colocadas no bagageiro. Eles contestam, dizendo que nos bagageiros não há lugar, evidentemente se referindo aos que estão acima do banco e não aos da segunda ou terceira fila.  Põem-nas embaixo da cadeira. Não pode, pois atrapalha os passageiros de trás. O comissário insiste, o rapaz se irrita e responde de forma agressiva. O comissário coloca as maletas no bagageiro localizado mais atrás. O ambiente se acalma, o voo termina, o avião pousa. Mas, antes que se desliguem os reatores, o passageiro se levanta, apanha as malas e  coloca-as no colo. Nova discussão, desobediência, o avião para. O piloto avisa que só prosseguirá no desembarque quando as ordens dos comissários forem obedecidas. O comissário leva as malas de volta ao bagageiro. O jovem olha-o com ódio, entre os dentes dirige-lhe os palavrões mais graves da língua portuguesa e só não o agride porque seriam muitas as testemunhas.

Sentado ao lado, partícipe mudo do conflito, fiquei impressionado com o profissionalismo do comissário de bordo. Sem alterar a voz, usando tratamento de senhor, serenamente ele fez cumprir as normas regulamentares. Veio-me então à mente: como se conduzem os profissionais do Direito nos conflitos que a vida, diariamente, coloca-lhes à frente?

Inevitável o silogismo. Premissas: a) os comissários de bordo são capacitados a enfrentar situações de conflito sem perder o controle; b) os profissionais do Direito não são capacitados. Conclusão: os profissionais do Direito, por não estarem capacitados para administrar corretamente as situações de conflito, expõem-se, sofrem e fazem sofrer.

Vejamos alguns exemplos, muitos deles retirados de fatos reais.

Das profissões ligadas, direta ou indiretamente, à área do Direito, as que mais se expõem a conflitos são as carreiras policiais. Ninguém fica feliz ao ser abordado pela Polícia Militar e não há quem goste de ir a uma Delegacia de Polícia. Vai daí que é comum a existência de atritos, fruto da exaltação de nervos. Isto pode ocorrer das mais variadas formas. Imagine-se que em uma Delegacia de Polícia a vítima de um furto ofenda todos, inconformada com seu destino. Mais difícil ainda é o atendimento de rua, feito pela PM. Parentes tentam interpor-se à ação policial, palavras ofensivas não são raras.

Como tem sido feito o preparo dos policiais? As academias de Polícia capacitam-nos para tratar com pessoas agressivas, com vítimas nervosas que vêm com a frase clássica “com tanto ladrão na rua, vocês…” ou com pessoas que se dizem amigas de seus chefes? Nos cursos preparatórios de seus membros são dadas aulas a respeito? Ou fica-se nas tradicionais informações sobre os prazos do inquérito policial?

E na Justiça, será diferente? Os oficiais de Justiça, obrigados a visitar locais de alta criminalidade, são orientados quanto aos procedimentos? E para atuar nas Varas de Família, recebem noções de psicologia para poder tratar com uma mãe de quem se tira a guarda de um filho? No atendimento de balcão das secretarias e cartórios, os servidores são treinados para atender um advogado exaltado com a demora de um ato processual?

Juízes têm formação que os habilite a lidar com as partes e seus advogados?  Como devem reagir em uma audiência diante de um réu que lhes dirija uma ofensa? Alguém explica a um ou um(a) jovem magistrado(a) que às vezes a provocação é estudada e nada mais é do que uma forma de afastá-los do processo através da suspeição? Não se esqueça de que boa parte dos juízes novos têm pouca experiência de vida, saíram da faculdade para a magistratura com vivência reduzida a um ou dois estágios.

O presidente de um tribunal está preparado para receber perguntas agressivas de um repórter? Depois de 30 anos de dedicação a despejos e rescisão de contratos, está o magistrado preparado para responder a indagação de um jovem jornalista, que o tratando sem cerimônia por você, pergunta-lhe se acha justo um juiz receber auxílio-moradia?

E no Tribunal do Júri, deve o promotor responder no mesmo nível de agressividade às acusações de um advogado que lhe atribui ser mentiroso e não ter lido o processo? No Ministério Público há aulas sobre como portar-se diante de tal ocorrência? Em situação totalmente oposta, como deve comportar-se o advogado que, acompanhando seu cliente ao gabinete do promotor para celebrar um termo de ajustamento de conduta em um inquérito civil, vê seu cliente ser tratado de forma desrespeitosa? Deve retirar-se da sala? Dizer “poucas e boas” ao agente do MP e sair batendo a porta?

Atualmente, mais do que nunca, estes atritos se sucedem. A vida urbana se complica, o trânsito nas cidades é irritante, a pressão exercida pelos meios digitais de comunicações tira os poucos momentos de paz, há gente em excesso, filas, tudo é disputado. Isto está retirando das pessoas a calma necessária a relações sociais saudáveis. O profissional do Direito não está preparado para enfrentar para tais situações. Nunca ouvi falar de capacitação destes profissionais neste tema, na prática as lições são transmitidas pelos mais antigos, de forma empírica. Os incidentes se repetem inutilmente.

Evidentemente, ninguém aprecia ser contrariado e, menos ainda, maltratado. Porém, é preciso respirar fundo pelo menos dez vezes antes de ir ao extremo, porque depois não tem volta. Por exemplo, o advogado em uma audiência deve ter preparo emocional para saber contornar uma indelicadeza do colega da parte contrária. Não deve responder na mesma moeda, porque daí será levado a um caminho imprevisível e sem volta. Fingir que não entendeu, não pessoalizar, não é covardia, mas sim inteligência emocional.

