Paulo Fontes: Contra a islamofobia — quem não é Charlie na França

Após o atentado contra a revista Charlie Hebdo, escrevi um artigo neste espaço (Charges do Charlie Hebdo: liberdade de expressão x tolerância religiosa) no qual, ao tempo em que rejeitava o extremismo e a violência, esbocei uma crítica às caricaturas do jornal, afirmando que a liberdade de expressão teria limites frente ao sentimento religioso.

Alguns sustentam uma concepção mais absoluta da liberdade de expressão. Ela só poderia ser cerceada em caso de incitação mais direta à discriminação e à violência. Afirma-se, e não se pode negar, que intolerantes são os que reagem com armas ao crayon. O que questiono, e parece óbvio em outros campos, é se a tolerância e a necessidade de convivência não recomendariam limites até mesmo a uma liberdade tão fundamental; tolerar algo ou alguém é conviver com características que não nos agradam. Mais uma vez, pode-se retrucar: que os muçulmanos convivam melhor com as críticas e as caricaturas. Mas um aspecto que deve ser levado em conta nesse conflito de princípios é a essencialidade do sentimento religioso para o crente. Algumas vozes na França vêm se manifestando nesse sentido.

Thibaud Collin, professor de filosofia num colégio católico em Paris, em artigo publicado no Le Monde em 15 de janeiro criticou também as sátiras da Charlie e afirmou que “exigir que um muçulmano se torne um bom cidadão e adira aos valores de uma República cuja encarnação seria ‘Charlie’, é na prática excluí-lo da nação e atirá-lo nos braços dos islamistas que só estão esperando por isso.”

No mesmo dia, Rony Brauman, ex-presidente dos Médicos sem Fronteiras e professor de relações internacionais na Sciences Po em Paris, em artigo intitulado “O que há de não-Charlie em mim”, evita chamar de covardes os jornais ingleses que deixaram de reproduzir as caricaturas da Charlie após o atentado. Dizendo-se a favor do direito de blasfemar, Brauman teme, contudo, que a sátira seja mais ou menos permitida de acordo com seu alvo, lembrando que a Charlie Hebdo demitiu em 15 de julho de 2008 o cartunista Siné, acusado de antissemitismo por conta de uma crônica escrita no semanário alguns dias antes; Siné chegou a sofrer investigação pela Justiça francesa.

Também no Le Monde um coletivo de autores, envolvendo lideranças de imigrantes e a União judia francesa pela paz, publicou o artigo intitulado “Mais que nunca, é preciso combater a islamofobia”. Rejeitam o que chamam de escolhas binárias e propõem perguntar se existe uma relação entre a política levada a cabo pelos países ocidentais e o crescimento dos grupos extremistas e fanáticos, afirmando, como exemplo, que a Al-Qaeda não existia no Iraque em 2003 e não possuía base territorial, e que agora o Estado Islâmico controla parte do território do Iraque e da Síria. Lembram ainda que o drama dos palestinos alimenta a ideologia dos grupos mais extremistas, como admitiu o secretário de Estado americano John Kerry. Defendem uma política de conciliação com os muçulmanos franceses, inclusive se lhes assegurando direitos como o uso do véu islâmico pelas estudantes nas escolas públicas (em 15 de setembro de 2009, artigo meu publicado na Folha de São Paulo – Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa – criticava a proibição do véu islâmico na França).

Enfim, como dito, as coisas são mais complexas do que as escolhas binárias e deve-se refletir sobre a política ocidental em relação ao mundo islâmico e aos imigrantes muçulmanos. Senti-me obviamente confortado com os pontos de vista explicitados acima. E vai no mesmo sentido a declaração do Papa Francisco de que há limites para a liberdade de expressão, afirmando,  com sua jovial coloquialidade,  que ofender a religião de alguém é como xingar sua mãe.

Paulo Gustavo Guedes Fontes

é desembargador do Tribunal Regional Federal da 3ª Região e doutor em Direito do Estado pela USP.

Sil disse:
06 de março de 2015 às 10:13

Se eu disser para vocês que nos domingos temos que andar numa perna só, isso soaria ridículo e todos dariam sonoras gargalhadas. Mas se for parte dos costumes da minha religião, ninguém pode esboçar sequer um sorriso.
Em resumo, devemos respeitar a ignorância, os absurdos, os desmandos de uma casta de indivíduos bárbaros, desde que tenham um cunho "sagrado".
Respeitem o tratamento desumano reservado às mulheres, as punições bárbaras decretadas por líderes religiosos. Faz parte da cultura e da religião deles.
Acho que isto me faz religiofóbica. Minha mãe está acima de qualquer crença em seres sobrenaturais.
Agora podem começar a execração ao meu livre pensamento.

Antonio D. Guedes disse:
06 de março de 2015 às 10:16

Também me senti melhor com este artigo contrário à corrente: aliás, conforme Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra. A fé islâmica afasta a reprodução (mesmo reverenciadora) das figuras dos líderes religiosos. Se já seria blasfêmia fazê-la positiva, o que se dirá então de fazê-la denegridora e até "escrachada"? Imagine-se, com essas charges, a sensação de rejeição e sofrimento de pessoas recebidas no seio do que consideram a mais alta civilização, que antes colonizara seu povo! A liberdade de expressão não tem limites, mas as idéias que desejamos expressar mostram os limites de nossa civilidade, tolerância, respeito ao outro. Sartre é que disse que "o inferno é o outro". Para a civilização, o outro é o anjo que vem colaborar com o bem estar em nossa sociedade, geralmente fazendo os serviços menos remunerados, mais desconfortáveis e tidos por nós como degradantes! O mínimo que devemos fazer é respeitar-lhe as convicções religiosas e culturais, não como caridade ou gratidão, mas como expressão humanística e civilizatória. Direito à igualdade não é submeter todos ao rebanho, mas acatar que são e que sejam igualmente diferentes. Há mal estar até quando escrachamos nossos próprios deuses.

Observador.. disse:
06 de março de 2015 às 10:18

E todos as dissertações sobre o "Eu não sou Charlie" (quando nunca, de fato, se tratou de sê-lo) esquecem, talvez obnubiladas pelo politicamente correto (e outros pela covardia diante de tanta monstruosidade), que todo o escrito e toda frase clichê, como o "soco-em-quem-ofender-mamãe", não apagará a dor REAL daquelas pessoas de carne e osso(e não meras abstrações para usar em conversas-para-parecer-inteligente) que diariamente, são mortas, crucificadas, queimadas e decapitadas por pensarem diferente em regiões tomadas por radicais, que se alimentam da pusilanimidade (e da covardia) alheia.

Raphael Piaia disse:
06 de março de 2015 às 10:55

Com respeito ao articulista, o texto ignora uma das maiores e mais indispensáveis condições para o desenvolvimento da civilização ocidental: o direito à ofensa temperado por aquilo que os homens adultos modernos (e excessivamente melindrados) parecem ter esquecido, ou seja, o direito de ignorar.

isabel disse:
06 de março de 2015 às 11:48

Plagiando o cartunista André Dahmer : " o bem esfola, trucida e destrói o mal " ... ???? Ainda bem que a civilização ocidental e cristã somos o "bem" , né ?
A Europa está criando o "ovo da serpente" com sua política xenófoba derivada do eurocentrista... seus próprios filhos já estão preferindo se unir ao "mal" certamente porque não estão reconhecendo o "bem" entre os seus !

Observador.. disse:
06 de março de 2015 às 12:05

"Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade." - Irena Sendler (Jovem que salvou milhares de pessoas - principalmente crianças - durante a Segunda Guerra Mundial, tendo sido presa e torturada mas nunca apontando esconderijos).

Nos tornamos "racionais" demais e escondemos nossa covardia (do Ocidente) em frases de efeito e clichês, afetados, provavelmente, pela Síndrome de Estocolmo.Por mais que percebamos que uns são nutridos apenas pelo ódio à nossos valores e nada mais, procuramos enxergar em nós a desculpa para os outros nos trucidarem.
Ridículo.
Esta pessoa, acima, salvou outras pessoas (milhares) durante a Segunda Guerra Mundial, sem usar das nossas técnicas atuais de "como-não-fazer-nada-e-escrever-à-respeito".
À moda antiga, aprendeu que "uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração". Simples, não é?
Tenho vergonha do que ocorre atualmente com supostos intelectuais.Que escrevem, escrevem, escrevem e usam suas linhas para esconder e justificar sua inação diante de monstruosidades.

Fernando José Gonçalves disse:
06 de março de 2015 às 13:09

Então, para ser curto e grosso, penso da seguinte forma: O sujeito vive no Ocidente, onde os costumes religiosos são diametralmente opostos aos Islâmicos. Quer cultuar a sua fé, os seus costumes e professar a sua crença, que o faça, mas sem tentar infundir essa prática em relação a quem já tem a sua, professa crença diversa e pensa de forma diferente. Quem está certo? Isso é o que menos importa. Apenas por uma questão de hierarquia e respeito às maiorias, as minorias devem ficar quietinhas, fazendo o que acham certo, porém tendo em mente que, NA CASA DOS OUTROS, DEVE-SE RESPEITAR A ORDEM VIGENTE E ACEITAR AS CRÍTICAS, POIS QUANDO SE É MINORIA É ISSO MESMO QUE DEVE OCORRER. Se se sentir ofendido, antes de TRAVAR A GUERRA SANTA, MATANDO EM NOME DELA DE DE ALÁ, melhor seria pegar o banquinho e ir morar num outro país onde a religião e costumes mais se afine com o incomodado.

Fernando José Gonçalves disse:
06 de março de 2015 às 13:10

\"em nome dela e de alá"

Espartano disse:
06 de março de 2015 às 15:02

A liberdade de expressão garante a qualquer um o direito de ter uma religião.
Se uma religião não permite que se tenha liberdade de expressão, nem precisa dizer quem está errado nessa história.

Espartano disse:
06 de março de 2015 às 15:02

A liberdade de expressão garante a qualquer um o direito de ter uma religião.
Se uma religião não permite que se tenha liberdade de expressão, nem precisa dizer quem está errado nessa história.