Um juiz que em audiência perde o controle e discute com o advogado ou com a parte, perde sua autoridade, mostra-se despreparado para a função. Um professor de Direito que reage aos gritos contra o aluno que conversa em sala de aula, arrisca-se a perder sua autoridade, além de outros problemas. Melhor será pedir ao aluno que o espere ao fim da aula para uma conversa particular, quando o problema será enfrentado com maturidade e educação.

Bem sei que há situações extremas, onde, por vezes, o autocontrole torna-se quase impossível. Mas é aí que o profissional preparado se distingue dos demais, é na crise que se revelam os talentos. Saber lidar com tais situações é um dos requisitos para o sucesso profissional e também ajuda a evitar doenças estomacais e ataques cardíacos. Por outro lado, o comportamento certo não deve ser exclusividade dos mais talentosos, mas sim cultivado através de profissionais especializados, em aulas nas academias de Polícia, escolas da magistratura, MP, Defensoria Pública, procuradorias e espaços da Ordem dos Advogados do Brasil. Assim, quem sabe, um dia chegaremos à competência do comissário de bordo mencionado ao início do texto.

Vladimir Passos de Freitas

é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR, desembargador federal aposentado, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça, promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Renato Adv. disse:
21 de setembro de 2014 às 11:43

Matéria CONJUR: Doutor Desembargador Vladimir Passos de Freitas.

“Profissionais do Direito precisam se preparar para situações de conflito”
Prezado Doutor Desembargador Vladimir Passos de Freitas.
Li e reli sua excelente matéria no CONJUR, parabéns pelo desenvolvimento do tema muito bem elaborado.
Sou um velho advogado, mas, dia a dia sempre aprendo com satisfação algo novo, e sua matéria também serve para que os advogados e (eu), possamos adotar procedimento pautado como o do comissário de bordo.
Por outro lado, nas audiências, o judiciário e muitos juízes necessitam mudar suas posturas, pois, em muitos casos, o próprio juiz de início deixa partes, advogados, testemunhas muito estressados em vista da maneira de / em conduzir os trabalhos, especialmente na justiça do trabalho, em que juízes fazem uma tremenda pressão e com muita pressa em “quase que obrigar” as partes fazerem a todo custo acordos que deixam as partes e seus advogados frustrados.
Parabéns mais uma vez pela despretensiosa aula.
Cordiais Saudações.

Renato Carlos Pavanelli.

Marcos Alves Pintar disse:
21 de setembro de 2014 às 13:11

Infelizmente, nós temos uma tendência no Brasil no sentido de que atritos entre os coadjuvantes da Justiça cresçam exponencialmente. O Judiciário e as autoridades públicas brasileiras ainda estão com os pés no século XIX, enquanto a massa da população quer um serviço público com um mínimo de qualidade. Para manter tudo como está, os agentes públicos tentam desmoralizar, criminalizar os críticos e todos aqueles que de alguma forma apontam novos horizontes ou instigam os demais a pensar o Estado de uma outra forma. Exemplos recentes tivemos com o atrito entre o Advogado Pacheco e o nada saudoso ex-ministro Joaquim Barbosa, bem como as investidas do ex-presidente do TJSP contra um sociólogo que lançou críticas ao funcionamento do Judiciário (ingressando com ações julgadas improcedentes). Mas o fato é que as Instituições não estão prontas para uma resposta. As corregedorias e o próprio CNJ, chamados a decidir casos concretos de atritos, dão de ombros. A Ordem dos Advogados do Brasil finge que o problema não existe, simplesmente saindo em defesa do advogado quando esse faz parte do grupinho que domina a Instituição INDEPENDENTEMENTE DO QUE TENHA OCORRIDO, ao passo que tenta aplicar penalidades quando o advogado envolvido é considerado como inimigo dos grupos dominantes. E diante da incerteza, e da possibilidade de insultar, caluniar desafetos sem responsabilização, o problema cresce, dia a dia. Veja-se que em relação ao atrito no STF, quando o Advogado foi expulso da Corte, nós não tivemos até o momento uma unica resposta formal da Ordem. Ou a OAB deveria considerar que o Advogado teve suas prerrogativas violadas, e promover o respectivo desagravo, ou deveria considerar que o Advogado extrapolou, com a aplicação das penalidades cabíveis. Mas nada é feito.

Armando Rovai disse:
22 de setembro de 2014 às 01:13

Excelente texto do Dr. Vladimir Passos de Freitas.
Parabéns !

Zé Machado disse:
22 de setembro de 2014 às 08:31

O advogado deve estar preparado para conciliar e também para enfrentar conflitos, sem, todavia, levar para o campo pessoal. Profissionalismo acima de tudo, como bem ensinou o comissário de bordo.

Zé Machado disse:
22 de setembro de 2014 às 08:31

O advogado deve estar preparado para conciliar e também para enfrentar conflitos, sem, todavia, levar para o campo pessoal. Profissionalismo acima de tudo, como bem ensinou o comissário de bordo.

Amaralsantista disse:
22 de setembro de 2014 às 09:35

Com certeza, em todos os casos abordados pelo ilustre Professor, percebo a total falta de educação dos profissionais citados. Educação ensina-se no seio familiar e é a base para o resto da vida. O que se apreende nas escolas é instrução. No caso do comissário de bordo, ali ele mostrou a verdadeira educação ensinada por seus pais e consequentemente defendendo seu emprego. No caso dos operadores do direito, uns ingressaram por concurso e outros exercem sua profissão de forma liberal. Em todos os casos, portanto, a educação é fundamental para a convivência humana. Esperemos que um dia os governos invistam maciçamente em EDUCAÇÃO. Excelente texto!!!!!!

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