CLAUDIO GONÇALVES DE OLIVEIRA disse:
06 de março de 2015 às 16:19

Parece que depois do atentado ao “Charlie Hebdo” na França, grande parte da imprensa ocidental demonstrou uma preocupação em não estimular a tal da “islamofobia”. O problema é que hoje em dia a “fobia” religiosa que mais mata no mundo é a “cristofobia”, como bem disse o colunista Reinaldo Azevedo. Todo ano, aproximadamente 100 mil cristãos são assassinados mundo afora apenas por causa de sua religião. E não se vê por aí nenhuma indignação mundial a respeito. Agora, ainda segundo o Reinaldo, “imaginem se 100 mil muçulmanos morressem todo ano, vítimas de milícias cristãs… O mundo talvez já estivesse em guerra. Mas como são apenas cristãos morrendo, ninguém dá bola”. Isso sem falar nos “intelectuais” do ocidente, que estão preocupados demais com a ...”islamofobia”! Ainda segundo aquele colunista, cabe uma indagação bastante pertinente sobre a questão: “por que cabe ao Ocidente cristão combater a suposta islamofobia? Por que as próprias entidades islâmicas também não se encarregam no assunto? (...)”. E mais: “Em que país do mundo o cristianismo, ainda que por intermédio de seitas, se impõe pela violência e pelo terror?”. Pois é. O problema, meus caros, é que o islã não é uma religião pacífica coisíssima nenhuma! Ela produz fanáticos, sim. E produz milícias armadas que se espalham pelo mundo afora, como o Boko Haram na África, que estupra, mata e mutila mulheres e sequestra crianças. E cabe ao islã e às suas autoridades sejam elas religiosas ou não, combatê-los antes que venham aqui ao ocidente com suas armas e bombas para matar inocentes e ameaçar mulheres e crianças. O islamismo precisa, urgentemente, isto sim, chegar ao século XXI.

Igor M. disse:
06 de março de 2015 às 17:00

Tenho observado que esse – falso – conflito entre liberdade de expressão e tolerância religiosa está se tornando, inconscientemente, a defesa do absolutismo religioso.
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A questão das charges de maomé demonstra, ao contrário do que se estipula, que a intolerância religiosa parte justamente do islã. E não é difícil constatar isto, visto que o mesmo argumento da “ofensa ao sentimento religioso” se daria pelo simples fato de se fazer um desenho de maomé sem nenhuma conotação irônica ou política já seria uma “ofensa” – ou blasfêmia, como queira dizer.
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Parece que essa corrente “relativista” não está atenta à realidade que, na verdade, o modo de vida ocidental já é, para muitos islâmicos, uma ofensa. Sim, vivemos uma ofensa para eles por não sermos islâmicos e agirmos de acordo com a imposição de sua religião. Eu, por ser ateu, já cometo blasfêmia na visão de muitos religiosos (islâmicos ou não). Por essa minha condição, já não consigo sequer visto para alguns países islâmicos; aos que consigo, não posso expressar meu ateísmo, pois posso ser preso, punido com castigos físicos e até morto. E para não resumir isto ao ateísmo: adeptos de diversas religiões podem sofrer a mesma coisa.
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Daí a pergunta: quem está ofendendo o sentimento e a liberdade religiosa de quem? Está claro que o sentido desta é o oposto, vindo do islã para o não-islã.

Igor M. disse:
06 de março de 2015 às 17:01

E mais: o conteúdo da liberdade religiosa nos dá o direito de cultuar ou não imagens e símbolos religiosos. Desde que eu não esteja em local de culto ou em residência alheia, eu não preciso ter respeito por imagens de divindades. O contrário disto seria uma sujeição à simbologia religiosa alheia, ou seja, imposição religiosa. Essa exigência de “respeito” com a imagem de maomé prega a violação da liberdade religiosa, de crença e descrença dos indivíduos, além da liberdade de expressão. Os limites são ultrapassados em sentido contrário!
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Parece que estamos esquecendo que passamos pelo iluminismo. Que nossa sociedade reconheceu e vem aprimorando os direitos humanos. Tudo em nome de um “relativismo” (que nem relativismo é) e da incitação de um conflito entre ocidente e oriente que não existe – ou não era para existir. Quem errou ali foi quem fez o atentado! Nenhuma outra religião ironizada pela revista teve uma reação tão medieval quanto aqueles islâmicos que atacaram a revista – e que foram repudiados até mesmo por diversas pessoas que comungam da mesma fé. Não houve abuso de liberdade de expressão pela revista francesa; mas abuso contra todas as liberdades e direitos conquistados pela sociedade internacional. Está havendo a tentativa de imposição de um absolutismo religioso em nível mundial. E nós vamos chancelar isto?

Veritas veritas disse:
07 de março de 2015 às 06:12

O que há são muçulmanos que matam cristãos, matam outros muçulmanos, não respeitam o direito do resto do mundo de ignorar o Islã e querem impor, pela espada, regras de 1500 anos atrás. Causa estupefação a defesa do terror, da barbárie e do retrocesso praticada por uma parcela dos muçulmanos, e é inadmissível o silêncio quase conivente do resto desta comunidade religiosa.

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